quinta-feira, 8 de maio de 2014

FRAGMENTOS DE UMA VIDA

Há 57 anos, em todos os seis de maio havia uma comemoração, o aniversário de Luis Augusto Timbó, Luca, para os íntimos. Ontem, sua esposa sentou-se à beira da cama e cantou “Parabéns pra você!” em sua homenagem.

Esta cena seria a alegre se, nesta repetição de mais de trinta anos em que o casal Luca e Lourdinha estiveram juntos, a cama não estivesse num quarto de Hospital e, em vez do sorriso disfarçado ou alguma observação carregada de um senso de humor peculiar, ela não tivesse percebido sua dificuldade para respirar.

Luiz Augusto era engenheiro e empresário. Dos bons. A competência e o raciocínio lógico foram sua marca registrada. Luca viveu a exata metade do dia seis. Morreu, pontualmente às doze horas.

Toda sua vida foi marcada pelo trabalho ético, honesto e competente, pela intensidade nas relações, pela franqueza rara e desconcertante, pela inquietação, característica natural em mentes brilhantes. Direto no trato com os amigos, os que não se incomodavam com as idiossincrasias do seu estilo, gostavam dele e entendiam que, debaixo daquele olhar perscrutador e uma postura sempre em alerta, morava um ser humano que amava a família, o mar e a aventura.  Os que não gostavam ou não possuíam a sensibilidade de percebê-lo, acho que sua sabedoria dizia-lhe que não se incomodasse, afinal, Luca sabia que ninguém possui a prerrogativa da unanimidade.

Era capaz de surpreender até sua companheira de toda a vida. Entretanto, quando sorria ou quando vociferava contra tudo que achava errado ou fugia ao seu controle, o fazia com uma verdade tão contundente que, para muitos, faltavam argumentos para contradizê-lo.

A criança que morava dentro dele adorava filmes de super heróis.  Admirava o Homem Aranha e “acreditava” na fantasia que o Super Homem nasceu da explosão de uma criptonita.

Infelizmente, Luca morreu exatamente na data que nasceu tal a vontade que tinha de fazer as coisas certas, de não deixar nada inconcluso. Só sentia-se à vontade de percorrer o caminho que achava correto e que não o surpreendesse a ponto de mudar sua rota, desviando-o para atalhos ou estradas alternativas.

Personalidade forte e presença marcante para todos que o conheceram.  Será sempre uma ausência sentida, principalmente para sua esposa, pais, irmãos, filhos, genro, amigos e familiares e a convivência, cruelmente interrompida, com seu primeiro neto, o pequeno Pedro.

Este imenso vazio que deixou em nossos corações, talvez tenha sido a única falha na sua rara capacidade de prever o imprevisível, independente da exatidão da data e da hora que “escolheu” para decretar por concluída sua breve, mas intensa existência.

Doze horas do dia seis de maio será, sempre, para quem o ama o momento da vacuidade, da lacuna e da saudade.

ALICE ROSSINI
        
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O COMETA LUCA

Falar de Luca é difícil e fácil. Difícil porque a tristeza gerada por sua ausência acaba embargando a voz e embaralhando os pensamentos. Fácil porque Luca foi e sempre será um jantar para 400 talheres.         Atitudes  polêmicas, frases marcantes,  amigo e inimigo fiel, pai presente, marido apaixonado, chefe competente, perfeccionista, exigente, entre outras qualidades e defeitos.

Há 57 anos, no dia 6 de maio, nasceu em Salvador. Nasceu, cresceu, formou-se engenheiro, casou-se com o grande amor de sua vida, formou família com dois filhos, tornou-se executivo e, por fim, empresário do ramo de seguros. Empresário muito bem sucedido. Ainda fez, como ultima tarefa, a transferência da empresa para seus dois filhos. Após 57 anos, no mesmo dia 6 de maio, morreu.

