sexta-feira, 13 de março de 2015

O PT não é o inimigo. E o impeachment não é a solução - muito pelo contrário.


O PT não é o inimigo. E o impeachment não é a solução - muito pelo contrário.

O que farei aqui é uma análise da atual conjuntura política brasileira, sem perder de vista o contexto macroeconômico global. A partir daí, apontarei o inimigo do desenvolvimento e bem-estar do povo brasileiro, bem como a tática para superá-lo. Antes de começarmos essa análise, pedirei que as leitoras e os leitores estejam com dois princípios teóricos na ponta da língua. Cada um deles, por sua vez, exigirá abandonar um princípio hegemônico correspondente.

Primeiramente, vamos analisar as decisões, manobras, atores e atrizes políticas não apenas pela escala de competência. Em vez disso, vamos introduzir como central o interesse político. Por exemplo, em saúde, não há uma competência neutra e técnica que permita a um governo melhorar a saúde. O que existem são projetos diferentes de saúde, como o projeto privatista de saúde (focado em hospitais centralizados, privados e tomados pela lógica curativa da saúde) e o projeto da Reforma Sanitária Brasileira (saúde 100% estatal, organizado em rede de serviços descentralizados, focados na lógica preventiva e equitativa). A maneira como a saúde concretamente se expressa na sociedade é resultado do embate entre esses diferentes projetos. Se as forças privatizadoras estiverem maiores, a saúde caminhará para o lado privado - e vice-versa. Analisar os interesses políticos em vez da competência neutra exige, por sua vez, que pensemos em papéis sociais, que nos levam às classes sociais. Isso mesmo, vamos voltar falar de trabalhadores e burgueses.

O outro princípio é justamente essa compreensão do resultado (a aprovaçao de uma lei, a reduçao de alguma taxa, etc.) como fruto de uma correlação de forças. Ou seja, o preço de algo não sobe ou cai apenas porque uma pessoa quis ou porque não foi capaz de manter o preço original, mas porque a disputa de forças, atores e projetos políticos teve essa síntese. Isso pode nos levar, obviamente, a incluir na análise elementos além da conjuntura direta, como elementos estrangeiros, elementos históricos e elementos ideológicos. O governo não é, portanto, uma estrutura unificada e homogênea, mas, sobretudo nessa última decada, é uma estrutura de coalisão entre diferentes classes sociais. Os passos do governo são reflexos da força ou da fraqueza de cada uma dessas classes.

Estamos bem até aqui? Pois bem, então vamos à análise cuja síntese é: o Partido dos Trabalhadores não representa o inimigo do povo brasileiro. Portanto, tirá-lo do poder não é uma tática política que fará bem à população. O real inimigo do nosso povo é tão histórico quanto seus problemas: a exploração capitalista.

Voltemos agora ao início do desenvolvimento de um país aqui no Brasil. O objetivo por trás de delimitar as terras americanas que compreenderiam o Brasil (território) e em construir entre todas as tribos indígenas, invasores europeus e africanos sequestrados um único povo (nação) foi apenas um: exportação. Ouro, açucar, Pau Brasil, café, ferro, soja, borracha, a produção brasileira de 1500 a 2015 tem como destino os mercados estrangeiros. 

Mas lucramos com a venda dessa matéria-prima, não? 
Bom, num primeiro momento lucramos, mas depois precisamos comprar as máquinas feitas com o nosso ferro, as carnes alimentadas com os nossos grãos e por ai vai. E, como sabemos, os produtos industrializados são mais caros do que sua matéria-prima. Ou seja, desde o início, o papel do Brasil foi apenas um grande fornecedor de matérias-primas para países industriais e um grande consumidor de produtos industrializados por esses mesmos países.

Não é difícil chegar à seguinte conclusão: por que não rompemos com essa lógica? Por que não desenvolvemos nossa própria indústria, não assumimos a autonomia por nossas riquezas naturais e não construímos nossa própria nação? E a resposta é que, por todos esses cinco séculos, as forças políticas propícias à espoliação brasileira sempre foram mais fortes do que as forças que lutavam pela soberania nacional. Na verdade, as forças estrangeiras que fazem persistir a exploração de nosso país são tão mais poderosas do que as nacionalistas que se dão ao luxo de competir entre elas mesmas, alternando entre as nações que nos exploram: Portugal, Inglaterra, EUA...

Qualquer tentativa de consolidar aqui um projeto nacional de desenvolvimento foi cruelmente massacrado pelas forças exploradoras, o chamado Imperialismo.  A experiência de Canudos foi massacrada pelo Estado brasileiro, sofremos um golpe militar em 1964 quando as ruas e o presidente falaram em reformas estruturais (agrária, urbana, universitária), a última greve dos petroleiros (1995) foi interrompida com tanques de guerra do exército federal e, mais recentemente, o Partidos dos Trabalhadores é altamente criminalizado pelos veículos de comunicação. E não é o caso de achar que não há nada de irregular no partido, mas de se perguntar por que os veículos de comunicação não noticiam a privataria tucana, o mensalão tucano (travado no STF há 10 anos) ou o recente escândalo do banco HSBC (cujos 20 bilhões de reais envolvidos são dez vezes maiores do que os 2 bilhões do Lava-Jato). Por que a Globo é tão seleta no partido que quer criminalizar? Não nos esqueçamos que a emissora admitiu ter manipulado o debate entre Lula e Collor e confessou ter apoiado a ditadura militar

Em suma, nunca houve um rompimento com essas forças imperialistas. Nunca uma organização política brasileira de desenvolvimento nacional rompeu com a exploração capitalista, como aconteceu em Cuba, por exemplo. Tanto porque, de um lado, essas organizações brasileiras jamais tiveram força para isso, quanto, do outro lado, as forças imperialistas contaram com maior força política para se assegurarem (exército, mídia, propriedade privada) e souberam utilizar táticas mais eficientes. Uma dessas táticas, por exemplo, é se adiantar às forças nacionais. Por exemplo, quando as revoltas e levantes de negros e negras no período monárquico foram substituidas pela Princesa Isabel como protagonista da abolição da escravatura. Ou seja, quando há uma chance de forças nacionais avançarem na luta política, as forças imperialistas adiantam a vitória, porém sem entregar o jogo por completo (no caso, abolindo a escravidão sem qualquer reparação ou inclusão social).

