sábado, 26 de dezembro de 2015

NO BALÃO MAGICO COM PEDRO




Convivendo mais um ano com Pedro, aprendi que a inocência permite que refaçamos caminhos que podem ser redentores e libertários, pois, as infinitas possibilidades existentes no mundo em que uma criança cresce e floresce, permitem uma imersão num universo riquíssimo em fantasias e sonhos.

Todas as terças feiras em que nos reencontramos, sei que minha vida se alarga na mesma proporção em que minha afetividade tinge-se de nuances de infinitas cores, principalmente, quando percebo que meu neto é uma criança alegre e feliz. Continua extrovertido, inquieto e a argucia e leveza do seu olhar lhe proporcionam uma precoce e lúdica percepção do mundo em que vive.

Antes de completar um ano e seis meses de vida seu vocabulário já era vasto. A cada contato me surpreende com novas palavras e expressões, que acho ainda não fazer parte do seu vocabulário. O que mais me impressiona é a suposta indiferença com que armazena tudo que ouve e, sem que ninguém espere ou pressinta, utiliza o que sabe no contexto correto.

Numa das vezes em que me despedia, Pedro não tinha completado um ano e meio de vida, esqueci-me de um dos rituais com o qual o habituei, de levar-me até a entrada do prédio onde mora. Anunciada minha partida, ele com todas as letras e uma autoridade “assustadora” disparou: “Calma vovó!”, o que me deixou entre surpresa e deslumbrada com a propriedade da expressão empregada. Outro episódio foi, quando pretendi aplicar o inverso da regra de um jogo que usei para diverti-lo, sem entender a “pegadinha” perguntou-me: “Está doida?!” Ainda surpreendente foi, a forma como resumiu com a palavra "perigo" - todos os possíveis acidentes que poderiam vitimá-lo na cozinha, descritos por mim detalhadamente, para demovê-lo da atração que este espaço sempre exerceu sobre ele. Ainda, quando momentos depois de ouvir-me pronunciar, casualmente, a palavra "exatamente", ao ser por mim perguntado quantos anos tinha, ele não hesitou em responder-me "exatamente um" no lugar do costumeiro "um só" que sempre me encantou, pela fidelidade ao tamanho da sua existência. Sua capacidade de apreender tudo que ouve atropela minhas expectativas, enfeitando nossa relação de surpresas.

Somente quem experimenta contemplar o desenvolvimento de um neto pode perceber os momentos em que “milagres” acontecem, por meio de gestos que guardam reminiscências de um passado que achávamos perdido, quando reencontramos o filho, no filho do filho. Ainda que, em respeitos às individualidades, não devesse procurá-las, elas saltam aos olhos e ao coração, vestidas da certeza de uma continuidade, que somente as descendências permitem.

Pedro possui no seu DNA os "carimbos" materno e paterno, quase na mesma proporção. Quem o conhece sempre o acham parecido tanto com a mãe, quanto com o pai.

Desde bebê sempre possuiu todos os sentidos aguçados. Ouve o telefone que ainda toca um tom abaixo do normal, o som de um jato que voa a milhares de quilômetros da Terra, assim como consegue enxergar minúsculos e quase imperceptíveis objetos a metros de distância. Com um ano e sete meses nomeava tudo que via e ouvia, começando a formular frases com dois a três vocábulos. Já nesta idade, não raro usava os verbos na flexão correta. Com quase um ano e nove meses se comunicava e definia com objetividade seus gostos e vontades. Discriminava as diferenças entre os sons de aviões e helicópteros, assim como as sirenes de ambulâncias e carros de policia. Igual precisão o fazia diferenciar o som da água que todas as tardes Bal, seu amigo jardineiro, faz jorrar da mangueira, enquanto responde aos seus chamados com um largo sorriso. Pedro também sabe o que é apenas um "barulio" e atribuiu a ausência temporária do amigo Bal, à merecidas "féris"!

Quando vou visitá-lo constato que é uma "celebridade", pois, sou conhecida como a avó de Peu, identidade que me deixa muito feliz! Assim como a emoção e o orgulho de ser sua avó conviveram, com os inúmeros sentimentos que moram dentro de mim quando, com exatos um ano e nove meses, junto com a "mamãe querida", desfilou numa promoção do Shopping Salvador, no lançamento da Coleção Infantil Primavera-Verão. Para nossa surpresa, Pedro no segundo desfile coletivo, foi a única criança que entrou dançando! A inesquecível música Balão Mágico, refez a magia de trazer a trilha sonora da infância dos meus filhos na pele macia, nos olhos inocentes e no carisma do meu neto.

Dançou não só por ser desinibido e bem humorado, mas também porque a música sempre o acalma e o diverte - bisneto e sobrinho de músicos. Assim, busquei na minha memória todas as cantigas infantis que sempre lhe inspiram sorrisos, imprimem mais brilho nos seus olhos e evidenciam a determinação de me acompanhar, permitida por sua prodigiosa memória. Com ele redescobri que o “sapo não lava o pé”, que "Terezinha de Jesus de uma queda foi ao chão”, que quando o “cravo brigou com a rosa” e ela “foi visitar, o cravo deu um desmaio e a rosa pôs-se a chorar”. Pedro sabe que, se sua “rua fosse minha eu mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhante” para ele passar. Quando me beija, ah "que beijinho doce, que ele tem, depois que beijei ele, nunca mais amei ninguém"!

Cantando com Patati e Patatá a trilha sonora que embala nossa relação, minha voz antes desafinada, aos poucos foi “redescobrindo” que dó nunca foi pena de ninguém, embora o ré continue andando para trás, o mi sempre será o pronome que não tem e o fá.. ai que falta que ele me faz! Assim sou ouvida com uma ternura que mal cabe no seu olhar. Premia-me com um sorriso que aos poucos começa a iluminar seu rosto num silêncio respeitoso, como se soubesse que estes momentos são tão fugazes, quanto as estrelas, as formas das nuvens, as fases da lua e os pássaros que sempre busca no céu. "Vovó, vem cantar pra mim"! Sua voz me convoca para uma das tarefas mais doces que as avós cumprem como ninguém!

Quando começamos a usar nossas terças feiras para passearmos além do prédio onde mora, Pedro descobriu o kit multimídia que alegra meu carro e ficou hipnotizado com os muitos gêneros musicais que ele contém. Acompanhou, com atenção, tanto músicas clássicas, quanto músicas flamencas num movimento onomatopeico com a própria lingua, no mesmo ritmo das castanholas. Esta façanha o fez deixar de irradiar a vida que sempre registra através do vidro do carro, sentado na cadeira vermelha que chama de "minha cadeira", que um dia, ao perceber minha dificuldade de abrir o cinto de segurança, me orientou: "Vovó, forte e pra baixo!"... Pedro estava certo!

