sábado, 10 de setembro de 2011

AMADURECIMENTO

É invisível, porém doloroso, o penetrar da flecha. Mas pior ainda se faz a tentativa abrupta de retirar a flecha há tanto tempo em mim alojada. O puxão fora forte, levara consigo a flecha irmã, mas não o bastante para retirar a minha. Sozinha eu meu peito e incapaz de respirar sem a existência mútua de sua gêmea, só lhe resta o apodrecimento. Fenômeno que iguala até mesmo a mais impecável das princesas a um indigente qualquer. Da mesma forma que doces finos entram pela boca para se verem fétidos numa latrina suja.

Mas a decomposição não degenera a flecha, antes tão viva, sozinha. Esta atrai outros males para terminar o sujo serviço, que vão se espalhando pelo corpo e deteriorando o que sobrou de meu espírito. O que antes fora uma paixão louca e inconseqüente, fulminante e despretensiosa, é reduzida a um resquício de dignidade engolido pela mágoa. Soterrado pela vontade de que tudo não passe de um sonho, entregue ao desejo de que a ilusão não caia em desilusão.

O punho soca o chão, segurando entre os dedos o pingente que guarda tantas recordações. A pele se desprende do corpo habitado por uma alma em desequilibro. Cada pancada de arrependimento no solo duro reverbera sobre receptáculo de um coração despedaçado. Embora a vontade seja de destruir o tal pingente, os dedos estão fechados. O impacto é absorvido pela pele, que já fora prova viva de uma alma harmônica, mas que agora desaba sobre si própria a cada soco.
Transpassada pelas agulhas do sofrimento, a alma se encolhe. Procura entre os cantos do ser um refúgio, mal sabendo que encontra-se em um espaço circular. Não há para onde fugir, não há lugar que consiga esconder um espírito de tamanha extravagância. Só lhe resta a dor de cada corte, de cada perfurada, de cada ferida exposta ao mundo.
Humilhada. Sem nada que lhe dê o mínimo de esperança de um solavanco. Negada a qualquer mínima crença numa nova oportunidade. Lançada em um ciclo vicioso de dor e auto-tortura.

Lágrimas escorrem desgovernadas pelo rosto. Encharcando a cara, fazendo tropeçarem soluços, diluindo tudo de bom que a vida um dia ofertou num solvente capaz de corroer as mais finas alegrias. Em contrapartida, o fluído realça a dor, engrandece as mágoas e rejuvenesce antigos traumas. Faz arder como chama viva tudo o que um dia foi chamado de passado.

Lavada interminantemente por sucessivos prantos, uma nova retina se forma. Treinada para abstrair o menor sinal de alegria. Preparada para filtrar qualquer indício de hipocrisia, adestrada para ver nos outros interesses efêmeros. Incapaz de distinguir qualquer outra cor do cinza. Adaptada para um mundo de um sofrimento agourento que o destino prepara para o meu pobre ser.

Só me resta aquele pranto interminável e impensado, violento demais para ser freado e cego demais para não atropelar qualquer sentimento antagônico que ouse florescer. Um rolo compressor que reduz a fragmentos bidimensionais um sentimento que, se tivesse oportunidade de se desenvolver, seria impossível de se mensurar por medições tão lineares quanto as humanas. E de igual complexidade é seu executor.

Óh, como é duro o amadurecimento.


RAFAEL NEVES = Estudante 17 anos

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

SONHE......¨

Todo mundo tem um sonho que começa com um desejo. Não estou falando dos sonhos sonhados enquanto dormimos, embora eles possam refletir tanto nossos anseios, como nossas aversões. Freud já estudou, exaustivamente, este assunto e não pretendo adentrá-lo pelo viés da ciência. Primeiro porque foge à minha proposta, segundo por ser um capítulo muito complexo da psicanálise, sobre o qual me considero totalmente despreparada para qualquer comentario, por mais casual que o faça.

Refiro-me aos sonhos que também costumamos chamar de devaneios, fantasias, vontades que escondemos por motivos varios. Por não podermos realizá-los, por dependerem de outrem, por considerarmos proibidos, enfim, são muitas as razões que encontramos para nos boicotar, ficar na "mesmice" de todos os dias, por considerá-los perigosos, inconvenientes ou, até, por nos desconsiderar.