Nessa disputa entre forças imperialistas e forças nacionais, o que foi, então, a chegada do PT ao poder? O básico que precisamos entender é que o PT não tomou o poder, ou seja, não é ele quem governa o país

Mas como assim? Não foram Dilma e Lula os presidentes?

Lembra que disse que o governo é expressão da luta de classes num país? Tanto em 2002, quando Lula foi eleito, quanto em 2014, quando Dilma foi reeleita, a classe trabalhadora não estava organizada ao ponto de ter força para vencer as forças imperialistas. Se assim fosse, a retalação imperialista teria sido muito maior. Por exemplo, poderíamos ter sofrido um novo golpe militar. Se os EUA articularam o golpe de 1964 (acredito que ninguém tenha mais dúvidas disso) quando Jango anunciou a Reforma Agrária, por que não reagiu de maneira semelhante quando Lula, membro do Partido que nasce no mesmo período de lutas que o MST, chega à presidência? É lógico que Lula representava uma ameaça muito menor aos imperialistas!

Mas então como Lula e Dilma venceram as eleições se a classe trabalhadora não tinha força para tal?

Porque, além de o governo ser uma composição de forças, uma coligação também é. No caso de Lula e Dilma, suas campanhas não eram exclusivas do PT, elas contavam também com representantes da burguesia, que garantem até hoje que o governo não rompa com a exploração estrangeira. Essa aliança com a burguesia nos ajuda a entender o porque de os EUA não terem reagido a Lula da mesma maneira que reagiu a Jango - e, é claro, o fato de esse último estar no periodo de Guerra Fria.

Então, se o PT chegou ao poder com ajuda da burguesia, não adianta nada para a classe trabalhadora?

Isso, obviamente, diminui a capacidade de disputa da classe trabalhadora no governo. Afinal, aquele Lula que dirigia as greves dos metalúrgicos e aquela Dilma que lutou contra a ditadura militar passam a ter que negociar com os empresários dos planos de saúde, do agronegócio e dos grandes bancos por uma "migalha". Essa "migalha", por exemplo, é o Bolsa Família, que utiliza apenas 0,45% do PIB, enquanto que 47% continua sendo usado para pagar a dívida externa. Isso mesmo, enquanto a gente acha que o mensalão causou problemas no orçamento do país, precisamos conviver com uma dívida inacabável, imoral e irregular que consome metade do dinheiro do país (20 mensalões por dia, aproximadamente). É quase como se metade do nosso trabalho fosse pra doar dinheiro para meia dúzia de ricos, que detêm essas dívidas.


Apesar de serem "migalhas", é indubitável o resultado positivo do Bolsa Família, das cotas raciais, do Água para Todos, Luz para Todos, Brasil Sorridente e outras políticas públicas vistas durante os períodos em que o PT encabeçou a presidência. Obviamente, essas políticas só podem existir desde que não atrapalhem o enriquecimento das forças imperialistas, ou seja, só vai melhorar o SUS enquanto isso não atrapalhar as clínicas privadas.

O problema, no entanto, é que a conjuntura atual é de Crise Econômica mundial, estrutural e rasteira. Essa crise felizmente foi adiada no Brasil por termos diversificado os parceiros econômicos (passamos a comercializar mais com países ainda não atingidos pela crise, como China, e menos com países já atingidos pela crise, como EUA e Europa). No entanto, a crise chegou na China, chegou nos BRICS e, portanto, chegou aqui. A economia está arrefecendo, e não sejamos ingênuos de achar que Dilma quer que isso aconteça. Ninguém quer.