Tudo em Luca foi fora dos padrões. Se ele gostava de barco, sua lancha  tinha que ser especial.Se resolvia andar de jeep teria que estar entre os tops. Previa os riscos de sua vida com uma excelência impressionante. Queria, e conseguia, andar sempre dois passos a frente dos outros. Adorava superlativar posições.  Não era homem de média. Por isso mesmo  sempre achei que  a   frase ame-o ou deixe-o bem que poderia ter sido formulada para ele.

Luca tinha uma qualidade que me chamava a atenção. Ele sabia escutar. Sabia tirar proveito de tudo que ouvia. Tinha consciência de que nunca se sabe tudo. Em uma única noite ele navegava entre  atitudes  ranzinzas, radicais, a posturas simpáticas, liberais, humildes, inteligentes e engraçadas.

Por terem personalidades parecidas, gostava de brincar de brigar com Alice, que era carinhosamente tratada por ele como Tia Alice. Pareciam  gato e rato. Viviam as turras. Mas não dispensava um final de semana em nossa companhia. A ultima vez que saímos para o mar, ele providenciou com antecedência, asinhas para segurança de Tia Alice. Era sua maneira de demonstrar carinho.



Durante um bom  tempo usamos as noite de quinta feira para jantarmos juntos. Nossos encontros a quatro eram sempre no Bahia Marina. Ríamos sem parar. Atualizávamos nossos assuntos, comíamos e bebíamos do bom e do melhor. Claro, era sempre uma luta conseguir  com o maitre que a cebola fosse retirada dos temperos de sua escolha. Mesmo assim, quando o prato chegava ele dava uma vasculhada para conferir se sua exigência tinha sido respeitada. E quando encontrava qualquer  indício do tubérculo maldito amuava e desistia de comer. Nada o demovia desta atitude infantil. Já sabíamos. Mas também não permitíamos que o resto da noite fosse azedado pela presença da cebola. Normalmente só saíamos do restaurante com os garçons colocando as cadeiras em cima das mesas. E saíamos sempre as gargalhadas. Ah saudade....Pois é  Luca. Você é uma das saudades que, com certeza, gostaremos de ter.

MARCO ROSSINI



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

EDITORIAL

 
Cinco anos se passaram. Aparentemente, quase tudo continua igual, embora, saibamos que não está, porque impossível. É assim a vida, a cada milésimo de segundo, tudo muda. A transformação é contínua, inexorável.
 
O espaço de tempo onde existimos fez com que muitos de nós ganhássemos experiência, entretanto, a maioria vive em superfícies tranquilas e seguras, e nem sabe o que fazer com ela. Outros aproveitaram a oportunidade, procuraram entendê-la e tornaram-se pessoas melhores. Algumas amarguraram e perderam-se, inclusive, de si mesmas.
 
Conquistamos e perdemos pessoas e coisas. Muitas, apenas, nos visitaram e se foram sem deixar marcas. Felizmente, grande parte delas continua e estão, delicadamente, hospedadas em importantes escaninhos das nossas emoções. Indiferentes, importantes pilares que nos ratificavam ruíram, impedindo que fôssemos o que pretendíamos ser. Mal sabemos como desmoronaram.
 
Ganhar, perder, sorrir, chorar, agradecer. Ignorar o bem que recebemos ou re significar os maus momentos como necessários e importantes testes para nossa capacidade de enfrentar as armadilhas da vida. A sabedoria em reconhecer a legitimidade do ciclo inerente à existência, nascer, crescer, morrer, pois, assim ela está organizada e nada podemos fazer para que aconteça de outra forma. Inverter a ordem natural.
 
Nosso único poder repousa sobre nós mesmos, reciclando nossas infinitas formas de enxergá-la, enquanto tentamos entendê-la. Um dos objetivos pessoais do ser humano poderia ser o de buscar a flexibilidade sem, entretanto, perder princípios. Arigidez pode ser fatal para a evolução, para a simplicidade, para a humildade, para mudanças que melhorariam as relações entre as pessoas, e entre elas e o Planeta.
 
Reitero que este BLOG nasceu motivado por uma grande saudade. Um vazio cheio de motivos, histórias, significados, perguntas sem respostas, conteúdos de paz, melancolia e uma perda que a fé de muitos, nos faz acreditar que um dia reencontraremos quem perdemos. Alguém que possuía as retinas sintonizadas com tudo que a vida tem de bom, nossa inesquecível KILMA.
 