Muito poucas pessoas têm a coragem de expor seus sonhos mais íntimos. Na maioria das vezes tendem a revelar sonhos altruístas, de caráter social e humanitário. Há os que assim sonham, mas estes são facilmente identificáveis. Na cartilha do politicamente correto é egoísmo ter sonhos pessoais e se os tivermos, têm que ter um caráter divino, grandioso, compartilhado. Nada individual, nada carnal, nada profano, nada excludente.

Outro dia perguntei a alguém, com muitos sonhos, fantasias ou desejos já realizados, saudável, estável financeiramente, livre para fazer o que quer e, se não o faz, deve pesar prós e contras desta "satisfação" e conclui que a renúncia lhe fará mais "feliz" e a resposta à minha casual pergunta, pasmem, foi “esperar a morte chegar”. Fiquei chocada! Na minha percepção esta criatura se revelou egoísta e insaciável, demonstrando sua mais rasteira humanidade para quem a vida foi tão generosa, se sentir tão insatisfeita à ponto de, ainda muito jovem, já tão amarga. Ressalvo que conceitos de realização, plenitude, e felicidade são individuais. Cada pessoa os encara ao seu modo.

Faço uma diferença, muito pessoal, entre sonhos e fantasias. Não semântica, claro, mas de conteúdo. Os sonhos transcendem a realidade e são infinitos. Já as fantasias, são quase todas factíveis, limitadas tanto na profundidade quanto nas expectativas que geram e na satisfação que produzem. Acredito que estejam alguns degraus abaixo dos que acolhem os sonhos, esperando que sejam promovidas para o realizável, que levam qualquer alguém a sentir-se pleno, sem espaços vazios, por dentro e sem a sensação de viver no vácuo, por fora.

Fantasias, além de, na sua maioria realizáveis, podem ser alcançadas já que, muitas possuem um preço. Podem ser a de possuir um objeto, conhecer um lugar, eróticas ou românticas. Tanto sonhos como fantasias, a depender das respectivas dimensões, temos que lutar muito para alcançá-los ou, são impossíveis mesmo e tanto faz realizá-los ou não, o importante é que existam. Teem a nobre função de alimentarem nossas almas de esperança, de serem importantes pilares que sustentam nosso existir e até a responsabilidade de nos proteger da realidade que abominamos.

Entretanto, existem pessoas que temem sonhar por não saberem que uma das características dos sonhos pode ser a de nunca se realizarem. Há os que sonham sonhos tão inalcançaveis, justamente para que nunca se tornem realidade e percam a magia do impossível, do inacessível, de perderem o privilégio de possuir uma causa. Outras, por pobreza de espírito e mesquinhez nas projeções para o futuro, começam a sonhar com o rasteiro, com os prazeres imediatos, com o que nada contribui para seu crescimento pessoal ou entendimento do sentido da vida que é a simplicidade de viver cada minuto como se estivessem vivendo uma vida inteira.

Por não se desprenderem das míopes medidas do julgamento alheio ou do cotidiano, só sentem o obvio e só enxergam o que veem. E para sonhar temos que enxergar além do que vemos. O sonho pode residir tanto no comum quanto no inusitado.

Sonhar é necessário, mas é difícil. Para sonhar é preciso sofrer, chorar, sorrir, cantar, gritar, silenciar. Mergulhar e afogar-se em todos os lagos que deem significados ao fato de estar vivo. Por isto, a amarga resposta do meu “entrevistado” é, provavelmente, por estar refém das coisas pequenas, não sabendo que no pouco pode estar tudo e no tudo pode morar o vazio. Mal sabe que existem os que só sonham sonhos irrealizáveis e, nem por isto, deixam de manter conexão com a realidade e, só a possibilidade de sonhar podem torná-las menos tristes ou até felizes. Transferem, então, seus sonhos para outros, por saberem que até seus desejos tem que passar por crivos, censuras e viabilidades.