Ou seja, com a economia diminuindo, algum setor vai ter que ter cortes de gastos, certo? E aí voltamos à velha disputa de classes, que se dá também dentro do governo. Quem vai arcar com a crise é o capital financeiro, que aliás é o causador da crise, ou os trabalhadores? Apesar dos trabalhadores serem maioria e necessários à produção de riquezas, são eles que sofrerão os maiores danos da crise, por justamente (como já falamos) não estarem organizados para fazerem frente ao Imperialismo. Agora dá para entender melhor os cortes nos direitos e benefícios trabalhistas, os problemas com o financiamento do FIES, o corte de 7 bilhões para educação… tudo isso é feito para que as elites, que têm mais força no governo, não precisem “arcar” com a crise.
Não sejamos bestas, pessoal! Não dá para achar que Dilma quer quer as conquistas dos últimos governos do PT sejam jogadas fora! Isso é reflexo de uma crise. Será que não lembramos das manifestações na Europa inteira porque a crise afetou a previdência, a saúde pública e os direitos trabalhistas? Foi a mesma coisa lá, aqui só demorou um pouco mais para chegar. Em tempos de crise, a tolerância do Imperialismo com as “políticas sociais” são muito menores e, seja aqui, na Europa ou nos EUA, são os trabalhadores e as trabalhadoras quem sentem na pele essa crise.
Então, tirar Dilma do poder é a solução? Óbvio que não! Você nem precisa defender o PT para entender que os problemas do Brasil são históricos, que nunca rompemos com os sangue-sugas que nos colonizaram e que, até hoje, ainda ocupamos a posição de economia dependente. Hoje, essa política imperialista não é exatamente a mesma do período colonial. Ela é expressa atualmente pela corrente neoliberal. O neoliberal prevê a desarticulação do Estado com o mercado, permitindo às empresas privadas ocuparem cada poro da vida das pessoas, colocando a lógica no lucro em espaços de garantia da dignidade humana básica, como saúde e educação.
A frente encabeçada pelo PT hoje, chamada de neodesenvolvimentista, não rompe com o neoliberalismo que vivemos brutalmente nos governos de Collor e FHC, mas colocam o desenvolvimento nacional como um dos objetivos do governo. Basta comparar o valor de mercado da Petrobrás e sua produção antes e depois dos governos do PT e perceber que há uma preocupação com o desenvolvimento do país, e esse desenvolvimento depende de empresas estatais! Uma política neoliberal vai totalmente na contra-mão, pois prevê a privatização das empresas. Nos governos FHC, áreas estratégicas da economia e infra-estrutura foram vendidas a preço de banana, como a Light, a Vale do Rio Doce, Embraer, Telebrás, toda a rede de transporte ferroviário, toda a rede de comunicações… tudo foi vendido! Até a Petrobrás teve 40% de suas ações vendidas na década de 90 e chegou a se chamar “Petrobrax”, para facilitar a pronúncia dos gringos. Dá para imaginar estruturar um país se o Estado não tem controle sobre as empresas que fazem o país funcionar? Por isso que, embora a classe trabalhadora e os defensores do desenvolvimento nacional não tenham forças para combater o Imperialismo, ter o PT no poder é melhor do que ter um governo 100% neoliberal.
Agora, vamos tentar formular como tirar o Imperialismo do poder em nosso país. Afinal, como ele se mantem no poder há tanto tempo se, por todos os motivos que expliquei, é o inimigo número um do nosso povo.

Há inúmeras ferramentas de controle do Imperialismo em nosso país, vamos a elas: da maneira como se dá o processo eleitoral nesse país, é impossível que forças políticas nacionais, trabalhadoras e que pensem o desenvolvimento do país estejam no poder. Acredite, dos 600 congressistas e senadores, 240 são empresários e 160 são latifundiários. Qual a chance que uma divisão mais justa da terra tem de passar num congresso como esse? Isso se perpetua porque as eleições são disputadas pelo dinheiro. Uma campanha política que não milhões e milhões de reais envolvidos simplesmente não é vitoriosa

Isso permite, como já dito, que representantes dos planos de saúde, por exemplo, financiem candidatos. Afinal, o candidato, seja ele honesto ou não, PRECISA de dinheiro para sua campanha - é uma imposição cruel do sistema. Como sabemos, ninguém “doa” milhões de reais assim do nada, né? É lógico que a empresa de plano de saúde faz um “investimento”, na verdade. E que inimigo pior de uma plano de saúde do que um sistema de saúde público que funcione da melhor maneira possível? A primeira coisa que o deputado eleito pelo dinheiro dos planos de saúde fará será impedir os avanços do SUS, obviamente! O resultado disso é que, dos 100% de dinheiro público que vai pra saúde, 55% é para a saúde privada! Isso mesmo, dinheiro público é usado para ajudar clínicas privadas. Mesmo que mudemos de presidente, a estrutura do governo é essa, o congresso é o lar de empresários.
Outro importante recurso usado pelo Impearialismo é, como já dito, a grande mídia. Não sejamos bestas, há um motivo para a Globo fazer um show televisivo com a Operação Lava-Jato ou com o Julgamento do Mensalão e não fazer o mesmo com qualquer coisa semelhante envolvendo um outro partido. Menos de dez famílias dominam a comunicação nesse país, ou seja, é um monopólio cruel. Quando nos fazem achar que a regulação da mídia vai contra a liberdade de expressão, eu lhes pergunto, é possível para um jovem negro da periferia se expressar a nível nacional? Mesmo que ele se esforce, será que é possível falar mais alto do que a Globo com esforço individual? Será que novelas racistas como “Da Cor do Pecado” e “Sexo e Suas Negas” devem ser mais veiculados do que a expressão legítima do povo negro?
Então, a solução é qual afinal?
Relaxem, a solução não termina em “defender o PT”. Antes de escolher se vai defendê-lo ou não, espero que tenha conseguido entender que ele não é o problema. E a única razão para que defendê-lo no governo é de que, no contexto atual, trata-se da proposta menos dominada pela lógica neoliberal. Mas eu disse no início do texto que nossos problemas são maiores do que o PT, maiores do que o PSDB, maiores do que a crise econômica… então, serei justo com vocês e dizer que a solução precisa ser tão histórica quanto, e dar um fim nesse inimigo secular: O Imperialismo.
A tática para tal precisa de muita organização de nós, que queremos o desenvolvimento do país, então romper com o Imperialismo não acontecerá enquanto não despertemos a vontade de lutar contra a exploração capitalista em todo o povo. Até lá, a proposta da Constituinte Soberana e Exclusiva do Sistema Político é uma tática interessante para conseguir uma Reforma Política (ou seja, mudar a maneira como a política é feita, não apenas o presidente) e acumular forças para nossa libertação nacional.

RAFAEL NEVES

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

EDITORIAL

Cada vez mais os fatos nos levam a acreditar o quanto são necessários a proliferação e o fortalecimento de todas as mídias, também  deste Blog cuja relevância consiste em revelar questões existenciais e juízos pessoais em relação aos acontecimentos que o mundo produz.

A liberdade de expressar-se é condição necessária para que todo homem se sinta plenamente livre. Portanto, é fundamental que jamais se esgote a necessidade de clamar por ela em todas as suas formas e jamais transigir quando alguma força quiser cerceá-la.