Mais uma vez se faça um singelo registro de uma data que se alimenta tanto pela existência, quanto pela falta. Os cinco anos deste BLOG, cujos motivos e motivações sempre serão associados à vida e à alegria de alguém, que sempre tentava enxergar com simplicidade e amorosa leveza, a complexidade e a importância dos compromissos que justificaram e tornaram exemplar sua breve existência. Porque, além de simples e despretensiosa, sua determinação em privilegiar o exercício do bem, fez com que nunca desistisse de lutar e, jamais, transigir.
 
Entretanto, muitos foram presenteados com pontos de luz, onde puderam depositar o estoque de amor e aceitação que existe em cada um. Ainda foram criadas novas e consistentes possibilidades de momentos felizes, da mesma forma que nossos impulsos destruíram pontes e inviabilizaram caminhos que nos ligavam a verdadeiros afetos.
 
As crianças estão crescendo, outras a violência tem levado cruel e prematuramente, e muitas ainda virão. As árvores, a cada ventania, tiveram suas folhas renovadas, assim como flores brotam a cada primavera. Um lado do planeta esteve mais frio, outro mais quente. A vida manifestando-se independente e ferida mostra seu lado perverso. Com a incompreensão do homem, novas guerras eclodiram, enquanto, outras continuam teimosas e inúteis. Alguns preconceitos foram discutidos, muitos de nós assumimos novos conceitos, outros, entretanto, os recrudesceram. Aconteceram muitas paixões, muitos desamores e outros tantos, ratificados pelo tempo de compreensão e paciência.
 
Enfim, por que não fazer como Clarice Lispector, numa das visitas à própria lucidez?: “Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”
 
Embora, cada momento seja diferente do anterior e o futuro uma incógnita, o que se mantém constante são as saudades e algumas inconstantes razões, para que este BLOG continue a existir.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

PEDRO, MEU NETO


Você não imagina as infinitas formas, por mim sonhadas, de como aconteceria o nosso primeiro encontro. Nem como muda a noção de tempo quando sabemos que, em outro sagrado ventre, está sendo gestado o filho do seu filho. O caminho entre a excitante expectativa do plantio, até a euforia da colheita, passa por uma espera povoada pelo desejo de que o fruto seja suculento, porque o precedeu, o milagre da flor, na qual, foram depositados fragmentos de vida que completam o encanto de tudo que amadurece naturalmente. Nesta árvore o fruto prescinde de seleção, porque gerado sob o signo do amor e da aceitação. A existência só acontece porque nada se fecha. Há vontades, desejos, completude. Mãos que se entrelaçam, cuidam, amparam, recebem, acariciam.
No espaço, onde me aliei ao tempo, construí um calendário virtual no qual, amorosamente, registrei o desenvolvimento do seu corpo material e, nas tentativas de transcendência para planos superiores desejei o aperfeiçoamento do seu corpo sutil e do seu equilibrio emocional. Ouvi o “tum tum” do seu coraçãozinho batendo, quase no mesmo compasso do meu, quando a emoção me pega “de jeito”. Contei seus dedinhos e, embevecida, contemplava suas perninhas em formação, que vão me fazer correr pelas praças da vida, quando sua vitalidade infantil alimentará minha vontade de continuar por aqui. Enquanto isto, me preparo para responder os “porquês”, produzidos pela sua imaginação e curiosidade. Mais tarde, levado pelas descobertas, ultrapassará as misteriosas portas da adolescência, correrei, então, atrás dos seus pensamentos, tantas vezes desordenados e sempre cheios de dúvidas irrespondíveis.