Estas sim, estão tão cansadas que só "esperam a morte chegar". E morrer é perfeitamente normal de factível

ALICE ROSSINI

quinta-feira, 28 de julho de 2011

EDITORIAL


Ouvindo uma entrevista do escritor Antonio Prata, quando cumpria a programação do lançamento do seu mais recente livro de crônicas com o original titulo “Meio intelectual, meio de esquerda”, entre outras coisas, aprendi que crônicas não precisam de tema, podendo, inclusive, ser um mosaico de assuntos. Ah é?! Santa ignorância, a minha!

Quando resolvi criar este Blog, a intenção foi e continua sendo, registrar emoções que vivencio no meu dia a dia. Algumas vezes revisitando-as, sinto desejo de registrar novas descobertas sobre elas. Afinal, hoje não sou o que fui ontem.

Portanto, a idéia é que meu texto seja livre. Mas, como a nossa liberdade, inclusive e principalmente, a de expressão, sofre algumas restrições, rendi-me a algumas que me impus sem nada que as justificassem e outras, impostas por circunstâncias que me parecem imutáveis.

Pessoalmente, acho que quem escreve deve ser uma pessoa atenta. Ao mundo e a si mesmo. Deve estar conectado com a dinâmica dos acontecimentos e optar entre descrevê-los sem nenhum juízo de valor, interpretá-los, comentando aspectos que considere relevantes ou, simplesmente, fazer um registro das emoções que lhe causaram. Estas possibilidades são como holofotes no fundo do túnel quando, quem escreve jornalista, escritor ou diletante, tem, por motivos vários, bloqueada sua criatividade.

Não tendo nenhuma formação em comunicação, sinto-me livre para escrever o que quiser resguardando, na medida e nos limites do “meu possível”, o respeito e a obediência às regras gramaticais e a uma ortografia perfeita. Sei, que nem sempre isto acontece.

Como escrevo com o coração na ponta dos dedos, afastar-me desta marca pessoal é uma temeridade, já que um Blog é uma mídia pública. Portanto, tenho que me expor e, por isto, devo ter consciência dos limites do meu horizonte. Embora, querendo, podemos descobrir o quanto pode ser infinito.

Não obedecendo à necessidade de falar dos sentimentos quando redescubro a sensação de quietude em respirar pausada e prazerosamente ou do arrebatamento quando ouço uma música que me remete a alguma situação marcante, estou promovendo um boicote a este Blog. Quando acordo nostálgica ou suavemente feliz, surfando no mar cheio de ondas que compõe o contexto do meu perfil emocional, se não registro, não estou sendo verdadeira.

Alguém sabe que uma das minhas fobias é estar às dezoito horas longe das paredes protetoras da minha casa? Que aquele lusco fusco, o céu avermelhado despedindo-se do dia ou carregado de nuvens negras prenunciando uma noite chuvosa e, para compor o cenário fóbico, pessoas trancadas com seus pensamentos nos seus meios de transporte, indo para seus respectivos mundos, indiferentes ao que acontece ao seu redor? Alguém sabe a desestruturação emocional que estas circunstâncias interligadas provocam? Que enquanto ouço a Ave Maria, seja de Gounaud ou Schubert, minha garganta pulsa até que lágrimas escorrem pelo meu rosto?

Alguém sabe que sinto culpa por detestar o Natal sem nenhum motivo que justifique este sentimento? Que se pudesse, faria um “catado” de pessoas que considero fundamentais e as levaria para uma ilha deserta sem musiquetas em Shoppings e decorações de pinheiros cobertos de neve? E que, tenho certeza, um dia me lembrarei destes “detestados natais” com enorme saudade?

O meu objetivo é confessar minhas contradições, desnudá-las dos véus das conveniências e mostrar-me uma pessoa em transformação, emergindo e submergindo, egoísta e magnânima, em luta constante contra preconceitos embutidos nas sutilezas da minha forma de encarar o mundo

Mas, preferi filtrar meus sentimentos. Cair na armadilha de me sentir obrigada a opinar sobre acontecimentos do cotidiano como se fosse uma comentarista de um tele-jornal.

Fugindo à minha proposta inicial me afastei da emoção como se só a mim interessasse o que sinto, quando o que sinto pode ser o que muita gente sente, por mais singulares que sejamos e assim me conecto com os sentimentos do mundo. Em resumo, emprestei a este Blog a sobriedade das coisas velhas, amarradas a idéias preconcebidas, não lhe permitindo o direito de ser o que quiser.