Em esferas mais pessoais, sempre existirá o compromisso com quem o inspirou, ainda que  fisicamente ausente, mas onipresente na vida e nas lembranças de todos que a amam. A marca que Kilma deixou é indelével,  e cada qual sente ao seu modo.

Quem tem alguma sensibilidade e é suscetível às grandes mudanças  não está confortável habitar este planeta. A intolerância recrudesce em todos os lugares, nas formas mais insólitas e improváveis. O valor da vida está banalizado e até as religiões servem de pretexto para separar os homens.

Em qualquer parte do planeta, há alguém morrendo de fome, adoecendo por falta de água potável, por falta de um abrigo contra o frio ou de um remédio que diminua sua dor. Em todos os cantos do mundo, há alguém sofrendo pela indiferença, pela ingratidão, pelo desamor.
Em qualquer parte deste mesmo planeta, alguém desperdiça comida e água, possui muitos abrigos contra o frio, tem acesso a uma medicina avançada e ainda não conheceu a indiferença, a ingratidão ou o desamor. Portanto, não faltam nem faltarão dores e diferenças que agridam e distanciem o homem de outro homem. Continuamos iguais quanto às desigualdades.

Neste contexto sombrio, mas sempre permeado de esperança, se faz necessário o registro de uma pessoa como Kilma, que adorava ouvir “que a vida poderia ser bem melhor”. E acreditava nisto, embora, se estivesse entre nós, sua indignação seria maior que a nossa, assim como a busca dos meios de provar que suas esperanças poderiam ser concretizadas. 

Médica, embreava-se pelo interior da Bahia e, acompanhada por companheiros da área de Saúde, levava remédios, além de sua presença carinhosa e competente, tentando diminuir a dor, o desamparo, a falta de cuidados básicos a que todo ser humano tem direito. A sua generosidade era tão grande quanto ainda é incomensurável nossa admiração que seu precoce desaparecimento recrudesce.

Mas Kilma sorria  e sorria sempre! O branco do seu sorriso em contraste com o eterno carmim do seu batom ofuscava qualquer nuvem de pessimismo que assaltasse seus circunstantes, pois dela só se ouviam palavras de otimismo, carinho e fé. Sua forma cristalina de olhar a vida tinha o poder de fracioná-la em uma linda nuance de cores, como o profundo azul do mar, onde o sol todos os dias  ilumina sua última morada nesta existência.

O VERSO&REVERSO completa seis anos. Tão sem importância é a contagem do tempo da sua existência como igualmente irrelevante medir o tempo em que Kilma se foi. Para alguns poucos pode parecer muito, mas para muitos este tempo não existe, pois ausência é um conceito  indivisível  quando transformado em saudade.

Vale  ainda um registro de gratidão aos leitores e aos  colaboradores deste Blog e, principalmente, à diversidade da vida, que empresta significados às dores do mundo e justifica alguns dos textos que o alimentam

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015


AMIGOS

Conforme prometi aos meus leitores, estou publicando, fora do espaço destinado aos "Comentários" sobre o texto "UM ANO COM ELE", onde descrevo minha convivência com meu neto. 

O BLOGSPOT por questões operacionais que não me dispus esclarecer, nem ninguém que conheço conseguiu decodificar passou a exigir senha e login no GOOGLE, para que os leitores tenham condições de postarem suas opiniões.

Foram tão lúcidos os comentários, que me senti deliciosamente invadida, com a sensação de que todos que leram meus escritos, tiveram o poder de ler minha alma e perceberam o amor que sinto por PEDRO, meu neto, meu sonho.

Em respeito aos meus fiéis leitores, segue abaixo seus carinhosos comentários:

P.S. Rodrigo, meu filho e Eliane, uma amiga querida foram os únicos que conseguiram comentar, daí minha omissão quanto aos seus deliciosos comentários naquela página. 




Alice:
Espero que esteja muito feliz, com o netinho e toda esta família maravilhosa, que tanto nos encanta.
Nós somos mães por natureza. rs
Luciana Marques

Alice, que texto lindo! Livre, leve e solto como deve ser o amor que voce sente por Pedro. Curta amiga, este amor especial que esta criança diferenciada mobiliza em voce, que consegue descrever um sentimento tão importante com tanta simplicidade e beleza.
AMANDA

Amiga, primeiro parabéns por ter voltado a escrever. Segundo, pelo motivo que é para ser descrito, comemorado, cantado em prosas e versos, como você, tão competentemente, faz. Confesso que me emocionei com a emoção que você passa em tudo que escreve. Dá para sentir nas entrelinhas seu amor por esta criança, sua fé na vida e na sua continuidade
Penha Castro

Alice, que bonita a forma como você enxerga seu neto. Me dei o prazer de voltar ao seu texto sobre o nascimento dele, e percebi que a qualidade do afeto e a garantia que ele continuará cada vez mais limpo das "impurezas da existência" como você mesmo escreveu.
Poucas pessoas enxergam esta relação tão cheia de possibilidades e ganhos afetivos para as duas partes. Você terá alguém que ama tanto, quanto ama seu filho próximo a você, contando com seu amor e sua amizade. E êle contará com alguém que o amará com amor imenso sem as cobranças e responsabilidades inerentes a condição materna. Esta forma de relação só acontece com pessoas especiais como você e, como imagino, será seu netinho.
Aparecida Matos

Alice,
Acompanhei através de você a gestação de Pedro. Senti sua ansiedade e a explosão de felicidade no nascimento. Daí em diante foi só encantamento. Este texto revela todo amor que você sente pelo seu netinho, que parece ser uma criaturinha muito especial.
Virginia

Alice, voce é a avó mais amorosa e mais gata que eu conheço
ZEUS

Alice, você é um poço inesgotável de emoções. É assim com seus amigos, com seus filhos, pela forma que fala deles e deve ser uma avó maravilhosa. As palavras deste texto não deixam dúvidas. É emocionante a forma como você se refere a esta criança. Sorte dela, ser tão amada!
Sonia Castro