Pois é, Pedro foi nos braços do seu pai que o vi pela primeira vez, igual a quase todas as avós. Entretanto, a emoção que senti foi completamente diferente da que imaginei. Desigual, tanto nas subjetividades, quanto na substância, a qualquer uma que já vivenciei em toda minha vida. Uma sensação inigualável conseguiu emoldurar o quadro, no qual, coberto pelos aparatos cirúrgicos vi as mãos que lhe seguravam com a delicadeza firme de quem tenta reter uma nuvem que, a qualquer momento, poderia evaporar ou como quem carrega uma peça de cristal puríssimo e frágil.

Reconheci no olhar do meu filho um brilho quase infantil, que passeava entre o sonho e a crença, diante de um milagre que se apresentava com a força da realidade. Confesso, meu querido, que meu raciocinio, diante daquele momento indizível, indicava que, enquanto seu pai lhe carregava, você carregava seu pai e os dois sustentavam a leveza do imenso amor que me invadia e que possuía o peso do sentido de toda minha vida.

Naquela sala, que reunia olhares ansiosos, havia outros avós, mas somente um olhar, entre mãe e filho formava uma corrente, não importando quanto fugaz me pareceram aqueles minutos e quão desnecessário o vidro que, ao invés de nos separar, aproximava-nos, dando significados àquele momento. Seus olhos abertos pareciam procurar os detalhes desorganizados naquele pequeno mundo recém - apresentado.

Enquanto isto, já vigilante, eu pensava: “Você é Pedro, nome que significa pedra. Um diamante garimpado ao longo da vida para ser burilado com o esmeril do amor, do comprometimento e da responsabilidade, para possuir luz própria". Brilho que iluminará os caminhos onde outras pedras existirão. Muitas delas servirão de alicerce para sua vida, algumas serão observadas para evitar que lhe impeçam de caminhar, outras continuarão, pois, tropeçando aprenderá a defender-se das próximas. Quanto às mais perigosas, rezarei aos deuses da Sabedoria para que as supere e aos da Bondade, que lhe ajudem a estar atento, separando as que terá que carregar e evitar as que lhe machuquem mais que o necessário, somente o suficiente para que você seja uma pessoa generosa, humilde e serena.

Como, ainda, não sabe como “funcionam” os avós, adianto-lhe a certeza que lhe ajudarei, sempre, a tornar seus caminhos mais amenos. Se este mundo fosse meu, “eu mandava, eu mandava ladrilhar, com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante, só pra ver, só pra ver Pedrinho passar”...

Sabe Pedro, vovó um dia foi neta, a primeira, como você. Breve entenderá o poder desta corrente amorosa que liga as pessoas. Você tem o privilégio de possuir quatro avós, uma bisavó e dois bisavôs. Sua corrente, além de forte, é longa. Minha história foi marcada pelo privilégio de ter uma avó que me aguardava nas férias com uma coleção de bonecas de pano “fabricadas” por ela, e um cesto onde colecionava pequenos retalhos coloridos, para cobri-las de lindos vestidos. À luz de um candeeiro que desenhava sombras nas paredes, minha cabeça sonolenta acomodava-se no aconchego do seu colo, onde todos os dias me ninavam as mesmas histórias, povoadas de fadas, monstros, lobos e outros seres encantados. Tudo pura imaginação, convivendo com momentos que tomavam as formas da verdade. O som do ranger das pesadas rodas de madeira, de carros arrastados por bois, que vendiam leite nas portas centenárias das casas de portas e janelas verdes e paredes brancas de uma cidade que, um dia, o levarei para conhecer.

Lá, sinos convocavam pessoas para a Missa do Galo, jeito mágico, como há muitos anos, celebrávamos o Natal. Estes sons retive-os nas lembranças e, até hoje, me levam àqueles momentos onde aconchego, disciplina e simplicidade formavam a equação que foram sedmentando, nas poucas certezas que ainda tenho, a necessidade e o direito de amar e sentir-se amado.