Meu neto enxerga o mundo em todas as suas dimensões, assim como sabe diferir o quente do frio, a chuva do “chuvico”, a luz da escuridão, pássaros de "urubu" e todos os tipos de meios de transporte. Inclusive, que a Topic do SEDEX entrega pacotes e a outra é de "ecola". Na casa da bisa Lucia não titubeou em pedir-lhe uma vassoura quando constatou os "dedinhos chujos" de poeira. Vinte dias mais tarde, ao retornar, pediu a vassoura, desta vez em tom jocoso, divertindo-se com a própria memoria. Voltando para casa, Pedro enquanto ouve música, olha através da janela e enxerga com alegria e encantamento que um dos muitos caminhos que percorremos juntos, tem "gramas", “arviris" e "eucaliptos", arbusto que lhe fora apresentado por vovô Fernando.

Todos os argumentos "convincentes" ele usa para convocar o avô para o passeio, inclusive, o de "catar as folhinhas no chão". Enquanto isto, vovó Eliete prepara "ovinho com farofa" ou "kube" no forno que já é "quibe", preparada as fornadas que compõem seu cardápio semanal.

O segundo 12 de outubro da vida de Pedro não o encontrou com "exatamente" dois anos, mas celebrou esta data dedicada à sua infância recém-inaugurada, de uma forma tão exuberante que meu coração se prostrou agradecido a Nossa Senhora Aparecida que, gentilmente, divide com as crianças as celebrações deste dia. Dançou e subiu no palco com a banda que animava o condomínio onde juntos, comemoramos o dia. Conquistou uma bola colorida das mãos do animador, que mal teve tempo de anunciar qual a tarefa que as crianças deveriam cumprir para fazer jus ao prêmio. Meu neto com ingênua desenvoltura levantou-se e, dirigindo-se ao condutor das brincadeiras, disse que queria a bola. Sem ter como dizer não àqueles olhos inocentes, sucumbiu diante do inusitado pedido de quem, ainda não descobrira que, para ganhar alguma coisa na vida, haveria sempre que dar uma contrapartida: "Como dizer não a um pedido feito desta forma"? Cedeu o homem diante da criança.

Atualizado com sua contemporaneidade, cedo Pedro começou sua intimidade com o IPad, onde estão gravados seus filminhos preferidos, inicialmente, conduzindo com firmeza meu indicador ignorante sobre os espaços onde acessa as moradas dos personagens que enfeitam sua infância, para logo, ele mesmo possuir toda a habilidade motora necessária para fazer suas próprias escolhas. Sempre adorou aconchegar-se em meu colo e escolher, entre as milhares de fotos e vídeos que meu celular armazena, a maioria dele, os musicais que o interessam, me fazendo repeti-los inúmeras vezes. Já discrimina o som do violão, do violino, do saxofone, da flauta e da harpa, aprendidos num livrinho com o som e fotos dos instrumentos com que o presenteei. Comigo forma uma dupla onde ele toca um violão, presente de vovô Fernando e vovó Eliete e eu toco um menos sofisticado mas que, nem por isto, ele confere menos importância. Experimentei enorme emoção quando, no quarto de brinquedos procurava por seu "amigo". Achando que se referia a um dos seus bichinhos de pelúcia, descobri que o "amigo" era o violão! Abraçado ao "amigo" cantava as musiquinhas que sabia e o lá, lá, lá já serve para preencher os espaços entre uma palavra esquecida e outra lembrada.

Tudo em Pedro me encanta e parece milagroso. Ele renova meu olhar, fazendo com que, reações normais em qualquer outra criança, nele julgue surpreendentes e precoces. Esta sensação de encantamento relativiza o tempo e, no espaço que o tempo me presenteia, me flagro com o mesmo sentimento de um amor infinito que sempre senti e sentirei por meus filhos. Sua existência reacendeu a chama de uma religiosidade latente, onde encontro no seu corpo em crescimento, na sua linguagem em evolução, nas surpresas contidas nas suas reações, nas emoções demonstradas diante de pequenas e grandes descobertas, a presença de uma força acima de tudo que, por meio dele, faz com que me sinta parte do Todo.

Minha humilde e amorosa contribuição para mediar o mundo para Pedro, tem dia marcado para que se rotinize, embora me sinta à vontade para visitá-lo na hora em que a saudade aperta. E como aperta! Com minha avó e com as avós dos filhos meus, aprendi que a distância, as ausências e os intervalos levam às urgências e às surpresas, que sempre moram na espera dos próximos encontros com as pessoas que amamos. Assim, reconheço a necessidade de rotinas para seu equilíbrio emocional. Fico feliz que meu neto tenha um lar onde cresce imerso no amor de seus pais, assim como preencho de sonhos e carinhosa expectativa, os caminhos que me levam até ele.

A incipiente percepção do seu universo em expansão, não impede que nele transite com inocente autonomia, senso de humor e enorme curiosidade, que prometem otimismo e segurança diante da vida e hoje o incitam a querer segurar o vento ou o "arco irilis" que invadem sua casa. Pessoalmente já vivi a mesma experiência, e hoje compartilho o encantamento com meu neto. Quando não consegue sozinho tirar suas próprias conclusões, Pedro já começa a dar voz às suas interrogações, perguntando "o que é isso?" ou às suas surpresas, "olha vovó, um passarinho no chão!", recente descoberta de que asas são sustentadas por dois frágeis pezinhos. Suas idas à praça perto da sua casa fazem com que interaja, com pessoas de todas as idades, animais de tamanhos variados e inúmeras espécies. Seus olhos prospectam tudo que lhe parece estranho e, até então desconhecido.

Meu neto não precisa saber que minhas interrogações dançam coreografias de esperanças, medos e inúteis preocupações quanto ao seu futuro. No tempo certo, antes que imagino, Pedro vai descobrir que sua condição humana lhe faz sonhar e que sonhos são alados e infinitos. Enquanto isto, parafraseando minha mãe, mais uma vez descobrirei que "amor não é redoma".

Desejo, ardentemente, que os momentos que passamos juntos e os que ainda estão por vir repousem vivos nas prateleiras da ternura e da amorosidade que formarão o edifício da sua estrutura emocional, e que leve durante toda sua vida. Fã de Raul Seixas, Pedro canta: "Eu vou ficaaaá, ficá com certeza, maluco beleza". Que esta frase seja um mantra e inspire sua existência, fazendo com que nunca perca de vista a criança que ele é e, certamente, será por muito tempo.