Oi Alice, que bom que o netinho fez com que voltasse a escrever! Voltou em alto estilo e nunca vi um texto conter tanta ternura. Parabéns por ter alguém que lhe inspire tanto.
Rose

Querida irmã,
Senti cada palavra que você escreveu, pois além de vivenciar esta “felicidade” que o nosso Peu trouxe para a nossa família, imagino a sua felicidade!!!
Viva PEU!!! Este “anjo” que nos presenteou com a sua presença!!
Bjss,
Vovó Bel

Alice,
Este foi um dos textos mais simples e mais bonitos que voce escreveu. Parabéns pelo Pedro e por você possuir um espírito tão cheio de ternura e amor
RICARDO FARIAS

Alice, sua crônica sobre seu neto foi tão emocionante que lembrei da minha avó. Só que ela era uma avó à moda antiga, possuía cabelos brancos e vivia em casa fazendo compotas. Hoje, felizmente, as avós são como você, vitais, jovens e dinâmicas. Assim sua relação com Pedro que começa tão bonita, tem possibilidades de se aprofundar e enriquecer a vida dos dois.

Anônimo

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

UM ANO COM ELE
Sempre foi um sonho. Sabia que muitas etapas teriam que ser cumpridas para que se tornasse realidade; formaturas, noivados, casamentos. Vieram, então as aposentadorias e uma casa quase vazia. Um “script” conhecido e nada original.  Um cenário perfeito onde, somente o frescor de uma criança poderia tornar mais alegre e cheia de nuances as cores da minha vida.
Há um ano, aos vinte e sete dias do mês de dezembro, nascia Pedro, meu neto, meu sonho. Acho que já escrevi neste BLOG, que os sentimentos que invadiram meu coração eram imensos e profundos, mas leves. Como energia limpa, livre das impurezas da existência. Não me dava conta que era protagonista de apenas um capítulo da natureza que se cumpria. Sentia-me imersa num milagre que só merece quem tem méritos nesta ou em outras existências.
Sobre o olhar amoroso de toda a família e para mim, especialmente, Pedro foi crescendo, crescendo e, com apenas um ano de vida, já cravou raízes profundas no meu coração. É como a maioria das crianças, inquieta. Dona de um carisma incontestável, não tem uma pessoa que lhe estenda os braços que ele não aceite o colo. É risonho e chora pouco. A curiosidade é uma das suas mais marcantes características. Ouve tudo e observa todos os detalhes ao seu redor, no chão, nos brinquedos, nas pessoas, até onde seus olhos alcançam. Tem o hábito de encarar as pessoas. Olha-as, demoradamente,  nos  olhos. Quando os meus encontram os seus, me perco tentando imaginar as interrogações, as exclamações e os sonhos que moram nos olhos de Pedro. 
 A terça feira me veste de criança, me despe de cremes, hidratantes e perfumes e, com meu neto, reaprendo a brincar. No quarto onde o tatame colorido alegra o cenário, no qual, juntos nos divertimos, já sou intima do seu ursinho bilíngüe, o Ted e sei da sua predileção por um antigo móbile onde um pássaro chilreia o “Noturno de Choppin”, fazendo-o sorrir aquele “sorriso de rosto inteiro”. Sim, porque Pedro sorri com os olhos, bochechas e, por enquanto, com os quatro dentinhos que enfeitam suas gengivas que se preparam, a espera dos outros “companheirinhos.
Sentada no chão, na quina do armário para protegê-lo de acidentes, contemplo com a calma e com a solenidade que o momento requer o desenvolvimento do seu equilíbrio, as modificações da sua fisionomia, o enriquecimento das suas linguagens, as mudanças do seu olhar quando sabe que está fazendo algo proibido ou no seu sorriso, quando sua determinação o faz alcançar algo que lhe parecia impossível. Assalta-me um ingênuo desejo de congelar o tempo, que transmuta os momentos em simples lembranças. Sinto uma saudade antecipada desta fase, onde cada vitória de Pedro, por menor que seja é sempre compartilhada. Ah! Se eu pudesse perpetuar a inocência do meu neto, mantendo-o inocente e longe da maldade dos homens!
Não escapa a minha percepção quando o quarto de brinquedos já o satura e é chegada a hora de Pedro olhar, através da janela, João e Malu, seus amiguinhos, brincando no “playground”ou as luzes dos carros no lusco fusco do entardecer. Ele gosta de ver o mundo, ainda uma montagem incompreensível, mas fascinante que, aos poucos, vai fazendo sentido.
Logo que escurece seus olhinhos não desgrudam da porta da entrada esperando “mamã”, única criatura capaz de devolver-lhe a vivacidade e a energia.
Há um ano Pedro está na minha vida. Logo que seu retrato foi emoldurado pelo porta-retrato que passou a morar no meu criado mudo, todas as manhãs nos olhamos, e dele tiro forças para levantar e enfrentar mais um dia, a estranheza deste planeta que Pedro encara com um irrefutável senso de humor, parte do seu jeitinho de ser e que encanta a todos que o conhecem.

ALICE ROSSINI

quinta-feira, 8 de maio de 2014

FRAGMENTOS DE UMA VIDA

Há 57 anos, em todos os seis de maio havia uma comemoração, o aniversário de Luis Augusto Timbó, Luca, para os íntimos. Ontem, sua esposa sentou-se à beira da cama e cantou “Parabéns pra você!” em sua homenagem.

Esta cena seria a alegre se, nesta repetição de mais de trinta anos em que o casal Luca e Lourdinha estiveram juntos, a cama não estivesse num quarto de Hospital e, em vez do sorriso disfarçado ou alguma observação carregada de um senso de humor peculiar, ela não tivesse percebido sua dificuldade para respirar.