Ainda neta, fui mãe e devolvi ao seu pai o privilégio “daquela” figura mágica e lúdica, em versões contemporâneas, mas com os mesmos exageros na quantidade e na qualidade de amor adocicado, que só as avós possuem. Vó Ariadne e vó Lucia servirão de inspiração para que consiga enfeitar seu existir de sonho e fantasia. Através de seus exemplos, tentarei ser doce e moderna, esforçando-me, com vovó Eliete, a ensinar sua imaginação a bater asas para além do óbvio, onde o infinito é o limite do vôo, encorajando-lhe à inquietar-se diante dos mistérios da vida, a nunca abrir mão de ser livre e jamais ficar indiferente diante de uma injustiça. Procurarei ser carinhosa na infância, acolhedora na adolescência e testemunha participativa nas circunstâncias que a vida o obrigará a enfrentar.

Hoje, lhe recebendo em minha vida, filho do meu filho, meu neto esperado desde sempre, meu sonho sonhado através de vivências felizes, que me fizeram perceber a importância da harmoniosa convivência entre aqueles retalhos coloridos que o tempo reuniu em reminiscências inesquecíveis, ensinaram-me que certos amores não têm começo nem fim, simplesmente existem.

Por hora, me situo entre a fantasia e a realidade, vivendo esta experiência onde se reaprende a importância dos detalhes, dos cheiros, dos sons. Sinto as sensações de cada minuto que desfila na minha frente, lenta e atentamente, despido daquela pressa “boba” da juventude quando olha para as interrogações do futuro. Este papel é de mãe e pai. À sua mãe, matriz que tornou meu sonho realidade, minha eterna gratidão e o meu mais profundo afeto.

Avós, ao contrário, vivem todas as sérias tolices do presente. Embora falante, meu espírito recolheu-se a um silêncio contemplativo, aprendendo que a vida acontece a cada segundo em que a construímos e que, coração não tem tamanho. Quanto mais vive, mais aprende a amar.

P.S. Este texto só foi totalmente concebido, no dia 27 de janeiro, quando Pedro completou 1 mes de vida.

ALICE ROSSINI

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

MAIS UMA LEILA?



Recebi de uma amiga um texto de Aída G., intitulado “A nova Leila Diniz”, onde, indignada critica o patrulhamento sobre a atriz Beth Faria que, aos 72 anos, cometeu a “heresia” de exercer o direito inalienável de vestir-se como acha conveniente: foi à praia, no Rio de Janeiro, de biquíni. No dia seguinte assustou-se com a reação das pessoas à sua “ousadia” e “falta de pudor estético” como se, o juízo do que é belo ou feio, fosse uma camisa de força que nos é imposta ao nascermos.

Confesso que, com quase 60 anos, sinto certa dificuldade em me vestir. Assim como eu, muitas mulheres também a têm, enquanto outras não estão nem aí, vestem o que acham lhes cair bem, sem que a idade seja um critério determinante. É preciso ter atitude e coragem para passar por cima de certos tabus. Eu, na medida do possível e do que acho que me agrada, ainda uso biquíni, vestido acima do joelho e outras roupas e acessórios que, no século passado, ainda tão próximo, era considerado escandaloso e inadequado. Aliás, já escrevi algumas vezes neste Blog sobre liberdade, direitos individuais e a diversidade do ser humano.

Pois bem, em plena ditadura militar, a atriz Leila Diniz também mostrou sua barriga. O fato foi considerado provocativo, porque estava no sétimo mês de gravidez. Hoje as grávidas mostram suas volumosas e lindas barrigas não só nas praias, como nas ruas, shoppings center´s e academias. Leila foi uma mulher que viveu muito pouco. Morreu aos 27 anos, mas deixou um legado de liberdade para mulheres e homens, porque quebrou tabus, falava o que pensava e vivia a vida com alegria, sempre buscando o prazer e a felicidade. Naqueles tempos obscuros, este comportamento subvertia os costumes e ia de encontro à ordem vigente, imposta pelo regime. Hoje é considerada um ícone do feminino, assumido com a força inerente a esta condição.