Dele só quero amor. De mim só terá amor e todos os desdobramentos que este sentimento permite. Que de todos que chama de avó guarde sempre a ternura que um dia nos presenteou com a expressão "duas avózes!" registrando vovó Eliete e eu contemplando-o enquanto passeava na praça, sob a elegante sombra dos eucaliptos.

Pedro inocentemente dizia que “só tenho um ano”. Hoje, já sabe que tem "exatamente" dois. E com apenas dois anos Pedro faz o que quer do meu coração. Por esta razão, peço licença ao poeta para terminar meu relato de mais um ano convivendo com meu neto, com os versos que, no momento, mais se aproximam dos meus sentimentos:

"meu alegre coração é triste como um camelo,
é frágil como um brinquedo,
é forte como um leão.
é todo zelo, é todo amor, é desmantelo, é querubim,
é Jesus Cristo,
é Lampião..."

(Geraldo Azevedo)

Vovó Alice











sexta-feira, 13 de março de 2015

O PT não é o inimigo. E o impeachment não é a solução - muito pelo contrário.


O PT não é o inimigo. E o impeachment não é a solução - muito pelo contrário.

O que farei aqui é uma análise da atual conjuntura política brasileira, sem perder de vista o contexto macroeconômico global. A partir daí, apontarei o inimigo do desenvolvimento e bem-estar do povo brasileiro, bem como a tática para superá-lo. Antes de começarmos essa análise, pedirei que as leitoras e os leitores estejam com dois princípios teóricos na ponta da língua. Cada um deles, por sua vez, exigirá abandonar um princípio hegemônico correspondente.

Primeiramente, vamos analisar as decisões, manobras, atores e atrizes políticas não apenas pela escala de competência. Em vez disso, vamos introduzir como central o interesse político. Por exemplo, em saúde, não há uma competência neutra e técnica que permita a um governo melhorar a saúde. O que existem são projetos diferentes de saúde, como o projeto privatista de saúde (focado em hospitais centralizados, privados e tomados pela lógica curativa da saúde) e o projeto da Reforma Sanitária Brasileira (saúde 100% estatal, organizado em rede de serviços descentralizados, focados na lógica preventiva e equitativa). A maneira como a saúde concretamente se expressa na sociedade é resultado do embate entre esses diferentes projetos. Se as forças privatizadoras estiverem maiores, a saúde caminhará para o lado privado - e vice-versa. Analisar os interesses políticos em vez da competência neutra exige, por sua vez, que pensemos em papéis sociais, que nos levam às classes sociais. Isso mesmo, vamos voltar falar de trabalhadores e burgueses.

O outro princípio é justamente essa compreensão do resultado (a aprovaçao de uma lei, a reduçao de alguma taxa, etc.) como fruto de uma correlação de forças. Ou seja, o preço de algo não sobe ou cai apenas porque uma pessoa quis ou porque não foi capaz de manter o preço original, mas porque a disputa de forças, atores e projetos políticos teve essa síntese. Isso pode nos levar, obviamente, a incluir na análise elementos além da conjuntura direta, como elementos estrangeiros, elementos históricos e elementos ideológicos. O governo não é, portanto, uma estrutura unificada e homogênea, mas, sobretudo nessa última decada, é uma estrutura de coalisão entre diferentes classes sociais. Os passos do governo são reflexos da força ou da fraqueza de cada uma dessas classes.

Estamos bem até aqui? Pois bem, então vamos à análise cuja síntese é: o Partido dos Trabalhadores não representa o inimigo do povo brasileiro. Portanto, tirá-lo do poder não é uma tática política que fará bem à população. O real inimigo do nosso povo é tão histórico quanto seus problemas: a exploração capitalista.

Voltemos agora ao início do desenvolvimento de um país aqui no Brasil. O objetivo por trás de delimitar as terras americanas que compreenderiam o Brasil (território) e em construir entre todas as tribos indígenas, invasores europeus e africanos sequestrados um único povo (nação) foi apenas um: exportação. Ouro, açucar, Pau Brasil, café, ferro, soja, borracha, a produção brasileira de 1500 a 2015 tem como destino os mercados estrangeiros. 

Mas lucramos com a venda dessa matéria-prima, não? 
Bom, num primeiro momento lucramos, mas depois precisamos comprar as máquinas feitas com o nosso ferro, as carnes alimentadas com os nossos grãos e por ai vai. E, como sabemos, os produtos industrializados são mais caros do que sua matéria-prima. Ou seja, desde o início, o papel do Brasil foi apenas um grande fornecedor de matérias-primas para países industriais e um grande consumidor de produtos industrializados por esses mesmos países.

Não é difícil chegar à seguinte conclusão: por que não rompemos com essa lógica? Por que não desenvolvemos nossa própria indústria, não assumimos a autonomia por nossas riquezas naturais e não construímos nossa própria nação? E a resposta é que, por todos esses cinco séculos, as forças políticas propícias à espoliação brasileira sempre foram mais fortes do que as forças que lutavam pela soberania nacional. Na verdade, as forças estrangeiras que fazem persistir a exploração de nosso país são tão mais poderosas do que as nacionalistas que se dão ao luxo de competir entre elas mesmas, alternando entre as nações que nos exploram: Portugal, Inglaterra, EUA...

Qualquer tentativa de consolidar aqui um projeto nacional de desenvolvimento foi cruelmente massacrado pelas forças exploradoras, o chamado Imperialismo.  A experiência de Canudos foi massacrada pelo Estado brasileiro, sofremos um golpe militar em 1964 quando as ruas e o presidente falaram em reformas estruturais (agrária, urbana, universitária), a última greve dos petroleiros (1995) foi interrompida com tanques de guerra do exército federal e, mais recentemente, o Partidos dos Trabalhadores é altamente criminalizado pelos veículos de comunicação. E não é o caso de achar que não há nada de irregular no partido, mas de se perguntar por que os veículos de comunicação não noticiam a privataria tucana, o mensalão tucano (travado no STF há 10 anos) ou o recente escândalo do banco HSBC (cujos 20 bilhões de reais envolvidos são dez vezes maiores do que os 2 bilhões do Lava-Jato). Por que a Globo é tão seleta no partido que quer criminalizar? Não nos esqueçamos que a emissora admitiu ter manipulado o debate entre Lula e Collor e confessou ter apoiado a ditadura militar

Em suma, nunca houve um rompimento com essas forças imperialistas. Nunca uma organização política brasileira de desenvolvimento nacional rompeu com a exploração capitalista, como aconteceu em Cuba, por exemplo. Tanto porque, de um lado, essas organizações brasileiras jamais tiveram força para isso, quanto, do outro lado, as forças imperialistas contaram com maior força política para se assegurarem (exército, mídia, propriedade privada) e souberam utilizar táticas mais eficientes. Uma dessas táticas, por exemplo, é se adiantar às forças nacionais. Por exemplo, quando as revoltas e levantes de negros e negras no período monárquico foram substituidas pela Princesa Isabel como protagonista da abolição da escravatura. Ou seja, quando há uma chance de forças nacionais avançarem na luta política, as forças imperialistas adiantam a vitória, porém sem entregar o jogo por completo (no caso, abolindo a escravidão sem qualquer reparação ou inclusão social).