Luiz Augusto era engenheiro e empresário. Dos bons. A competência e o raciocínio lógico foram sua marca registrada. Luca viveu a exata metade do dia seis. Morreu, pontualmente às doze horas.

Toda sua vida foi marcada pelo trabalho ético, honesto e competente, pela intensidade nas relações, pela franqueza rara e desconcertante, pela inquietação, característica natural em mentes brilhantes. Direto no trato com os amigos, os que não se incomodavam com as idiossincrasias do seu estilo, gostavam dele e entendiam que, debaixo daquele olhar perscrutador e uma postura sempre em alerta, morava um ser humano que amava a família, o mar e a aventura.  Os que não gostavam ou não possuíam a sensibilidade de percebê-lo, acho que sua sabedoria dizia-lhe que não se incomodasse, afinal, Luca sabia que ninguém possui a prerrogativa da unanimidade.

Era capaz de surpreender até sua companheira de toda a vida. Entretanto, quando sorria ou quando vociferava contra tudo que achava errado ou fugia ao seu controle, o fazia com uma verdade tão contundente que, para muitos, faltavam argumentos para contradizê-lo.

A criança que morava dentro dele adorava filmes de super heróis.  Admirava o Homem Aranha e “acreditava” na fantasia que o Super Homem nasceu da explosão de uma criptonita.

Infelizmente, Luca morreu exatamente na data que nasceu tal a vontade que tinha de fazer as coisas certas, de não deixar nada inconcluso. Só sentia-se à vontade de percorrer o caminho que achava correto e que não o surpreendesse a ponto de mudar sua rota, desviando-o para atalhos ou estradas alternativas.

Personalidade forte e presença marcante para todos que o conheceram.  Será sempre uma ausência sentida, principalmente para sua esposa, pais, irmãos, filhos, genro, amigos e familiares e a convivência, cruelmente interrompida, com seu primeiro neto, o pequeno Pedro.

Este imenso vazio que deixou em nossos corações, talvez tenha sido a única falha na sua rara capacidade de prever o imprevisível, independente da exatidão da data e da hora que “escolheu” para decretar por concluída sua breve, mas intensa existência.

Doze horas do dia seis de maio será, sempre, para quem o ama o momento da vacuidade, da lacuna e da saudade.

ALICE ROSSINI
        
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O COMETA LUCA

Falar de Luca é difícil e fácil. Difícil porque a tristeza gerada por sua ausência acaba embargando a voz e embaralhando os pensamentos. Fácil porque Luca foi e sempre será um jantar para 400 talheres.         Atitudes  polêmicas, frases marcantes,  amigo e inimigo fiel, pai presente, marido apaixonado, chefe competente, perfeccionista, exigente, entre outras qualidades e defeitos.

Há 57 anos, no dia 6 de maio, nasceu em Salvador. Nasceu, cresceu, formou-se engenheiro, casou-se com o grande amor de sua vida, formou família com dois filhos, tornou-se executivo e, por fim, empresário do ramo de seguros. Empresário muito bem sucedido. Ainda fez, como ultima tarefa, a transferência da empresa para seus dois filhos. Após 57 anos, no mesmo dia 6 de maio, morreu.

Tudo em Luca foi fora dos padrões. Se ele gostava de barco, sua lancha  tinha que ser especial.Se resolvia andar de jeep teria que estar entre os tops. Previa os riscos de sua vida com uma excelência impressionante. Queria, e conseguia, andar sempre dois passos a frente dos outros. Adorava superlativar posições.  Não era homem de média. Por isso mesmo  sempre achei que  a   frase ame-o ou deixe-o bem que poderia ter sido formulada para ele.

Luca tinha uma qualidade que me chamava a atenção. Ele sabia escutar. Sabia tirar proveito de tudo que ouvia. Tinha consciência de que nunca se sabe tudo. Em uma única noite ele navegava entre  atitudes  ranzinzas, radicais, a posturas simpáticas, liberais, humildes, inteligentes e engraçadas.

Por terem personalidades parecidas, gostava de brincar de brigar com Alice, que era carinhosamente tratada por ele como Tia Alice. Pareciam  gato e rato. Viviam as turras. Mas não dispensava um final de semana em nossa companhia. A ultima vez que saímos para o mar, ele providenciou com antecedência, asinhas para segurança de Tia Alice. Era sua maneira de demonstrar carinho.



Durante um bom  tempo usamos as noite de quinta feira para jantarmos juntos. Nossos encontros a quatro eram sempre no Bahia Marina. Ríamos sem parar. Atualizávamos nossos assuntos, comíamos e bebíamos do bom e do melhor. Claro, era sempre uma luta conseguir  com o maitre que a cebola fosse retirada dos temperos de sua escolha. Mesmo assim, quando o prato chegava ele dava uma vasculhada para conferir se sua exigência tinha sido respeitada. E quando encontrava qualquer  indício do tubérculo maldito amuava e desistia de comer. Nada o demovia desta atitude infantil. Já sabíamos. Mas também não permitíamos que o resto da noite fosse azedado pela presença da cebola. Normalmente só saíamos do restaurante com os garçons colocando as cadeiras em cima das mesas. E saíamos sempre as gargalhadas. Ah saudade....Pois é  Luca. Você é uma das saudades que, com certeza, gostaremos de ter.

MARCO ROSSINI



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

EDITORIAL

 
Cinco anos se passaram. Aparentemente, quase tudo continua igual, embora, saibamos que não está, porque impossível. É assim a vida, a cada milésimo de segundo, tudo muda. A transformação é contínua, inexorável.
 
