terça-feira, 13 de março de 2012

¨"SÓ SEI QUE NADA SEI"


Quando o filósofo Sócrates disse esta frase, certamente, falou de si. Mal sabia, que a humanidade, milênios depois da sua morte, se não registra, cotidianamente, esta sensação, deveria citá-la todos os dias. Provocada por um simples exercício de humildade e pela constatação de uma realidade massacrante.

O homem nasce com toda sua história pessoal por ser escrita, completamente ingênuo e dependente. Dentre todos os animais, é o que mais necessita, para sobreviver, dos cuidados e proteção paterna.Como disse Walloon o ser humano é essencialmente social.. Suas primeiras referências quanto aos sentimentos e sobrevivência sustentarão suas emoções durante o resto da vida. Os que tiverem acesso às Escolas, nelas encontrarão a oportunidade de interagir com o "outro" como parte do processo de socialização e de absorção mediante as diversas formas de informação, dos registros históricos e de todo conhecimento acumulado pela humanidade.

Adolesce e, há tempos havia a geração que queria mudar o mundo já mergulhado em profundas transformações. Hoje, os apelos do consumo, a globalização, a crise de valores, dentre outras distorções, derrubam identidades culturais e tentam padronizar traços étnicos, não raro, obrigando-o a sentir-se parte de um rebanho de matizes monocromáticas e desejos pasteurizados. Segundo estes conceitos, o que o diferencia é a quantidade de riqueza que consegue acumular. Alguns, mediante o próprio trabalho, outros, mediante o trabalho alheio.


Adulto, procria e repassa aos filhos, de acordo com as circunstâncias históricas, hábitos e costumes filtrados e interpretados pela diversidade cultural e pessoal, conceitos que creem verdadeiros e éticos ou ratifica preconceitos, contra os quais nem se dá ao trabalho de questionar, ainda que o motivo seja a formação de quem se responsabilizou em colocar no mundo.

Vista desta forma simplista a vida até que seria fácil, mas a monotonia ainda mais nociva porque, paralela a esta vida que vive fora da gente, existe outra, muito mais movimentada, povoada de seres pensantes, desejantes e insatisfeitos como vulcões a ponto de entrar em erupção.

Às vezes, fico sentada em lugares públicos olhando o desfilar de seres humanos e imaginando quantos "mundos" mais complexos ou mais simples, mais atormentados ou mais apaziguados pela serenidade conquistada mediante lutas, sofrimentos, mudanças de credos, quebra de paradigmas, humilhações, autoritarismos, enfim, o mundo invisível que acontece nas nossas mentes, muito maior que imaginamos e, felizmente, embora espelhem o que somos, grande parte do que pensamos esconde-se nas entranhas do nosso inconsciente adormecido, procurando uma brecha para, como vulcão, expelir suas larvas.

Quantas tragédias ou quantos milagres poderiam ser testemunhados!

Daí a pertinência atual da frase do filósofo que disse nada saber. Não raro nos surpreendemos com nossas próprias reações, porque pouco nos enxergamos e ainda usamos todos os mecanismos que dispõem nossas mentes, para vivermos entrincheirados, fugindo de nós mesmos. Se transparentes nos dispuséssemos a sê-lo, inclusive diante do "outro",como seriam nossas vidas?

Fizeram-nos crer que temos livre arbítrio. Contra ou a favor da liberdade a luta humana nunca cessou. Por isto questiono a qualidade desta prerrogativa de ser absoluta. Vivemos em sociedade, portanto, o livre arbítrio sofre os limites do livre arbítrio dos outros habitantes do planeta. Como tudo na vida, nossa liberdade é relativa, regulamentada por leis e limitada por hábitos e costumes que, se infringidos, por mais inocentes e inofensivos que sejam teem que passar pelo crivo ou sofrer penalidades dos agrupamentos sociais onde estamos inseridos.