Nessa disputa entre forças imperialistas e forças nacionais, o que foi, então, a chegada do PT ao poder? O básico que precisamos entender é que o PT não tomou o poder, ou seja, não é ele quem governa o país

Mas como assim? Não foram Dilma e Lula os presidentes?

Lembra que disse que o governo é expressão da luta de classes num país? Tanto em 2002, quando Lula foi eleito, quanto em 2014, quando Dilma foi reeleita, a classe trabalhadora não estava organizada ao ponto de ter força para vencer as forças imperialistas. Se assim fosse, a retalação imperialista teria sido muito maior. Por exemplo, poderíamos ter sofrido um novo golpe militar. Se os EUA articularam o golpe de 1964 (acredito que ninguém tenha mais dúvidas disso) quando Jango anunciou a Reforma Agrária, por que não reagiu de maneira semelhante quando Lula, membro do Partido que nasce no mesmo período de lutas que o MST, chega à presidência? É lógico que Lula representava uma ameaça muito menor aos imperialistas!

Mas então como Lula e Dilma venceram as eleições se a classe trabalhadora não tinha força para tal?

Porque, além de o governo ser uma composição de forças, uma coligação também é. No caso de Lula e Dilma, suas campanhas não eram exclusivas do PT, elas contavam também com representantes da burguesia, que garantem até hoje que o governo não rompa com a exploração estrangeira. Essa aliança com a burguesia nos ajuda a entender o porque de os EUA não terem reagido a Lula da mesma maneira que reagiu a Jango - e, é claro, o fato de esse último estar no periodo de Guerra Fria.

Então, se o PT chegou ao poder com ajuda da burguesia, não adianta nada para a classe trabalhadora?

Isso, obviamente, diminui a capacidade de disputa da classe trabalhadora no governo. Afinal, aquele Lula que dirigia as greves dos metalúrgicos e aquela Dilma que lutou contra a ditadura militar passam a ter que negociar com os empresários dos planos de saúde, do agronegócio e dos grandes bancos por uma "migalha". Essa "migalha", por exemplo, é o Bolsa Família, que utiliza apenas 0,45% do PIB, enquanto que 47% continua sendo usado para pagar a dívida externa. Isso mesmo, enquanto a gente acha que o mensalão causou problemas no orçamento do país, precisamos conviver com uma dívida inacabável, imoral e irregular que consome metade do dinheiro do país (20 mensalões por dia, aproximadamente). É quase como se metade do nosso trabalho fosse pra doar dinheiro para meia dúzia de ricos, que detêm essas dívidas.


Apesar de serem "migalhas", é indubitável o resultado positivo do Bolsa Família, das cotas raciais, do Água para Todos, Luz para Todos, Brasil Sorridente e outras políticas públicas vistas durante os períodos em que o PT encabeçou a presidência. Obviamente, essas políticas só podem existir desde que não atrapalhem o enriquecimento das forças imperialistas, ou seja, só vai melhorar o SUS enquanto isso não atrapalhar as clínicas privadas.

O problema, no entanto, é que a conjuntura atual é de Crise Econômica mundial, estrutural e rasteira. Essa crise felizmente foi adiada no Brasil por termos diversificado os parceiros econômicos (passamos a comercializar mais com países ainda não atingidos pela crise, como China, e menos com países já atingidos pela crise, como EUA e Europa). No entanto, a crise chegou na China, chegou nos BRICS e, portanto, chegou aqui. A economia está arrefecendo, e não sejamos ingênuos de achar que Dilma quer que isso aconteça. Ninguém quer.

Ou seja, com a economia diminuindo, algum setor vai ter que ter cortes de gastos, certo? E aí voltamos à velha disputa de classes, que se dá também dentro do governo. Quem vai arcar com a crise é o capital financeiro, que aliás é o causador da crise, ou os trabalhadores? Apesar dos trabalhadores serem maioria e necessários à produção de riquezas, são eles que sofrerão os maiores danos da crise, por justamente (como já falamos) não estarem organizados para fazerem frente ao Imperialismo. Agora dá para entender melhor os cortes nos direitos e benefícios trabalhistas, os problemas com o financiamento do FIES, o corte de 7 bilhões para educação… tudo isso é feito para que as elites, que têm mais força no governo, não precisem “arcar” com a crise.
Não sejamos bestas, pessoal! Não dá para achar que Dilma quer quer as conquistas dos últimos governos do PT sejam jogadas fora! Isso é reflexo de uma crise. Será que não lembramos das manifestações na Europa inteira porque a crise afetou a previdência, a saúde pública e os direitos trabalhistas? Foi a mesma coisa lá, aqui só demorou um pouco mais para chegar. Em tempos de crise, a tolerância do Imperialismo com as “políticas sociais” são muito menores e, seja aqui, na Europa ou nos EUA, são os trabalhadores e as trabalhadoras quem sentem na pele essa crise.
Então, tirar Dilma do poder é a solução? Óbvio que não! Você nem precisa defender o PT para entender que os problemas do Brasil são históricos, que nunca rompemos com os sangue-sugas que nos colonizaram e que, até hoje, ainda ocupamos a posição de economia dependente. Hoje, essa política imperialista não é exatamente a mesma do período colonial. Ela é expressa atualmente pela corrente neoliberal. O neoliberal prevê a desarticulação do Estado com o mercado, permitindo às empresas privadas ocuparem cada poro da vida das pessoas, colocando a lógica no lucro em espaços de garantia da dignidade humana básica, como saúde e educação.
A frente encabeçada pelo PT hoje, chamada de neodesenvolvimentista, não rompe com o neoliberalismo que vivemos brutalmente nos governos de Collor e FHC, mas colocam o desenvolvimento nacional como um dos objetivos do governo. Basta comparar o valor de mercado da Petrobrás e sua produção antes e depois dos governos do PT e perceber que há uma preocupação com o desenvolvimento do país, e esse desenvolvimento depende de empresas estatais! Uma política neoliberal vai totalmente na contra-mão, pois prevê a privatização das empresas. Nos governos FHC, áreas estratégicas da economia e infra-estrutura foram vendidas a preço de banana, como a Light, a Vale do Rio Doce, Embraer, Telebrás, toda a rede de transporte ferroviário, toda a rede de comunicações… tudo foi vendido! Até a Petrobrás teve 40% de suas ações vendidas na década de 90 e chegou a se chamar “Petrobrax”, para facilitar a pronúncia dos gringos. Dá para imaginar estruturar um país se o Estado não tem controle sobre as empresas que fazem o país funcionar? Por isso que, embora a classe trabalhadora e os defensores do desenvolvimento nacional não tenham forças para combater o Imperialismo, ter o PT no poder é melhor do que ter um governo 100% neoliberal.
Agora, vamos tentar formular como tirar o Imperialismo do poder em nosso país. Afinal, como ele se mantem no poder há tanto tempo se, por todos os motivos que expliquei, é o inimigo número um do nosso povo.