Com o avanço da ciência as pessoas vivem mais e melhor. Hoje uma mulher de 30 anos, 20 ou 30 anos atrás, era considerada velha e esta condição privava-a até da certeza de gerar filhos sadios. Senhores médicos, sei que óvulos envelhecem, mas conheço muitas mulheres jovens que têm filhos portadores de Síndromes, assim como conheço muitas mulheres de 40 que pariram crianças saudáveis. Sei que as estatísticas me contradizem, mas a questão é considerar “ridículo” e “fora de propósito” uma mulher querer engravidar aos 40 anos, ainda que não tenha filhos. A saída "politicamente correta" é a adoção. Nada contra gesto tão compassivo quanto necessário, com tantas crianças sem famílias, mas gestar uma pessoa, em minha opinião, nos diferencia, para melhor, do outro gênero.

Estas mesmas mulheres, quando têm acesso aos avanços da Cosmiatria e da Cirurgia Plástica, podem dar-se o luxo de parecerem fisicamente muito mais jovens, principalmente, se associarem a estes avanços, estilos de vida saudáveis, posturas modernas e criticas diante das mudanças de costumes, serem alegres e terem coragem de assumirem-se como são. Os excessos mostram-se inúteis se o objetivo é parar o relógio biológico, lhes impedindo de viver cada fase das suas vidas com a intensidade que cada uma merece. Se Beth Faria tivesse vergonha do seu abdômen septuagenário estaria pensando como uma mulher de 20, cujos valores e padrões estéticos são compatíveis com a idade que têm, assim como uma mulher de 20 não pode nem deve pensar como uma mulher de 70.

O problema é que as pessoas olham o presente com os olhos do passado sem livrar-se dos ranços e preconceitos que faziam parte dele. Beth Faria não quebrou nenhum tabu aos 70 anos, permitindo-se usar biquíni, mas exerceu, corajosamente, o direito de ser livre. Nos países civilizados, onde o que se é, fala mais alto que as formas que se têm, mulheres de todas as idades fazem topless nas praias, vestem-se como têm vontade e por isto, certamente, se sentem mais livres que nós brasileiras, que vivemos com a “burca” da perfeição e da juventude oprimindo nossas cabeças.

Como juízes, muitos de nós condenamos as mulheres que entenderam que o comportamento de Leila Diniz, em e sua inocente coragem, queria mostrar que a liberdade não é uma utopia.

ALICE ROSSINI

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terça-feira, 20 de agosto de 2013

POR QUE, NÃO?


Vi pela televisão uma reportagem, que falava de um artista que mudou a fachada das casas da rua onde mora, em Buenos Ayres. Começou revestindo a sua com mosaicos, cujo caminho estético evidencia sua privilegiada intuição. A princípio os vizinhos estranharam a atitude, e nela, a ousada combinação das cores e a liberdade dos traços que brotaram, livremente, da cabeça do seu morador. A fuga dos padrões gerou respostas positivas, ao tempo em que causou estranheza, provocando emoções controversas.

Seria esta a função da arte, inquietar, a ponto de ser negada ou aceita? Também. Não raro, entre a primeira e a segunda postura acontece a polêmica, a discussão, a reflexão, estas, sim, mais úteis, construtivas e libertárias que a unanimidade, comodamente instalada na polaridade de posições, onde pode aninhar-se a liberdade de quem a contempla. Há que deliciar-se da generosa e santa vaidade do artista que expõe o que, dentro de si, não se contém e transborda.

Pergunto-me em circunstâncias diversas, o que seria do mundo sem a arte, vazio destas pessoas que dedicam suas vidas a perguntarem “por que não?”. Certamente monótono, insípido, incolor, já que movimento e cor são inerentes a tudo que vive. Embora existam pessoas desatentas ou desinteressadas, estas características subjazem ao simples fato de existir, fazendo-se notar em tantos níveis quanto às diversas formas de enxergar.

A loucura contida neste eterno perguntar-se está presente em todo ser humano. Entretanto, as diferenças, os contextos onde histórias pessoais foram vivenciadas, potencializam ou neutralizam esta característica, levando algumas pessoas a fazerem o que acham que deve ser feito, outras sentirem-se obrigadas a fazer o que os outros acham o que devem fazer, e algumas, que nem acham nem fazem.