Não bastassem estes conflitos, buscas e insatisfações, somos seres curiosos, vivemos num mundo de conceitos e teorias que sofrem da nossa compulsão de demonstrá-las ou desconstuí-las.

Pois bem, ainda existe aquela célebre pergunta “quem somos - de onde viemos e para onde vamos” atribuída ao pintor Paul Gauguin que concebeu uma obra de arte onde tentou responder a estes questionamentos.

Acho que não somos nada, apenas um dos seres que habitam a Terra, até possíveis descobertas de seres mais evoluídos em outras galáxias, com formas de pensar até mais complexas e providas de raciocínios mais avançados. Viemos, até prova em contrário, para onde voltaremos.

Como o filósofo, "só sei que nada sei”. Nada além das nossas fraquezas, das nossas covardias e submissões a regras que discordamos, a surpresas com nossos semelhantes que não compreendem nem a si e, muito menos, quão justas podem ser nossas intenções.

A procura pelo autoconhecimento deveria deixar de ser uma meta que se esgotasse em si mesma. Por sermos mutantes, é parcial. Deveríamos sim, encontrar o que, de tão rígido parece mais forte que nós, represando nossos "entulhos". Assim, sem medo de nos esvaziar, criamos clareiras onde seriam construídos outros edifícios formados de crenças e conceitos, talvez mais flexíveis e mais permeáveis, já que a vida é um eterno reinventar de sonhos e objetivos.

Se perdermos esta prerrogativa, perdemos a vontade de continuar.


ALICE ROSSINI

7 comentários:

Aparecida Matos disse...

Voltou com tudo, hein menina! O neto lhe inspirou e lhe fez desejar um mundo melhor. E ele só será melhor se cada um fizer a sua parte.
Esta humildade que voce demonstra em seus textos, esta forma de se expor sem medos, é uma marca que voce nunca deve perder.
Muito bom!

Penha Castro disse...

Vivo me perguntando o porquê de tantas pessoas serem tão pretensiosas e arrogantes. Não vou muito longe, no caso de a ciência descobrir que somos os seres mais atrasados do Universo. Aqui mesmo, a vida mostra, através de seus imprevistos, o quanto estamos desamparados. Achamos que podemos ser totalmente livres e temos certeza de tantas coisas. Enquanto isto, a vida acontece, indiferente os nossos desejos.
Sua crônica define nosso real tamanho.

Vera disse...

. Muito legal. Abraços

RICARDO disse...

ALICE, NÃO SABEMOS NADA MESMO. NEM AS PERGUNTAS DE FILOSOFOS E PINTORES, NEM O QUE NOS ACONTECERÁ NO DIA DE HOJE, NEM OS PORQUES DO QUE JA NOS ACONTECEU, MUITO MENOS QUEM SOMOS OU NO QUE VAMOS NOS TRANSFORMAR. SIMPLESMENTE, NÃO PENSAMOS, A NÃO SER QUANDO LEMOS ALGO ASSIM. NOS DAMOS CONTA DA NOSSA SANTA IGNORÂNCIA

AMANDA disse...

Amiga, voce além de falar muito (risos), escreve e pensa muito bem. Este texto serve para uma reflexão sobre a vida que levamos e os valores que repassamos. Muito pertinente a pergunta-frase da semana. Na verdade, um desafio.Adorei

Maria de Lourdes Silva e Silva disse...

Adorei a reflexão;obrigada por compartilhar, publiquei um trecho com tua autoria, claro, no meu mural do face
bjs

Lu disse...

É isso... como dizem (não sei se algum filósofo) nossa liberdade termina quando começa a do outro.
Regra básica do respeito ao espaço alheio, cujo "ocupante" via de regra tem o mesmo direito que a gente de compartilhar a Terra.
Mas esta é uma visão simplista... o mundo (com seus relacionamentos)é mais complexo do que isso, infelizmente.
Maravilhoso o seu texto, minha amiga. Uma delícia compartilhar suas idéias.

Bjs!