o cotidiano e suas contradições, descrito e compartilhado - Blog inaugurado em 18 de fevereiro de 2 009 - ANO VIII
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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
QUANDO A VIDA NÃO VALE NADA
Esta semana, aquela senhora, empregada doméstica da minha vizinha, teve seu único filho morto. Foi lá no morro. Deram-lhe oito tiros. Assim, como quem mata um animal. Simplesmente dispararam e o deixaram estendido na lama do caminho.
O rapaz tinha vinte e dois anos, vivia com uma moça da sua idade e já tinham um filho de um ano e meio. Trabalhava de segunda a sábado, 12 horas por dia, e pensava mudar-se do morro porque várias vezes haviam tentado roubar-lhe a moto, sua única propriedade.
À sua mãe disseram que o filho estava desaparecido há três dias. Ela e outros familiares percorreram hospitais com a esperança de encontrá-lo, por acharem ter sofrido algum acidente de trânsito. Nada. Alguém, então, decidiu ir ao Instituto Médico Legal. Lá o encontraram.
Avisaram à mãe e, depois do reconhecimento, entregaram-lhe o cadáver.
O velório foi horrível. Familiares e amigos se cotizaram para pagar o funeral. Cinco mil reais para ter o direito a um funeral decente. Digno de quem trabalhava e não era bandido. Senão, seria enterrado como indigente. Não há onde sepultar um filho que jaz sem alma, junto à alma de uma mãe despedaçada pela dor. Cinco mil ou nada.
Não há culpados. Nada se sabe. Penso que nunca se saberá. Aquele jovem transformou-se numa pasta a mais no arquivo criminal de algum organismo do Estado, que em alguns meses estará coberta com o pó do esquecimento e da impunidade. Caso encerrado.
Só se sabe do caminho tingido de sangue, da mancha na lama da subida do morro. Lama manchada com a vida de mais um. A chuva se encarregará de fazer desaparecer esta última lembrança. Mais uma saudade naqueles que sobreviveram. Fim da história.
No começo da próxima semana, novas histórias serão escritas com o sangue de mortes provocadas por balas, facadas, roubos, sequestros, assaltos. Mais terríveis que as mortes, são os deflagradores das tragédias. Realidades transformadas em contos de terror. Terrível o sofrimento e a dor de quem sobrevive à cruel realidade.
Pior ainda é acostumar-se a todos esses fatos e viver tendo consciência que não há quem faça algo para solucionar a situação que nos rodeia, que destrói nossos nervos e compromete nossa estabilidade.
Estou convencido que, atualmente, a maior prioridade do brasileiro comum, é viver em paz. Provavelmente uma casa melhor, transporte próprio, educar os filhos. Tudo isto, antecedido pela paz.
Não, imagino que o desejo resumiria algo mais básico, mais instintivo, mais primitivo: viver! E viver envolve planos, estudar, trabalhar, apaixonar-se, ter filhos, ter um teto próprio, divertir-se, conviver com amigos, fazer o que quer, quando quer e como quer. Mas, em paz! Não no meio de uma guerra permitida.
Penso que não há nada pior que viver com a angústia de quem vive num país em guerra. Só que, numa guerra declarada aponta-se o alvo e lança-se uma bomba para destruir o inimigo. No nosso país, parece que somos todos inimigos. A guerra é contra quem caminha pela rua, vai trabalhar, fala no celular, pega o ônibus, dorme ou vê televisão em sua casa. A guerra é nos dias de semana, nos fins de semana, nos dias de festa. A guerra é à noite e durante o dia. A guerra é sempre. A morte é sempre. E as ruas se inundam de lágrimas e de raiva. E não se faz nada. O certo é que o Governo não faz nada.
O certo é que nos ensinam que a vida não vale nada!
FERNANDO TROVADOR, sim, mas triste, muito triste!
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
HOMENS
Recebi de um amigo, um texto de Zélia Gattai intitulado “Homem Maduro”. Lindo! Fiquei emocionada e pensativa.