As primeiras, livres, fazem das suas vidas um eterno modificar-se. Modificando-as, modificam o mundo para melhor ou para pior. Emprestam-se aos sacrifícios da ansiedade de viver, sabendo o quanto cada momento é tão fundamental quanto fugaz. A impermanência, imanente ao Todo, tudo modifica a cada milionésimo de segundo, se considerada a medida convencional do tempo.

As segundas engessam a si e acham que têm direito de imobilizar o outro. O preço a pagar, pode ser alto, para os que tiverem a ousadia de arrebentar as correntes que as aprisionam.

As últimas nada fazem. E nada fazendo, tornam suas vidas uma rotina de obviedades, incomodadas com a ousadia das que não temem o “por que não?”.

Não precisa ser artista, visionário ou insano para modificar o cotidiano, reinventando-o e entregando-o à sua própria dinâmica. No “sim” ou no “não” permitimos ou sufocamos, não necessariamente nesta ordem, o “consagrado” pelas convenções. Sua simples pronúncia modifica o que pensamos, falamos e fazemos e, até como escolhemos onde e como vivemos.

As cores com que pintamos nossas casas ou as que cobrimos nossos corpos podem refletir tanto a calmaria do comodismo, como espelhar o caos, embrião de uma comunhão com o conceito humano de equilíbrio com o Universo, e tudo que dele faz parte: dos mistérios do Infinito à importância que damos a cada Molécula que compõe os seres. A busca vã do equilíbrio é, também, a negação da expansão da vida, que sobrevive da interferência do seu contraditório, o desequilíbrio.

Diante de tantas catástrofes naturais, sabendo que nosso planeta é representado como um pequeno ponto, se comparado a outros que gravitam no sistema solar vive à mercê de uma possível, embora improvável instabilidade, que poderia provocar um choque contra o sol e nos destruir, calcinados, leva à reflexão sobre nossas insignificantes preocupações. Penso, então, na possibilidade do caos estar fora e dentro de nós. A realidade sinaliza que sim.

A sabedoria da vida é fazer deste caos interno um caminho. Onde a luta entre equilíbrio e desequilíbrio, a constante desconstrução do que hoje é certo, amanhã, mais um equívoco, o natural estado de busca, a aceitação de que a inquietação tem poder de abalar inúteis paradigmas, onde acomodamos o conforto do estável.

Exercitemos a liberdade e o despojamento de perguntar-nos “por que não?”, sempre que a vontade acontecer.

Alice Rossini

domingo, 11 de agosto de 2013

COMO SINTO MEU MARIDO


Meu marido é quase uma pessoa indescritível. Tenho certeza que se pudesse ser o AR, seria o céu, pois a atmosfera está sempre acima de nós, não importando se nublada, azul ou preparando-se para o breu da noite. Raramente gostaria de ser o Sol. Somente no verão! Pois brilha mais tempo, apaga-se apenas na metade do planeta e dorme, somente, em um dos horizontes. Ser ESTRELA, bem que poderia ser seu sonho, mas, embora reluzente, sua luminosidade sempre faz parte do passado que, incontáveis vezes, nem vimos brilhar. Para ele isto é impensável! Talvez, gostasse de ser a LUA, em todas as suas fases. Como algumas vezes são vespertinas e sempre dão show de beleza, todos a admiram e serve de inspiração para poetas, causando suspiros nos apaixonados. Ser PLANETA, nunca! São pequenos demais em relação ao Sol e, somente são vistos com a ajuda de telescópios.

Se fosse a ÁGUA, meu marido poderia ser um rio caudaloso e inquieto, para adiante encontrar um precipício, onde se transformaria numa linda cachoeira, branca de tão volumosa, muito fria, e antes de tocar no solo, se tornaria uma nuvem que umedeceria a pedra sempre a sua espera. Como o destino do rio é o MAR, Marco chegaria até a imensidão dos OCEANOS, onde sentiria um imenso prazer. Oceanos! Cheios de peixes, golfinhos, corais e outras criaturas com estranha beleza. A esta diversidade aliaria sua necessidade de alimentar, de brincar e de ser belo e inatacável.