Há inúmeras ferramentas de controle do Imperialismo em nosso país, vamos a elas: da maneira como se dá o processo eleitoral nesse país, é impossível que forças políticas nacionais, trabalhadoras e que pensem o desenvolvimento do país estejam no poder. Acredite, dos 600 congressistas e senadores, 240 são empresários e 160 são latifundiários. Qual a chance que uma divisão mais justa da terra tem de passar num congresso como esse? Isso se perpetua porque as eleições são disputadas pelo dinheiro. Uma campanha política que não milhões e milhões de reais envolvidos simplesmente não é vitoriosa

Isso permite, como já dito, que representantes dos planos de saúde, por exemplo, financiem candidatos. Afinal, o candidato, seja ele honesto ou não, PRECISA de dinheiro para sua campanha - é uma imposição cruel do sistema. Como sabemos, ninguém “doa” milhões de reais assim do nada, né? É lógico que a empresa de plano de saúde faz um “investimento”, na verdade. E que inimigo pior de uma plano de saúde do que um sistema de saúde público que funcione da melhor maneira possível? A primeira coisa que o deputado eleito pelo dinheiro dos planos de saúde fará será impedir os avanços do SUS, obviamente! O resultado disso é que, dos 100% de dinheiro público que vai pra saúde, 55% é para a saúde privada! Isso mesmo, dinheiro público é usado para ajudar clínicas privadas. Mesmo que mudemos de presidente, a estrutura do governo é essa, o congresso é o lar de empresários.
Outro importante recurso usado pelo Impearialismo é, como já dito, a grande mídia. Não sejamos bestas, há um motivo para a Globo fazer um show televisivo com a Operação Lava-Jato ou com o Julgamento do Mensalão e não fazer o mesmo com qualquer coisa semelhante envolvendo um outro partido. Menos de dez famílias dominam a comunicação nesse país, ou seja, é um monopólio cruel. Quando nos fazem achar que a regulação da mídia vai contra a liberdade de expressão, eu lhes pergunto, é possível para um jovem negro da periferia se expressar a nível nacional? Mesmo que ele se esforce, será que é possível falar mais alto do que a Globo com esforço individual? Será que novelas racistas como “Da Cor do Pecado” e “Sexo e Suas Negas” devem ser mais veiculados do que a expressão legítima do povo negro?
Então, a solução é qual afinal?
Relaxem, a solução não termina em “defender o PT”. Antes de escolher se vai defendê-lo ou não, espero que tenha conseguido entender que ele não é o problema. E a única razão para que defendê-lo no governo é de que, no contexto atual, trata-se da proposta menos dominada pela lógica neoliberal. Mas eu disse no início do texto que nossos problemas são maiores do que o PT, maiores do que o PSDB, maiores do que a crise econômica… então, serei justo com vocês e dizer que a solução precisa ser tão histórica quanto, e dar um fim nesse inimigo secular: O Imperialismo.
A tática para tal precisa de muita organização de nós, que queremos o desenvolvimento do país, então romper com o Imperialismo não acontecerá enquanto não despertemos a vontade de lutar contra a exploração capitalista em todo o povo. Até lá, a proposta da Constituinte Soberana e Exclusiva do Sistema Político é uma tática interessante para conseguir uma Reforma Política (ou seja, mudar a maneira como a política é feita, não apenas o presidente) e acumular forças para nossa libertação nacional.

RAFAEL NEVES

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

EDITORIAL

Cada vez mais os fatos nos levam a acreditar o quanto são necessários a proliferação e o fortalecimento de todas as mídias, também  deste Blog cuja relevância consiste em revelar questões existenciais e juízos pessoais em relação aos acontecimentos que o mundo produz.

A liberdade de expressar-se é condição necessária para que todo homem se sinta plenamente livre. Portanto, é fundamental que jamais se esgote a necessidade de clamar por ela em todas as suas formas e jamais transigir quando alguma força quiser cerceá-la.

Em esferas mais pessoais, sempre existirá o compromisso com quem o inspirou, ainda que  fisicamente ausente, mas onipresente na vida e nas lembranças de todos que a amam. A marca que Kilma deixou é indelével,  e cada qual sente ao seu modo.

Quem tem alguma sensibilidade e é suscetível às grandes mudanças  não está confortável habitar este planeta. A intolerância recrudesce em todos os lugares, nas formas mais insólitas e improváveis. O valor da vida está banalizado e até as religiões servem de pretexto para separar os homens.

Em qualquer parte do planeta, há alguém morrendo de fome, adoecendo por falta de água potável, por falta de um abrigo contra o frio ou de um remédio que diminua sua dor. Em todos os cantos do mundo, há alguém sofrendo pela indiferença, pela ingratidão, pelo desamor.
Em qualquer parte deste mesmo planeta, alguém desperdiça comida e água, possui muitos abrigos contra o frio, tem acesso a uma medicina avançada e ainda não conheceu a indiferença, a ingratidão ou o desamor. Portanto, não faltam nem faltarão dores e diferenças que agridam e distanciem o homem de outro homem. Continuamos iguais quanto às desigualdades.

Neste contexto sombrio, mas sempre permeado de esperança, se faz necessário o registro de uma pessoa como Kilma, que adorava ouvir “que a vida poderia ser bem melhor”. E acreditava nisto, embora, se estivesse entre nós, sua indignação seria maior que a nossa, assim como a busca dos meios de provar que suas esperanças poderiam ser concretizadas. 