Imagino que, para escrever texto tão belo, a escritora deve ter-se inspirado no seu adorado Jorge. Embora tivesse, como eu, a mesma forma de sentir e perceber o sexo oposto, prefiro aguçar meu olhar e falar de homens de forma mais generalizada; os maduros e os jovens, os amadurecidos e os imaturos, os equilibrados e insatisfeitos, os desequilibrados e satisfeitos, tantos quantos hajam por aí.
Existem exemplares que se encaixam em todas as classificações e não pretendo, aqui, esgotá-las. Calma! Reconheço que o universo de perfis femininos é bem mais complexo e de uma variedade desconcertante. Para muitos, desanimadora.
Voltando aos homens maduros a que Zélia referiu-se, são sim, charmosos e experientes em vários aspectos. Por terem vivido décadas tão marcantes para a humanidade guardam resquícios deste tempo. O romantismo, a conquista, o sofrimento, a luta por ideais que, certamente, fizeram deles homens maduros e mais densos que provavelmente serão os homens maduros das próximas gerações.
E por falar em gerações, pensar no homem como maduro, não quer dizer que também falo do homem amadurecido. Não quero correr o risco, repito, de restringir o universo das minhas elucubrações, já que convivo com homens de todas as idades.
Assim, percebo que é ainda muito jovem que o homem maduro perde a consciência do seu processo de amadurecimento e não percebe o quanto poderia sentir-se especial e sedutor.
Os padrões estéticos atuais também os esmagam. Os obrigam a violentarem seus organismos, modificando biotipos, mudando a simetria e a harmonia de seus corpos. Isto seria justificado se este padrão fosse ao encontro de expectativas femininas. Mas, não é isto que vejo e ouço. Mulheres não se encantam por montanhas de músculos. Mulheres gostam de músculos e cabeças definidas com equilíbrio e harmonia.
Então, o que os motiva a carregar “toneladas” de ferro? Aí é que as duas pontas da questão se encontram: o homem jovem ao hipertrofiar seus músculos tenta perenizar os símbolos de virilidade e força próprias da masculinidade. O homem maduro, não se enxerga sedutor e cheio de encantos, porque já não pode sustentar aqueles simbolos que o jovem, tola e inutilmente busca.
E neste tumulto existencial, centrando-se numa simbologia tão inconstante quanto passageira, a grande maioria deixa de construir vínculos mais profundos com a vida, cujos pilares mais consistentes os sustentarão e os adensarão quando maduros.
Entramos, então, nós mulheres, como fator complicador, quando não, coadjuvantes nesta busca e insatisfação insanas. Não abrindo mão do pesado estereótipo de “predador” o homem deixa de lado os encantos e os encantamentos inerentes a cada fase da sua vida, eternizando uma postura belicosa e de superioridade em relação às mulheres, cuja trégua só ocorre na cama.
Ao afastarmo-nos um do outro enfraquecemos o casal que, em alguns casos, ainda mantêm-se refém daquele que morava nas cavernas, com papeis rígidos e definidos, direitos desiguais e nenhum espaço comum. Sem contar o alheamento quanto aos respectivos universos, com suas peculiaridades, riquezas, dificuldades e questões que poderiam ser compartilhadas e resolvidas de forma solidária e madura.
Daí porque me nego a rotular homens em maduros ou jovens. Um, a origem, outro, a conseqüência e seus desdobramentos: de um lado virilidade e saúde perdendo-se em espelhos e halteres ou na busca desenfreada pelo “sucesso” a qualquer custo. Do outro, medo enchendo cabeças cobertas de charmosos fios grisalhos, angústia nublando olhos perspicazes, argutos e fascinantes e acelerando corações que emoções agradáveis os tonificariam, em vez de fragilizá-los. Suores de ansiedade molhando mãos construtoras, calejadas de luta, mas capazes de carícias e força para segurar o essencial da vida.