O espaço de tempo onde existimos fez com que muitos de nós ganhássemos experiência, entretanto, a maioria vive em superfícies tranquilas e seguras, e nem sabe o que fazer com ela. Outros aproveitaram a oportunidade, procuraram entendê-la e tornaram-se pessoas melhores. Algumas amarguraram e perderam-se, inclusive, de si mesmas.
 
Conquistamos e perdemos pessoas e coisas. Muitas, apenas, nos visitaram e se foram sem deixar marcas. Felizmente, grande parte delas continua e estão, delicadamente, hospedadas em importantes escaninhos das nossas emoções. Indiferentes, importantes pilares que nos ratificavam ruíram, impedindo que fôssemos o que pretendíamos ser. Mal sabemos como desmoronaram.
 
Ganhar, perder, sorrir, chorar, agradecer. Ignorar o bem que recebemos ou re significar os maus momentos como necessários e importantes testes para nossa capacidade de enfrentar as armadilhas da vida. A sabedoria em reconhecer a legitimidade do ciclo inerente à existência, nascer, crescer, morrer, pois, assim ela está organizada e nada podemos fazer para que aconteça de outra forma. Inverter a ordem natural.
 
Nosso único poder repousa sobre nós mesmos, reciclando nossas infinitas formas de enxergá-la, enquanto tentamos entendê-la. Um dos objetivos pessoais do ser humano poderia ser o de buscar a flexibilidade sem, entretanto, perder princípios. Arigidez pode ser fatal para a evolução, para a simplicidade, para a humildade, para mudanças que melhorariam as relações entre as pessoas, e entre elas e o Planeta.
 
Reitero que este BLOG nasceu motivado por uma grande saudade. Um vazio cheio de motivos, histórias, significados, perguntas sem respostas, conteúdos de paz, melancolia e uma perda que a fé de muitos, nos faz acreditar que um dia reencontraremos quem perdemos. Alguém que possuía as retinas sintonizadas com tudo que a vida tem de bom, nossa inesquecível KILMA.
 
Mais uma vez se faça um singelo registro de uma data que se alimenta tanto pela existência, quanto pela falta. Os cinco anos deste BLOG, cujos motivos e motivações sempre serão associados à vida e à alegria de alguém, que sempre tentava enxergar com simplicidade e amorosa leveza, a complexidade e a importância dos compromissos que justificaram e tornaram exemplar sua breve existência. Porque, além de simples e despretensiosa, sua determinação em privilegiar o exercício do bem, fez com que nunca desistisse de lutar e, jamais, transigir.
 
Entretanto, muitos foram presenteados com pontos de luz, onde puderam depositar o estoque de amor e aceitação que existe em cada um. Ainda foram criadas novas e consistentes possibilidades de momentos felizes, da mesma forma que nossos impulsos destruíram pontes e inviabilizaram caminhos que nos ligavam a verdadeiros afetos.
 
As crianças estão crescendo, outras a violência tem levado cruel e prematuramente, e muitas ainda virão. As árvores, a cada ventania, tiveram suas folhas renovadas, assim como flores brotam a cada primavera. Um lado do planeta esteve mais frio, outro mais quente. A vida manifestando-se independente e ferida mostra seu lado perverso. Com a incompreensão do homem, novas guerras eclodiram, enquanto, outras continuam teimosas e inúteis. Alguns preconceitos foram discutidos, muitos de nós assumimos novos conceitos, outros, entretanto, os recrudesceram. Aconteceram muitas paixões, muitos desamores e outros tantos, ratificados pelo tempo de compreensão e paciência.
 
Enfim, por que não fazer como Clarice Lispector, numa das visitas à própria lucidez?: “Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”
 
Embora, cada momento seja diferente do anterior e o futuro uma incógnita, o que se mantém constante são as saudades e algumas inconstantes razões, para que este BLOG continue a existir.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

PEDRO, MEU NETO


Você não imagina as infinitas formas, por mim sonhadas, de como aconteceria o nosso primeiro encontro. Nem como muda a noção de tempo quando sabemos que, em outro sagrado ventre, está sendo gestado o filho do seu filho. O caminho entre a excitante expectativa do plantio, até a euforia da colheita, passa por uma espera povoada pelo desejo de que o fruto seja suculento, porque o precedeu, o milagre da flor, na qual, foram depositados fragmentos de vida que completam o encanto de tudo que amadurece naturalmente. Nesta árvore o fruto prescinde de seleção, porque gerado sob o signo do amor e da aceitação. A existência só acontece porque nada se fecha. Há vontades, desejos, completude. Mãos que se entrelaçam, cuidam, amparam, recebem, acariciam.
No espaço, onde me aliei ao tempo, construí um calendário virtual no qual, amorosamente, registrei o desenvolvimento do seu corpo material e, nas tentativas de transcendência para planos superiores desejei o aperfeiçoamento do seu corpo sutil e do seu equilibrio emocional. Ouvi o “tum tum” do seu coraçãozinho batendo, quase no mesmo compasso do meu, quando a emoção me pega “de jeito”. Contei seus dedinhos e, embevecida, contemplava suas perninhas em formação, que vão me fazer correr pelas praças da vida, quando sua vitalidade infantil alimentará minha vontade de continuar por aqui. Enquanto isto, me preparo para responder os “porquês”, produzidos pela sua imaginação e curiosidade. Mais tarde, levado pelas descobertas, ultrapassará as misteriosas portas da adolescência, correrei, então, atrás dos seus pensamentos, tantas vezes desordenados e sempre cheios de dúvidas irrespondíveis.

