Recebi de um amigo, um texto de Zélia Gattai intitulado “Homem Maduro”. Lindo! Fiquei emocionada e pensativa.
Imagino que, para escrever texto tão belo, a escritora deve ter-se inspirado no seu adorado Jorge. Embora tivesse, como eu, a mesma forma de sentir e perceber o sexo oposto, prefiro aguçar meu olhar e falar de homens de forma mais generalizada; os maduros e os jovens, os amadurecidos e os imaturos, os equilibrados e insatisfeitos, os desequilibrados e satisfeitos, tantos quantos hajam por aí.
Existem exemplares que se encaixam em todas as classificações e não pretendo, aqui, esgotá-las. Calma! Reconheço que o universo de perfis femininos é bem mais complexo e de uma variedade desconcertante. Para muitos, desanimadora.
Voltando aos homens maduros a que Zélia referiu-se, são sim, charmosos e experientes em vários aspectos. Por terem vivido décadas tão marcantes para a humanidade guardam resquícios deste tempo. O romantismo, a conquista, o sofrimento, a luta por ideais que, certamente, fizeram deles homens maduros e mais densos que provavelmente serão os homens maduros das próximas gerações.
E por falar em gerações, pensar no homem como maduro, não quer dizer que também falo do homem amadurecido. Não quero correr o risco, repito, de restringir o universo das minhas elucubrações, já que convivo com homens de todas as idades.
Assim, percebo que é ainda muito jovem que o homem maduro perde a consciência do seu processo de amadurecimento e não percebe o quanto poderia sentir-se especial e sedutor.
Os padrões estéticos atuais também os esmagam. Os obrigam a violentarem seus organismos, modificando biotipos, mudando a simetria e a harmonia de seus corpos. Isto seria justificado se este padrão fosse ao encontro de expectativas femininas. Mas, não é isto que vejo e ouço. Mulheres não se encantam por montanhas de músculos. Mulheres gostam de músculos e cabeças definidas com equilíbrio e harmonia.
Então, o que os motiva a carregar “toneladas” de ferro? Aí é que as duas pontas da questão se encontram: o homem jovem ao hipertrofiar seus músculos tenta perenizar os símbolos de virilidade e força próprias da masculinidade. O homem maduro, não se enxerga sedutor e cheio de encantos, porque já não pode sustentar aqueles simbolos que o jovem, tola e inutilmente busca.
E neste tumulto existencial, centrando-se numa simbologia tão inconstante quanto passageira, a grande maioria deixa de construir vínculos mais profundos com a vida, cujos pilares mais consistentes os sustentarão e os adensarão quando maduros.
Entramos, então, nós mulheres, como fator complicador, quando não, coadjuvantes nesta busca e insatisfação insanas. Não abrindo mão do pesado estereótipo de “predador” o homem deixa de lado os encantos e os encantamentos inerentes a cada fase da sua vida, eternizando uma postura belicosa e de superioridade em relação às mulheres, cuja trégua só ocorre na cama.
Ao afastarmo-nos um do outro enfraquecemos o casal que, em alguns casos, ainda mantêm-se refém daquele que morava nas cavernas, com papeis rígidos e definidos, direitos desiguais e nenhum espaço comum. Sem contar o alheamento quanto aos respectivos universos, com suas peculiaridades, riquezas, dificuldades e questões que poderiam ser compartilhadas e resolvidas de forma solidária e madura.
Daí porque me nego a rotular homens em maduros ou jovens. Um, a origem, outro, a conseqüência e seus desdobramentos: de um lado virilidade e saúde perdendo-se em espelhos e halteres ou na busca desenfreada pelo “sucesso” a qualquer custo. Do outro, medo enchendo cabeças cobertas de charmosos fios grisalhos, angústia nublando olhos perspicazes, argutos e fascinantes e acelerando corações que emoções agradáveis os tonificariam, em vez de fragilizá-los. Suores de ansiedade molhando mãos construtoras, calejadas de luta, mas capazes de carícias e força para segurar o essencial da vida.
ALICE ROSSINI