sexta-feira, 30 de março de 2012

PRECISO DE UM ABRAÇO


“Dentro de um abraço” é onde a escritora Martha Medeiros acha ser o melhor lugar do mundo. Conclusão, para mim tão óbvia quanto aconchegante. A definição me pareceu clara e objetiva por motivos vários. Desde a necessidade que considero básica, de afeto e de acolhimento da grande maioria das pessoas e porque se contrapõe ao instinto, cada vez mais raro de acolher, surgindo, daí carências e vazios, dentro e fora, de cada um de nós.

Dar um abraço poderia ser, metaforicamente, comparado à doação de sangue ou qualquer ato de renúncia ou desapego de algo a favor de outra pessoa, embora, entre estes atos generosos exista uma distância prevista e programada entre doador e beneficiário.

No abraço, a conexão é imediata. Porque nele se beneficiam quem abraça e quem é abraçado e, quase sempre o carinho é, automaticamente, devolvido. Um ato mistura-se ao outro e a troca de energia amorosa transforma-se numa nuvem única de afeto e generosidade que possui a capacidade de derreter toda a rigidez que teimamos em alimentar por acharmos que não podemos, a ela, nos contrapor. Quando dois corpos se unem, alternam-se no privilégio de ser um e outro, na medida da sinergia que acontece antes, durante e depois do ato de abraçar.

Surgindo em alguém a necessidade de ser abraçado não há, necessariamente, a vontade de reconhecer que braços podem rodear seu corpo, tamanha a urgência de sentir-se aconchegado. O desejo surge da necessidade de aceitação e os braços que abraçam assumem papeis em cuja subjetividade está contida uma infinidade de sentimentos, que vão da solidariedade ao amor apaixonado.

Um abraço constrói avenidas de mão dupla, nas quais, trafegar só enche de vitalidade quem tem coragem e generosidade para transitá-las. É um ato que prescinde de palavras. O silêncio tanto o engrandece quanto o aprofunda.

Deixar que cumprisse seu ciclo sem jamais interrompê-lo, até que se esgotem desejos, vontades, anseios, carências seria, reconhecer no abraço sua necessidade de existir sem que, para ele, sejam necessárias justificativas ou motivos. Esgotado por si, tem o poder de fazer nascer a necessidade, sempre crescente e infinita, de abraçar e ser abraçado.

Um abraço além de antídoto pode ser remédio contra tristezas e depressões. Quantas guerras, chacinas, tragédias, onde a violência humana é a maior protagonista, poderiam ser evitadas se os seres humanos compreendessem a importância preventiva de um abraço? Presídios, prostíbulos, manicômios, salas de espera de consultórios, Varas de Família do Judiciário, asilos para idosos, talvez estivessem menos povoados se seus freqüentadores tivessem sido abraçados, na medida das suas carências.

A crônica da Martha Medeiros me chamou atenção não só pelas reações, que percebo, quando vejo duas pessoas, não importa a idade ou motivo aparente abraçando-se, mas também pela sensação de conforto emocional quando me sinto abraçada pelos que amo e até, quando me surpreende um abraço improvável. Um prazer que transpõe a pele e fixa-se na memória afetiva, fazendo crer que, a qualquer sinal de alerta, existe um lugar no mundo, “o melhor”, onde se podem alojar vontades, suprir carências e tratar dores.

Um pouco mais de atenção e concluiremos que todos têm cara de estar pedido um abraço.

ALICE ROSSINI

terça-feira, 13 de março de 2012

¨"SÓ SEI QUE NADA SEI"


Quando o filósofo Sócrates disse esta frase, certamente, falou de si. Mal sabia, que a humanidade, milênios depois da sua morte, se não registra, cotidianamente, esta sensação, deveria citá-la todos os dias. Provocada por um simples exercício de humildade e pela constatação de uma realidade massacrante.