ALICE ROSSINI
Imagino que, para escrever texto tão belo, a escritora deve ter-se inspirado no seu adorado Jorge. Embora tivesse, como eu, a mesma forma de sentir e perceber o sexo oposto, prefiro aguçar meu olhar e falar de homens de forma mais generalizada; os maduros e os jovens, os amadurecidos e os imaturos, os equilibrados e insatisfeitos, os desequilibrados e satisfeitos, tantos quantos hajam por aí.
Existem exemplares que se encaixam em todas as classificações e não pretendo, aqui, esgotá-las. Calma! Reconheço que o universo de perfis femininos é bem mais complexo e de uma variedade desconcertante. Para muitos, desanimadora.
Voltando aos homens maduros a que Zélia referiu-se, são sim, charmosos e experientes em vários aspectos. Por terem vivido décadas tão marcantes para a humanidade guardam resquícios deste tempo. O romantismo, a conquista, o sofrimento, a luta por ideais que, certamente, fizeram deles homens maduros e mais densos que provavelmente serão os homens maduros das próximas gerações.
E por falar em gerações, pensar no homem como maduro, não quer dizer que também falo do homem amadurecido. Não quero correr o risco, repito, de restringir o universo das minhas elucubrações, já que convivo com homens de todas as idades.
Assim, percebo que é ainda muito jovem que o homem maduro perde a consciência do seu processo de amadurecimento e não percebe o quanto poderia sentir-se especial e sedutor.
Os padrões estéticos atuais também os esmagam. Os obrigam a violentarem seus organismos, modificando biotipos, mudando a simetria e a harmonia de seus corpos. Isto seria justificado se este padrão fosse ao encontro de expectativas femininas. Mas, não é isto que vejo e ouço. Mulheres não se encantam por montanhas de músculos. Mulheres gostam de músculos e cabeças definidas com equilíbrio e harmonia.
Então, o que os motiva a carregar “toneladas” de ferro? Aí é que as duas pontas da questão se encontram: o homem jovem ao hipertrofiar seus músculos tenta perenizar os símbolos de virilidade e força próprias da masculinidade. O homem maduro, não se enxerga sedutor e cheio de encantos, porque já não pode sustentar aqueles simbolos que o jovem, tola e inutilmente busca.
E neste tumulto existencial, centrando-se numa simbologia tão inconstante quanto passageira, a grande maioria deixa de construir vínculos mais profundos com a vida, cujos pilares mais consistentes os sustentarão e os adensarão quando maduros.
Entramos, então, nós mulheres, como fator complicador, quando não, coadjuvantes nesta busca e insatisfação insanas. Não abrindo mão do pesado estereótipo de “predador” o homem deixa de lado os encantos e os encantamentos inerentes a cada fase da sua vida, eternizando uma postura belicosa e de superioridade em relação às mulheres, cuja trégua só ocorre na cama.
Ao afastarmo-nos um do outro enfraquecemos o casal que, em alguns casos, ainda mantêm-se refém daquele que morava nas cavernas, com papeis rígidos e definidos, direitos desiguais e nenhum espaço comum. Sem contar o alheamento quanto aos respectivos universos, com suas peculiaridades, riquezas, dificuldades e questões que poderiam ser compartilhadas e resolvidas de forma solidária e madura.
Daí porque me nego a rotular homens em maduros ou jovens. Um, a origem, outro, a conseqüência e seus desdobramentos: de um lado virilidade e saúde perdendo-se em espelhos e halteres ou na busca desenfreada pelo “sucesso” a qualquer custo. Do outro, medo enchendo cabeças cobertas de charmosos fios grisalhos, angústia nublando olhos perspicazes, argutos e fascinantes e acelerando corações que emoções agradáveis os tonificariam, em vez de fragilizá-los. Suores de ansiedade molhando mãos construtoras, calejadas de luta, mas capazes de carícias e força para segurar o essencial da vida.
ALICE ROSSINI
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