Pois é, Pedro foi nos braços do seu pai que o vi pela primeira vez, igual a quase todas as avós. Entretanto, a emoção que senti foi completamente diferente da que imaginei. Desigual, tanto nas subjetividades, quanto na substância, a qualquer uma que já vivenciei em toda minha vida. Uma sensação inigualável conseguiu emoldurar o quadro, no qual, coberto pelos aparatos cirúrgicos vi as mãos que lhe seguravam com a delicadeza firme de quem tenta reter uma nuvem que, a qualquer momento, poderia evaporar ou como quem carrega uma peça de cristal puríssimo e frágil.

Reconheci no olhar do meu filho um brilho quase infantil, que passeava entre o sonho e a crença, diante de um milagre que se apresentava com a força da realidade. Confesso, meu querido, que meu raciocinio, diante daquele momento indizível, indicava que, enquanto seu pai lhe carregava, você carregava seu pai e os dois sustentavam a leveza do imenso amor que me invadia e que possuía o peso do sentido de toda minha vida.

Naquela sala, que reunia olhares ansiosos, havia outros avós, mas somente um olhar, entre mãe e filho formava uma corrente, não importando quanto fugaz me pareceram aqueles minutos e quão desnecessário o vidro que, ao invés de nos separar, aproximava-nos, dando significados àquele momento. Seus olhos abertos pareciam procurar os detalhes desorganizados naquele pequeno mundo recém - apresentado.

Enquanto isto, já vigilante, eu pensava: “Você é Pedro, nome que significa pedra. Um diamante garimpado ao longo da vida para ser burilado com o esmeril do amor, do comprometimento e da responsabilidade, para possuir luz própria". Brilho que iluminará os caminhos onde outras pedras existirão. Muitas delas servirão de alicerce para sua vida, algumas serão observadas para evitar que lhe impeçam de caminhar, outras continuarão, pois, tropeçando aprenderá a defender-se das próximas. Quanto às mais perigosas, rezarei aos deuses da Sabedoria para que as supere e aos da Bondade, que lhe ajudem a estar atento, separando as que terá que carregar e evitar as que lhe machuquem mais que o necessário, somente o suficiente para que você seja uma pessoa generosa, humilde e serena.

Como, ainda, não sabe como “funcionam” os avós, adianto-lhe a certeza que lhe ajudarei, sempre, a tornar seus caminhos mais amenos. Se este mundo fosse meu, “eu mandava, eu mandava ladrilhar, com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante, só pra ver, só pra ver Pedrinho passar”...

Sabe Pedro, vovó um dia foi neta, a primeira, como você. Breve entenderá o poder desta corrente amorosa que liga as pessoas. Você tem o privilégio de possuir quatro avós, uma bisavó e dois bisavôs. Sua corrente, além de forte, é longa. Minha história foi marcada pelo privilégio de ter uma avó que me aguardava nas férias com uma coleção de bonecas de pano “fabricadas” por ela, e um cesto onde colecionava pequenos retalhos coloridos, para cobri-las de lindos vestidos. À luz de um candeeiro que desenhava sombras nas paredes, minha cabeça sonolenta acomodava-se no aconchego do seu colo, onde todos os dias me ninavam as mesmas histórias, povoadas de fadas, monstros, lobos e outros seres encantados. Tudo pura imaginação, convivendo com momentos que tomavam as formas da verdade. O som do ranger das pesadas rodas de madeira, de carros arrastados por bois, que vendiam leite nas portas centenárias das casas de portas e janelas verdes e paredes brancas de uma cidade que, um dia, o levarei para conhecer.

Lá, sinos convocavam pessoas para a Missa do Galo, jeito mágico, como há muitos anos, celebrávamos o Natal. Estes sons retive-os nas lembranças e, até hoje, me levam àqueles momentos onde aconchego, disciplina e simplicidade formavam a equação que foram sedmentando, nas poucas certezas que ainda tenho, a necessidade e o direito de amar e sentir-se amado.

Ainda neta, fui mãe e devolvi ao seu pai o privilégio “daquela” figura mágica e lúdica, em versões contemporâneas, mas com os mesmos exageros na quantidade e na qualidade de amor adocicado, que só as avós possuem. Vó Ariadne e vó Lucia servirão de inspiração para que consiga enfeitar seu existir de sonho e fantasia. Através de seus exemplos, tentarei ser doce e moderna, esforçando-me, com vovó Eliete, a ensinar sua imaginação a bater asas para além do óbvio, onde o infinito é o limite do vôo, encorajando-lhe à inquietar-se diante dos mistérios da vida, a nunca abrir mão de ser livre e jamais ficar indiferente diante de uma injustiça. Procurarei ser carinhosa na infância, acolhedora na adolescência e testemunha participativa nas circunstâncias que a vida o obrigará a enfrentar.

Hoje, lhe recebendo em minha vida, filho do meu filho, meu neto esperado desde sempre, meu sonho sonhado através de vivências felizes, que me fizeram perceber a importância da harmoniosa convivência entre aqueles retalhos coloridos que o tempo reuniu em reminiscências inesquecíveis, ensinaram-me que certos amores não têm começo nem fim, simplesmente existem.

Por hora, me situo entre a fantasia e a realidade, vivendo esta experiência onde se reaprende a importância dos detalhes, dos cheiros, dos sons. Sinto as sensações de cada minuto que desfila na minha frente, lenta e atentamente, despido daquela pressa “boba” da juventude quando olha para as interrogações do futuro. Este papel é de mãe e pai. À sua mãe, matriz que tornou meu sonho realidade, minha eterna gratidão e o meu mais profundo afeto.

Avós, ao contrário, vivem todas as sérias tolices do presente. Embora falante, meu espírito recolheu-se a um silêncio contemplativo, aprendendo que a vida acontece a cada segundo em que a construímos e que, coração não tem tamanho. Quanto mais vive, mais aprende a amar.

P.S. Este texto só foi totalmente concebido, no dia 27 de janeiro, quando Pedro completou 1 mes de vida.

ALICE ROSSINI