A entrevista a que me referi lembrou-me que tenho que ter a humildade, como aprendiz que sou e serei por muito tempo, que vão acontecer momentos em que nada tenho a dizer senão que fico encantada com a perspectiva de conhecer o Marrocos, a Turquia ou qualquer país exótico e que um filme me deixou sem fala e pensativa por vários dias.

terça-feira, 12 de julho de 2011

80 ANOS

Atualmente, muitas pessoas podem viver oitenta anos. Até mais. Os avanços da Ciência têm sido decisivos para a longevidade do homem. Esta é uma das vitórias da inteligência humana que devemos comemorar.

Entretanto, viver oitenta anos não é fácil e minha Mãe, Lucia viveu e vive cada dia desta fase da existência de forma digna e bela. São vinte nove mil e duzentos dias entre o primeiro choro, no nascimento, à ingenuidade das brincadeiras da infância com os quatro irmãos, por quem, até hoje, nutre um sentimento de “quase mãe”; vencendo as inseguranças do afastamento necessário e sofrido da casa paterna em busca do conhecimento e da independência; às escolhas inerentes à passagem do tempo, acompanhadas de alegrias e sofrimentos. Tudo isto esmerilando caráter e personalidade que a tornaram uma pessoa serena e paciente.

A vida a que me refiro de forma tão resumida e simples, não foi, não é e jamais poderá ser classificada como uma vida banal. A história de minha Mãe, que hoje, 13 de julho de 2011, celebramos com uma mistura de carinho, gratidão à vida e euforia. Oitenta anos de uma existência, que se justifica a cada dia.

Quase sessenta anos de casamento, filhos, netos, bisneto, amigos que vão, amigos que chegam e ficam. A história passando diante dos seus olhos verdes que brilham a cada possibilidade de interferir no seu curso, fazendo a diferença num mundo carente de atitudes. Tudo isto sem incomodar-se com a omissão das pessoas e da força das circunstâncias.

Ainda muito jovem, morando num pensionato, qualquer atraso no pagamento da mensalidade era impedida de alimentar-se adequadamente e, muitas vezes, a fome já corroeu-lhe o estômago com a mesma intensidade que a vontade de crescer tornava-se uma meta que precisava ser vencida. A vitória que buscava não afagava seu ego, mas enriquecia seu ideário de justiça e sua necessidade de ser útil.

Vive com a mesma dignidade, dias de sol escaldante, de chuvas torrenciais ou noites estreladas com luas que minguam e renovam-se. Aparentemente, uma vida igual a muitas outras vidas, acariciada e castigada pela passagem do tempo.

Todos que a amam e a admiram agradecem o privilegio da sua contemporaneidade.

Não vou nem posso fazer a estatística de quantas crianças minha Mãe alfabetizou, numa escola, paupérrima e precária, no subúrbio de Coutos. Lembro-me das idas e vindas nos trens da Leste Brasileira e eu, ainda criança, tendo que acompanhá-la, já que não tinha quem de mim cuidasse. Ainda mantenho viva na memoria os sacrifícios e as noites, insones, de estudos, para graduar-se Psicóloga, sempre contando com o apoio e o incentivo do meu pai. Tampouco, será necessário mais um registro da sua irretocável trajetória no Serviço Público, com a motivação de quem abraça uma grande causa. Muito menos, que faz da sua aposentadoria um apostolado de caridade, através da participação na gestação e no nascimento do Centro Espírita Joana de Ângelis, onde, na medida das suas possibilidades ajuda a manter vivo, prestando relevantes serviços à famílias carentes. Estas fases da sua vida todos já conhecem.

Não existe nada na vida de Lucia, minha Mãe que não me inspire ternura, carinho e gratidão. Tenho certeza que meus irmãos, Izabel e Luciano, subscrevem este texto.

Costumo dizer que nossas conversas acontecem sempre livres de preconceitos ou moralismos e são impregnadas da modernidade com que conversamos com os mais jovens dos nossos amigos. Ela, sabiamente, acompanhou as mudanças do mundo, as compreende e, principalmente, as aceita. Minha mãe recicla lixo desde que éramos crianças e tem consciência dos seus direitos e deveres de cidadã. Vota com consciência e patriotismo e sempre interfere quando testemunha alguma iniquidade.