Se fosse TERRA, claro que Marco seria a FLORESTA AMAZÔNICA! Intocada e livre de predadores, suas árvores seriam lindas, frondosas e carregadas de frutos. Cada dia se transformaria em um dos animais, dos silvestres e brincalhões até em jacarés e leopardos, sempre prontos para atacar, caso alguém invadisse seu território, sem a sua permissão. Poderia ser uma Horta, a maioooor do mundo, onde todo o alimento, de toda a humanidade sairia das suas entranhas.

Mas, meu marido, acho, escolheria ser o FOGO. Sairia pelo mundo arrasando tudo. Quem quiser que se defenda, porque além de cálido e belo, todos o respeitam. Basta um toque entre duas peças inflamáveis, olhe ele reaparecendo capaz de tudo! Somente a ÁGUA e poucos “moradores” da Tabela Periódica são capazes de neutralizá-lo. Mesmo assim, deixa a brasa ou o rescaldo de um incêndio, em forno brando que, qualquer corrente de AR o reascende com consequências imprevisíveis.

As cores do fogo, quando em combustão, variam como seus gostos e vontades. Quando necessário, faz de conta que virou cinza, sem antes esquecer-se de deixar um rastro luminoso, mas lembrando a todos que ainda existe como uma “ameaça”, que poderá fazer com que volte, a qualquer momento, com a "brutalidade" da sua força.

Mas, Aristóteles defendia que o nosso planeta vibrava em mais um elemento. Este, sutil e hipotético, o ÉTER. Chamado de QUINTA ESSÊNCIA, como meu marido, possui a capacidade de ficar oculto e, algumas vezes, quieto e calado. Nestes momentos pode ser mais perigoso! Pois, neste estado, contrario a sua matéria carregada de mistérios e seu semblante aparentando quietude, em sua mente estão sendo travadas varias batalhas, onde a ÁGUA apaga o FOGO e a TERRA define seu pragmatismo. Embora o AR seja seu destino, é o ÉTER que permite à sua luminosidade a qualidade de se propagar, aquecer o coração de quem com ele convive e de incendiar o meu.

Alice Rossini

EDITORIAL


Mais uma comemoração pelo “Dia dos Pais”. Na mídia, a apologia sobre a necessidade de participação paterna na vida dos filhos. Existem pais que só inseminam sua ou uma mulher qualquer e, logo, esquecem as possíveis consequências do que fizeram. Está também cada dia mais comum, o propalado instinto materno ser jogado em latas de lixo.

Quando esta relação entre pais e crias se esgarça, há um fértil campo para reflexão. Afinal, a finalidade biológica do ser humano é perpetuar-se como acontece, e é cada vez mais passível de proteção, em outras espécies.

Não de pode generalizar que todas as mulheres possuam o instinto materno. Apesar de toda a carga hormonal e cultural puderem determiná-la, esta verdade não é absoluta. Imaginem os homens, cuja idéia de ser pai e consequente obrigação de cuidar e proteger só se concretizam nove meses depois, com a cria nos seus braços, tornam estes sentimentos e suas consequências cada vez mais controversos.

Homens são diferentes de mulheres em quase tudo. Inclusive e, principalmente, no exercício da paternidade. Hoje em dia, até filhos perderam a referência do que seja amar a quem lhe deu a vida. Até porque, tanto podem ser frutos de uma ardente vontade, impregnada de sentimentos elevados, como frutos de um contato casual, onde nenhum sentimento altruísta e responsável permeie a relação. Considerando que todo sentimento deve ter uma estrada que leva e outra que traz, há que se refletir porque os questionamentos do primordial exercício de ser Pai, Mãe e Filho estão sendo exercidos de forma criminosa, deformada e irresponsável.

Entretanto, a família ainda é uma célula aceita e necessária em todas as culturas e credos, respeitadas os respectivos modelos. E, a maioria da humanidade ainda a respeita e deseja resguardá-la. Apeguemo-nos, então, a este traço cultural, preenchendo-o de sentidos, para que a continuação da vida nos traga o conforto do carinho, do amparo e da perpetuação dos genes que nos eternizam.