Médica, embreava-se pelo interior da Bahia e, acompanhada por companheiros da área de Saúde, levava remédios, além de sua presença carinhosa e competente, tentando diminuir a dor, o desamparo, a falta de cuidados básicos a que todo ser humano tem direito. A sua generosidade era tão grande quanto ainda é incomensurável nossa admiração que seu precoce desaparecimento recrudesce.

Mas Kilma sorria  e sorria sempre! O branco do seu sorriso em contraste com o eterno carmim do seu batom ofuscava qualquer nuvem de pessimismo que assaltasse seus circunstantes, pois dela só se ouviam palavras de otimismo, carinho e fé. Sua forma cristalina de olhar a vida tinha o poder de fracioná-la em uma linda nuance de cores, como o profundo azul do mar, onde o sol todos os dias  ilumina sua última morada nesta existência.

O VERSO&REVERSO completa seis anos. Tão sem importância é a contagem do tempo da sua existência como igualmente irrelevante medir o tempo em que Kilma se foi. Para alguns poucos pode parecer muito, mas para muitos este tempo não existe, pois ausência é um conceito  indivisível  quando transformado em saudade.

Vale  ainda um registro de gratidão aos leitores e aos  colaboradores deste Blog e, principalmente, à diversidade da vida, que empresta significados às dores do mundo e justifica alguns dos textos que o alimentam

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015


AMIGOS

Conforme prometi aos meus leitores, estou publicando, fora do espaço destinado aos "Comentários" sobre o texto "UM ANO COM ELE", onde descrevo minha convivência com meu neto. 

O BLOGSPOT por questões operacionais que não me dispus esclarecer, nem ninguém que conheço conseguiu decodificar passou a exigir senha e login no GOOGLE, para que os leitores tenham condições de postarem suas opiniões.

Foram tão lúcidos os comentários, que me senti deliciosamente invadida, com a sensação de que todos que leram meus escritos, tiveram o poder de ler minha alma e perceberam o amor que sinto por PEDRO, meu neto, meu sonho.

Em respeito aos meus fiéis leitores, segue abaixo seus carinhosos comentários:

P.S. Rodrigo, meu filho e Eliane, uma amiga querida foram os únicos que conseguiram comentar, daí minha omissão quanto aos seus deliciosos comentários naquela página. 




Alice:
Espero que esteja muito feliz, com o netinho e toda esta família maravilhosa, que tanto nos encanta.
Nós somos mães por natureza. rs
Luciana Marques

Alice, que texto lindo! Livre, leve e solto como deve ser o amor que voce sente por Pedro. Curta amiga, este amor especial que esta criança diferenciada mobiliza em voce, que consegue descrever um sentimento tão importante com tanta simplicidade e beleza.
AMANDA

Amiga, primeiro parabéns por ter voltado a escrever. Segundo, pelo motivo que é para ser descrito, comemorado, cantado em prosas e versos, como você, tão competentemente, faz. Confesso que me emocionei com a emoção que você passa em tudo que escreve. Dá para sentir nas entrelinhas seu amor por esta criança, sua fé na vida e na sua continuidade
Penha Castro

Alice, que bonita a forma como você enxerga seu neto. Me dei o prazer de voltar ao seu texto sobre o nascimento dele, e percebi que a qualidade do afeto e a garantia que ele continuará cada vez mais limpo das "impurezas da existência" como você mesmo escreveu.
Poucas pessoas enxergam esta relação tão cheia de possibilidades e ganhos afetivos para as duas partes. Você terá alguém que ama tanto, quanto ama seu filho próximo a você, contando com seu amor e sua amizade. E êle contará com alguém que o amará com amor imenso sem as cobranças e responsabilidades inerentes a condição materna. Esta forma de relação só acontece com pessoas especiais como você e, como imagino, será seu netinho.
Aparecida Matos

Alice,
Acompanhei através de você a gestação de Pedro. Senti sua ansiedade e a explosão de felicidade no nascimento. Daí em diante foi só encantamento. Este texto revela todo amor que você sente pelo seu netinho, que parece ser uma criaturinha muito especial.
Virginia

Alice, voce é a avó mais amorosa e mais gata que eu conheço
ZEUS

Alice, você é um poço inesgotável de emoções. É assim com seus amigos, com seus filhos, pela forma que fala deles e deve ser uma avó maravilhosa. As palavras deste texto não deixam dúvidas. É emocionante a forma como você se refere a esta criança. Sorte dela, ser tão amada!
Sonia Castro

Oi Alice, que bom que o netinho fez com que voltasse a escrever! Voltou em alto estilo e nunca vi um texto conter tanta ternura. Parabéns por ter alguém que lhe inspire tanto.
Rose

Querida irmã,
Senti cada palavra que você escreveu, pois além de vivenciar esta “felicidade” que o nosso Peu trouxe para a nossa família, imagino a sua felicidade!!!
Viva PEU!!! Este “anjo” que nos presenteou com a sua presença!!
Bjss,
Vovó Bel

Alice,
Este foi um dos textos mais simples e mais bonitos que voce escreveu. Parabéns pelo Pedro e por você possuir um espírito tão cheio de ternura e amor
RICARDO FARIAS

Alice, sua crônica sobre seu neto foi tão emocionante que lembrei da minha avó. Só que ela era uma avó à moda antiga, possuía cabelos brancos e vivia em casa fazendo compotas. Hoje, felizmente, as avós são como você, vitais, jovens e dinâmicas. Assim sua relação com Pedro que começa tão bonita, tem possibilidades de se aprofundar e enriquecer a vida dos dois.