Lê jornais, livros de Filosofia, Psicologia, História contemporânea e tudo mais que suas laboriosas mãos conseguem alcançar. Vive conectada com o mundo através de todas as midias que dispõe em sua casa, de onde pouco sai. Embora mantenha uma inquietude quase juvenil, sabe que é chegada a hora de, com meu pai, cuidarem um do outro.

Não por acaso tem amigos de todas as idades e é adorada pelos netos, que a teem como referência marcante. Consultam-na sobre tudo, dos resultados de jogos locais e internacionais de qualquer esporte, até sobre regras gramaticais. Participou das gincanas estudantis aos vestibulares e das formaturas com uma emoção que nos comovia. Carinhosa e cuidadosamente respaldou suas formações intelectuais, enviando-lhes recortes de jornais com textos de relevância, indicando-lhes livros importantes, incentivando-os à pesquisa e revisando trabalhos científicos, entre outros mimos que só às avós é permitido o privilegio.

Não pretendo esgotá-la em tão poucas linhas nem prometo ser modesta. Só verdadeira. Até porque, a verdade, como valor, foi ela e meu pai que me ensinou: ”Filho meu não mente!” Diziam. Meus irmãos também absorveram este princípio e hoje, nós o repassamos para nossos filhos.

Falar na totalidade de quão rara é a personalidade da minha Mãe seria uma tarefa impossível, pois a riqueza da sua vida torna-a, além de um “alguém” que a cada dia que vive acrescenta, e acrescentando torna-se indefinível e inesgotável.

Na vida de Lucia, minha Mãe não há nada que não possamos relembrar sem que nos sintamos engrandecidos por ter sido por ela gerados, o que nos tornam pessoas responsáveis por acatar e respeitar suas singularidades, evidenciadas nas suas maiores virtudes: a humildade, o desapego a tudo que é material e a disponibilidade em ajudar a quem quer que a procure, inclusive e principalmente, sem valorar as justificativas de quem ajuda. Simplesmente acolhe, de forma generosa e incondicional.

Despretensiosa, nunca fez questão de ser reconhecida como uma pessoa bondosa. Mas exige ser lembrada pelo senso de justiça, traço marcante na sua personalidade. Dona de um caráter firme sempre diz o que pensa ainda que incomode ou seja julgada pela sinceridade exacerbada.

Entretanto, a imagem mais amorosa, entre muitas, que tenho de minha Mãe é sutil e singela: Todas as vezes que lhe faço uma visita e despeço-me, descendo as escadas do seu apartamento que ainda chamo “lá em casa”, sentimento de posse de um passado que teima em continuar presente, alcançando o portão da entrada sempre olho para cima e vejo, pela fresta da cortina da sua sala, sempre arrumada com seus objetos de estimação, seu rosto sereno e seu olhar expectante acompanhando meus passos, numa misteriosa mistura de “adeus” e “até breve”, impregnada de um ingênuo sentimento de que me protegerá até que chegue sã e salva, na casa que chamo minha.

Alice Rossini

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A PROVA VIVA

Se alguma vez na vida, já pensou em ferir alguém, eu tenho algumas dicas. Pegue um machado, uma faca ou qualquer coisa suficientemente cortante e decepe-lhe a cabeça ou mutile um membro. Misture dezenas de venenos diferentes nem que isso lhe custe ir atrás de cobras peçonhentas e aranhas nojentas e ponha na bebida preferida dela. Ou, se o ódio for maior ainda, pode experimentar tortura. Há alguns métodos brilhantes, se você quiser saber. Está livre para fazer da forma que quiser, só peço que nunca, mas nunca em sua vida, atinja-lhe seus sonhos.

Pode me prender a uma forca e me suspender no ar ou me lançar em um rio de jacarés, mas não se atreva a encostar um dedo naquele tesouro guardado no peito. Aquele que insiste em se materializar, mas que nem sempre está na hora. Mesmo que ele seja humanamente impossível, deixe-o viver. Que mal há nisso? Que mal há em deixar germinar a esperança de algo melhor, de algo que nascemos para viver?