Anônimo

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

UM ANO COM ELE
Sempre foi um sonho. Sabia que muitas etapas teriam que ser cumpridas para que se tornasse realidade; formaturas, noivados, casamentos. Vieram, então as aposentadorias e uma casa quase vazia. Um “script” conhecido e nada original.  Um cenário perfeito onde, somente o frescor de uma criança poderia tornar mais alegre e cheia de nuances as cores da minha vida.
Há um ano, aos vinte e sete dias do mês de dezembro, nascia Pedro, meu neto, meu sonho. Acho que já escrevi neste BLOG, que os sentimentos que invadiram meu coração eram imensos e profundos, mas leves. Como energia limpa, livre das impurezas da existência. Não me dava conta que era protagonista de apenas um capítulo da natureza que se cumpria. Sentia-me imersa num milagre que só merece quem tem méritos nesta ou em outras existências.
Sobre o olhar amoroso de toda a família e para mim, especialmente, Pedro foi crescendo, crescendo e, com apenas um ano de vida, já cravou raízes profundas no meu coração. É como a maioria das crianças, inquieta. Dona de um carisma incontestável, não tem uma pessoa que lhe estenda os braços que ele não aceite o colo. É risonho e chora pouco. A curiosidade é uma das suas mais marcantes características. Ouve tudo e observa todos os detalhes ao seu redor, no chão, nos brinquedos, nas pessoas, até onde seus olhos alcançam. Tem o hábito de encarar as pessoas. Olha-as, demoradamente,  nos  olhos. Quando os meus encontram os seus, me perco tentando imaginar as interrogações, as exclamações e os sonhos que moram nos olhos de Pedro. 
 A terça feira me veste de criança, me despe de cremes, hidratantes e perfumes e, com meu neto, reaprendo a brincar. No quarto onde o tatame colorido alegra o cenário, no qual, juntos nos divertimos, já sou intima do seu ursinho bilíngüe, o Ted e sei da sua predileção por um antigo móbile onde um pássaro chilreia o “Noturno de Choppin”, fazendo-o sorrir aquele “sorriso de rosto inteiro”. Sim, porque Pedro sorri com os olhos, bochechas e, por enquanto, com os quatro dentinhos que enfeitam suas gengivas que se preparam, a espera dos outros “companheirinhos.
Sentada no chão, na quina do armário para protegê-lo de acidentes, contemplo com a calma e com a solenidade que o momento requer o desenvolvimento do seu equilíbrio, as modificações da sua fisionomia, o enriquecimento das suas linguagens, as mudanças do seu olhar quando sabe que está fazendo algo proibido ou no seu sorriso, quando sua determinação o faz alcançar algo que lhe parecia impossível. Assalta-me um ingênuo desejo de congelar o tempo, que transmuta os momentos em simples lembranças. Sinto uma saudade antecipada desta fase, onde cada vitória de Pedro, por menor que seja é sempre compartilhada. Ah! Se eu pudesse perpetuar a inocência do meu neto, mantendo-o inocente e longe da maldade dos homens!
Não escapa a minha percepção quando o quarto de brinquedos já o satura e é chegada a hora de Pedro olhar, através da janela, João e Malu, seus amiguinhos, brincando no “playground”ou as luzes dos carros no lusco fusco do entardecer. Ele gosta de ver o mundo, ainda uma montagem incompreensível, mas fascinante que, aos poucos, vai fazendo sentido.
Logo que escurece seus olhinhos não desgrudam da porta da entrada esperando “mamã”, única criatura capaz de devolver-lhe a vivacidade e a energia.
Há um ano Pedro está na minha vida. Logo que seu retrato foi emoldurado pelo porta-retrato que passou a morar no meu criado mudo, todas as manhãs nos olhamos, e dele tiro forças para levantar e enfrentar mais um dia, a estranheza deste planeta que Pedro encara com um irrefutável senso de humor, parte do seu jeitinho de ser e que encanta a todos que o conhecem.

ALICE ROSSINI

quinta-feira, 8 de maio de 2014

FRAGMENTOS DE UMA VIDA

Há 57 anos, em todos os seis de maio havia uma comemoração, o aniversário de Luis Augusto Timbó, Luca, para os íntimos. Ontem, sua esposa sentou-se à beira da cama e cantou “Parabéns pra você!” em sua homenagem.

Esta cena seria a alegre se, nesta repetição de mais de trinta anos em que o casal Luca e Lourdinha estiveram juntos, a cama não estivesse num quarto de Hospital e, em vez do sorriso disfarçado ou alguma observação carregada de um senso de humor peculiar, ela não tivesse percebido sua dificuldade para respirar.

Luiz Augusto era engenheiro e empresário. Dos bons. A competência e o raciocínio lógico foram sua marca registrada. Luca viveu a exata metade do dia seis. Morreu, pontualmente às doze horas.

Toda sua vida foi marcada pelo trabalho ético, honesto e competente, pela intensidade nas relações, pela franqueza rara e desconcertante, pela inquietação, característica natural em mentes brilhantes. Direto no trato com os amigos, os que não se incomodavam com as idiossincrasias do seu estilo, gostavam dele e entendiam que, debaixo daquele olhar perscrutador e uma postura sempre em alerta, morava um ser humano que amava a família, o mar e a aventura.  Os que não gostavam ou não possuíam a sensibilidade de percebê-lo, acho que sua sabedoria dizia-lhe que não se incomodasse, afinal, Luca sabia que ninguém possui a prerrogativa da unanimidade.

Era capaz de surpreender até sua companheira de toda a vida. Entretanto, quando sorria ou quando vociferava contra tudo que achava errado ou fugia ao seu controle, o fazia com uma verdade tão contundente que, para muitos, faltavam argumentos para contradizê-lo.

A criança que morava dentro dele adorava filmes de super heróis.  Admirava o Homem Aranha e “acreditava” na fantasia que o Super Homem nasceu da explosão de uma criptonita.

Infelizmente, Luca morreu exatamente na data que nasceu tal a vontade que tinha de fazer as coisas certas, de não deixar nada inconcluso. Só sentia-se à vontade de percorrer o caminho que achava correto e que não o surpreendesse a ponto de mudar sua rota, desviando-o para atalhos ou estradas alternativas.

Personalidade forte e presença marcante para todos que o conheceram.  Será sempre uma ausência sentida, principalmente para sua esposa, pais, irmãos, filhos, genro, amigos e familiares e a convivência, cruelmente interrompida, com seu primeiro neto, o pequeno Pedro.

Este imenso vazio que deixou em nossos corações, talvez tenha sido a única falha na sua rara capacidade de prever o imprevisível, independente da exatidão da data e da hora que “escolheu” para decretar por concluída sua breve, mas intensa existência.

Doze horas do dia seis de maio será, sempre, para quem o ama o momento da vacuidade, da lacuna e da saudade.

ALICE ROSSINI
        
######################################################################

O COMETA LUCA

Falar de Luca é difícil e fácil. Difícil porque a tristeza gerada por sua ausência acaba embargando a voz e embaralhando os pensamentos. Fácil porque Luca foi e sempre será um jantar para 400 talheres.         Atitudes  polêmicas, frases marcantes,  amigo e inimigo fiel, pai presente, marido apaixonado, chefe competente, perfeccionista, exigente, entre outras qualidades e defeitos.

Há 57 anos, no dia 6 de maio, nasceu em Salvador. Nasceu, cresceu, formou-se engenheiro, casou-se com o grande amor de sua vida, formou família com dois filhos, tornou-se executivo e, por fim, empresário do ramo de seguros. Empresário muito bem sucedido. Ainda fez, como ultima tarefa, a transferência da empresa para seus dois filhos. Após 57 anos, no mesmo dia 6 de maio, morreu.

Tudo em Luca foi fora dos padrões. Se ele gostava de barco, sua lancha  tinha que ser especial.Se resolvia andar de jeep teria que estar entre os tops. Previa os riscos de sua vida com uma excelência impressionante. Queria, e conseguia, andar sempre dois passos a frente dos outros. Adorava superlativar posições.  Não era homem de média. Por isso mesmo  sempre achei que  a   frase ame-o ou deixe-o bem que poderia ter sido formulada para ele.

Luca tinha uma qualidade que me chamava a atenção. Ele sabia escutar. Sabia tirar proveito de tudo que ouvia. Tinha consciência de que nunca se sabe tudo. Em uma única noite ele navegava entre  atitudes  ranzinzas, radicais, a posturas simpáticas, liberais, humildes, inteligentes e engraçadas.

Por terem personalidades parecidas, gostava de brincar de brigar com Alice, que era carinhosamente tratada por ele como Tia Alice. Pareciam  gato e rato. Viviam as turras. Mas não dispensava um final de semana em nossa companhia. A ultima vez que saímos para o mar, ele providenciou com antecedência, asinhas para segurança de Tia Alice. Era sua maneira de demonstrar carinho.



Durante um bom  tempo usamos as noite de quinta feira para jantarmos juntos. Nossos encontros a quatro eram sempre no Bahia Marina. Ríamos sem parar. Atualizávamos nossos assuntos, comíamos e bebíamos do bom e do melhor. Claro, era sempre uma luta conseguir  com o maitre que a cebola fosse retirada dos temperos de sua escolha. Mesmo assim, quando o prato chegava ele dava uma vasculhada para conferir se sua exigência tinha sido respeitada. E quando encontrava qualquer  indício do tubérculo maldito amuava e desistia de comer. Nada o demovia desta atitude infantil. Já sabíamos. Mas também não permitíamos que o resto da noite fosse azedado pela presença da cebola. Normalmente só saíamos do restaurante com os garçons colocando as cadeiras em cima das mesas. E saíamos sempre as gargalhadas. Ah saudade....Pois é  Luca. Você é uma das saudades que, com certeza, gostaremos de ter.

MARCO ROSSINI



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

EDITORIAL

 
Cinco anos se passaram. Aparentemente, quase tudo continua igual, embora, saibamos que não está, porque impossível. É assim a vida, a cada milésimo de segundo, tudo muda. A transformação é contínua, inexorável.
 
O espaço de tempo onde existimos fez com que muitos de nós ganhássemos experiência, entretanto, a maioria vive em superfícies tranquilas e seguras, e nem sabe o que fazer com ela. Outros aproveitaram a oportunidade, procuraram entendê-la e tornaram-se pessoas melhores. Algumas amarguraram e perderam-se, inclusive, de si mesmas.
 
Conquistamos e perdemos pessoas e coisas. Muitas, apenas, nos visitaram e se foram sem deixar marcas. Felizmente, grande parte delas continua e estão, delicadamente, hospedadas em importantes escaninhos das nossas emoções. Indiferentes, importantes pilares que nos ratificavam ruíram, impedindo que fôssemos o que pretendíamos ser. Mal sabemos como desmoronaram.
 
Ganhar, perder, sorrir, chorar, agradecer. Ignorar o bem que recebemos ou re significar os maus momentos como necessários e importantes testes para nossa capacidade de enfrentar as armadilhas da vida. A sabedoria em reconhecer a legitimidade do ciclo inerente à existência, nascer, crescer, morrer, pois, assim ela está organizada e nada podemos fazer para que aconteça de outra forma. Inverter a ordem natural.
 
Nosso único poder repousa sobre nós mesmos, reciclando nossas infinitas formas de enxergá-la, enquanto tentamos entendê-la. Um dos objetivos pessoais do ser humano poderia ser o de buscar a flexibilidade sem, entretanto, perder princípios. Arigidez pode ser fatal para a evolução, para a simplicidade, para a humildade, para mudanças que melhorariam as relações entre as pessoas, e entre elas e o Planeta.
 
Reitero que este BLOG nasceu motivado por uma grande saudade. Um vazio cheio de motivos, histórias, significados, perguntas sem respostas, conteúdos de paz, melancolia e uma perda que a fé de muitos, nos faz acreditar que um dia reencontraremos quem perdemos. Alguém que possuía as retinas sintonizadas com tudo que a vida tem de bom, nossa inesquecível KILMA.
 
Mais uma vez se faça um singelo registro de uma data que se alimenta tanto pela existência, quanto pela falta. Os cinco anos deste BLOG, cujos motivos e motivações sempre serão associados à vida e à alegria de alguém, que sempre tentava enxergar com simplicidade e amorosa leveza, a complexidade e a importância dos compromissos que justificaram e tornaram exemplar sua breve existência. Porque, além de simples e despretensiosa, sua determinação em privilegiar o exercício do bem, fez com que nunca desistisse de lutar e, jamais, transigir.
 
Entretanto, muitos foram presenteados com pontos de luz, onde puderam depositar o estoque de amor e aceitação que existe em cada um. Ainda foram criadas novas e consistentes possibilidades de momentos felizes, da mesma forma que nossos impulsos destruíram pontes e inviabilizaram caminhos que nos ligavam a verdadeiros afetos.
 
As crianças estão crescendo, outras a violência tem levado cruel e prematuramente, e muitas ainda virão. As árvores, a cada ventania, tiveram suas folhas renovadas, assim como flores brotam a cada primavera. Um lado do planeta esteve mais frio, outro mais quente. A vida manifestando-se independente e ferida mostra seu lado perverso. Com a incompreensão do homem, novas guerras eclodiram, enquanto, outras continuam teimosas e inúteis. Alguns preconceitos foram discutidos, muitos de nós assumimos novos conceitos, outros, entretanto, os recrudesceram. Aconteceram muitas paixões, muitos desamores e outros tantos, ratificados pelo tempo de compreensão e paciência.
 
Enfim, por que não fazer como Clarice Lispector, numa das visitas à própria lucidez?: “Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”
 
Embora, cada momento seja diferente do anterior e o futuro uma incógnita, o que se mantém constante são as saudades e algumas inconstantes razões, para que este BLOG continue a existir.