Nunca, mas nunca mesmo, ouse acertar esse ponto fraco, por mais imenso que seja a raiva, o rancor e tudo aquilo que te impõe-me como um alvo. Por mais que existam armadilhas e caminhos travessos, aposte neste pingo de incerteza, nessa louca improbabilidade. Não deixe que o dinheiro e a sede por consumo lhe façam cego da única certeza de que somos humanos: nós sonhamos!

Somos capazes de imaginar algo que está além da realidade e longe de qualquer preocupação, onde tudo faz sentido e nada mais importa. E melhor que isso, somos capazes de reunir forças para lutar por isso, não importa o quão difícil seja. Lembre-se sempre que somos todos humanos, mas existem dois tipos deles: aqueles dentistas que querem fazer teatro e aqueles atores fazem teatro.


Rafael Neves -estudante

terça-feira, 14 de junho de 2011

FELICIDADE, UMA QUIMERA?

A Psicanálise reconhece como parte do comportamento humano e define como Mecanismo de Defesa atitudes que nos “afastam” dos problemas que incomodam e que, muitas vezes, sem tentar resolvê-los e refletir sobre eles, achamos mais fácil “fugir pela tangente” como se diz na linguagem popular. Ouso defini-los, sabendo que estou sendo reducionista e omissa quanto à complexidade da doutrina freudiana.

A repressão, a racionalização, a sublimação, a projeção, o isolamento, a negação, entre outros, são mecanismos identificados por Freud e, por mais contestado que o cientista seja hoje, pessoalmente, identifico vários deles ao meu redor. Inclusive em mim mesma, embora tenha a mania de desmascará-los, o que faz com que me sinta vulnerável e desnuda.

Por favor, não me achem pretensiosa por estar escrevendo sobre um assunto que foge, completamente, à minha formação. O “problema” é que eu me interesso pelas artimanhas humanas e, além de pensar sobre elas, presto muita atenção em quem as utiliza. Atire a primeira pedra quem, de vez em quando, não dá um drible num fantasma que não quer ou não consegue exorcizá-lo por medo ou até, por nem ter consciência que exista.

Ao refletir sobre o assunto imagino e me corrijam psiquiatras e psicólogos, que os mecanismos existem para nos garantir uma coisa que nos sentimos obrigados a ser o tempo inteiro: felizes. Mas a felicidade é um conceito além de difícil definição, é pessoal e a sensação nunca é permanente. Claro que as coisas não são tão simples assim e não tenho intenção de explicá-las. Apenas uso-as como lastro para meu texto.

Mesmo assim, fazemos qualquer coisa para alcançar esta “tal felicidade” porque hoje é símbolo de sucesso e vivemos uma cultura que a ninguém é permitido demonstrar qualquer tipo de fraqueza e nos é insuportável a sensação que podemos perder o controle das nossas vidas, inclusive, imaginem, dos sentimentos, nossos e dos outros.

Vamos fazer uma suposição louca - Saramago já o fez com relação à Morte - na qual, a vida seria uma sucessão de momentos felizes, claro, resultado de outra sucessão de escolhas acertadas. O que aconteceria, pensando rápida e superficialmente? Ser feliz não constituiria nenhum motivo para ser celebrado, porque a rotina, aquela palavrinha temida pela grande maioria, faria da felicidade uma regra imutável. Seria terrivelmente sufocante viver sob regras imutáveis! Quanto às escolhas acertadas, qual o parâmetro que usaríamos para valorá-las como certas, já que não saberíamos o que seria considerado errado? Os conceitos de certo e errado carregariam que conteúdos? Outro detalhe importante é que nossas escolhas dependem das escolhas de outrem.

Sentirmo-nos eternamente felizes nos colocaria na superfície da existência, portanto não nos convocaria para a reflexão. Que chance teríamos de experimentar todos os sentimentos humanos que nos enriquecem, ensinam-nos a comparar gostos, sensações, saborear e digerir as diversas faces da tristeza, de como é bom o sentimento de saciedade de fome, de abraços, de beijos, de sexo, de amor? Nossos pensamentos e reflexões seriam pobres, pois viveríamos à tona, sem descermos às profundezas do nosso inferno, onde buscamos força para compreender, ser tolerante, ser forte e aceitar que existem os fracos e os intransigentes. Que existem as diferenças.

Como buscaríamos as razões de tudo, senão nos subterrâneos das nossas reflexões que uma vida de prazeres e felicidade nos roubariam?

Quando perdêssemos alguém a quem amamos, como suportaríamos o sofrimento inerente à perda? Porque, por mais felizes que fôssemos não estaríamos livres da inexorabilidade do distanciamento das pessoas em busca de seus projetos pessoais, da própria felicidade e pela morte, da qual, jamais fugiremos. Paradoxalmente, se conseguíssemos fugir dela, nossa pretensa felicidade foge pela mesma porta.

Por todas estas impossibilidades, usamos nosso Ego - eu novamente enfrentando terreno minado - lançando mão de mecanismos que nos dão o suporte para conviver com a vida como ela é.

Pois é este lado da vida que, unido aos momentos de plenitude, compreensão e realizações, emprestam riqueza, densidade e diversidade sem as quais seria insuportável existir.

ALICE ROSSINI

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O AMOR É INVISÍVEL

Esta frase pode parecer obvia. O amor como todos os sentimentos são invisiveis. É o mais inefável, etereo, inexplicável, incompreendido e multifacetado de todas as emoções experimentadas pelo homem.

Manifesta-se ou esconde-se como, desculpem-me a grosseira analogia, uma barata que ultrapassa e esconde-se em lugares nunca imaginados. Só elas sabem como entram ou como saem por uma fresta pretensamente hermética. Como uma barata, o amor mete medo. Ou os enfrentamos e aceitamos sua perigosa e instigante presença, podemos esmgagá-los ou, simplesmente, ignorá-los, afinal, já que existem, possuem a mais cruel das prerrogativas inerentes ao existir: sofrer por ser ignorado .

Não raro ficamos sem saber o que fazer com ele e, como as baratas, escapam diante de nossos olhos e, sem sabermos como, tornam-se invisiveis!

Pode o amor estar nos mais inusitados lugares. Camuflado de um odio presumido, de uma magoa mal resolvida ou adormecido nas profundezas da alma. Pode residir numa conversa que ficou presa na garganta, num silêncio que fecha portas ou num barulho que abre feridas. Sobreviver de um desencontro que não o revela ou de um encontro que o desmascara: Não! Isto não é amor!

Mas, também, pode estar nos pequenos gestos de cuidado: dar ao outro a melhor fatia da carne, o café quentinho, pegar agua no meio da noite, puxar o cobertor por perceber o outro gelado pelo frio e todos os pequenos detalhes que juntos, chamamos de bem estar, felicidade , qualidade de vida, paz.

Amor é sensação de completude, de tempo parado, de vontade de discordar para ensinar, de merecer a verdade, feia ou bonita, confortável ou desestruturante. O amor presume a urgência e abdica da pressa que obriga e dispensa a presença do outro. O amor sente prazer na saudade e transborda paciência na presença constante. Por ser dialético, seu circulo fecha-se no odio. Na indiferença, jamais!

Há uma necessidade humana em tornar tudo que é abstrato em substantivo. Com o amor, sentimento do qual precisamos para nos sentir felizes, esta necessidade exacerba-se. Então, declarar, abraçar, beijar, dar presentes, enviar mensagens apaixonadas e outras manifestações objetivas, claro que também necessarias e instintivas, principalmente na fase do apaixonamento,solitarias se relativizam e, com o tempo perdem a densidade.

Se fizermos um exercicio e só nos permitirmos manifestações românticas, deixando de lado os pequenos cuidados citados acima, o amor esvazia-se, perde sentido. De tão objetivo, perde o encantamento da sua subjetividade.

E a objetividade da “certeza”, sensação impossivel no amor, lhe confere o “status” de atração, entusiasmo e outras sensações que situam-se no patamar da paixão que poderá, ou não, transcender e transformar-se em amor associado à ingredientes como amizade, cumplicidade, confiança , atração sexual e outras manifestações objetivas.

Portanto o amor, como as baratas, perdoem-me novamente, também detesto-as, é invisível. Só o vemos quando estamos muito atentos, receptivos e capazes de perceber que existe alguma coisa estranha e assutadora como as baratas ou mágica e surpreendente como o amor, bem perto de nós.

ALICE ROSSINI