O homem nasce com toda sua história pessoal por ser escrita, completamente ingênuo e dependente. Dentre todos os animais, é o que mais necessita, para sobreviver, dos cuidados e proteção paterna.Como disse Walloon o ser humano é essencialmente social.. Suas primeiras referências quanto aos sentimentos e sobrevivência sustentarão suas emoções durante o resto da vida. Os que tiverem acesso às Escolas, nelas encontrarão a oportunidade de interagir com o "outro" como parte do processo de socialização e de absorção mediante as diversas formas de informação, dos registros históricos e de todo conhecimento acumulado pela humanidade.

Adolesce e, há tempos havia a geração que queria mudar o mundo já mergulhado em profundas transformações. Hoje, os apelos do consumo, a globalização, a crise de valores, dentre outras distorções, derrubam identidades culturais e tentam padronizar traços étnicos, não raro, obrigando-o a sentir-se parte de um rebanho de matizes monocromáticas e desejos pasteurizados. Segundo estes conceitos, o que o diferencia é a quantidade de riqueza que consegue acumular. Alguns, mediante o próprio trabalho, outros, mediante o trabalho alheio.


Adulto, procria e repassa aos filhos, de acordo com as circunstâncias históricas, hábitos e costumes filtrados e interpretados pela diversidade cultural e pessoal, conceitos que creem verdadeiros e éticos ou ratifica preconceitos, contra os quais nem se dá ao trabalho de questionar, ainda que o motivo seja a formação de quem se responsabilizou em colocar no mundo.

Vista desta forma simplista a vida até que seria fácil, mas a monotonia ainda mais nociva porque, paralela a esta vida que vive fora da gente, existe outra, muito mais movimentada, povoada de seres pensantes, desejantes e insatisfeitos como vulcões a ponto de entrar em erupção.

Às vezes, fico sentada em lugares públicos olhando o desfilar de seres humanos e imaginando quantos "mundos" mais complexos ou mais simples, mais atormentados ou mais apaziguados pela serenidade conquistada mediante lutas, sofrimentos, mudanças de credos, quebra de paradigmas, humilhações, autoritarismos, enfim, o mundo invisível que acontece nas nossas mentes, muito maior que imaginamos e, felizmente, embora espelhem o que somos, grande parte do que pensamos esconde-se nas entranhas do nosso inconsciente adormecido, procurando uma brecha para, como vulcão, expelir suas larvas.

Quantas tragédias ou quantos milagres poderiam ser testemunhados!

Daí a pertinência atual da frase do filósofo que disse nada saber. Não raro nos surpreendemos com nossas próprias reações, porque pouco nos enxergamos e ainda usamos todos os mecanismos que dispõem nossas mentes, para vivermos entrincheirados, fugindo de nós mesmos. Se transparentes nos dispuséssemos a sê-lo, inclusive diante do "outro",como seriam nossas vidas?

Fizeram-nos crer que temos livre arbítrio. Contra ou a favor da liberdade a luta humana nunca cessou. Por isto questiono a qualidade desta prerrogativa de ser absoluta. Vivemos em sociedade, portanto, o livre arbítrio sofre os limites do livre arbítrio dos outros habitantes do planeta. Como tudo na vida, nossa liberdade é relativa, regulamentada por leis e limitada por hábitos e costumes que, se infringidos, por mais inocentes e inofensivos que sejam teem que passar pelo crivo ou sofrer penalidades dos agrupamentos sociais onde estamos inseridos.

Não bastassem estes conflitos, buscas e insatisfações, somos seres curiosos, vivemos num mundo de conceitos e teorias que sofrem da nossa compulsão de demonstrá-las ou desconstuí-las.

Pois bem, ainda existe aquela célebre pergunta “quem somos - de onde viemos e para onde vamos” atribuída ao pintor Paul Gauguin que concebeu uma obra de arte onde tentou responder a estes questionamentos.

Acho que não somos nada, apenas um dos seres que habitam a Terra, até possíveis descobertas de seres mais evoluídos em outras galáxias, com formas de pensar até mais complexas e providas de raciocínios mais avançados. Viemos, até prova em contrário, para onde voltaremos.

Como o filósofo, "só sei que nada sei”. Nada além das nossas fraquezas, das nossas covardias e submissões a regras que discordamos, a surpresas com nossos semelhantes que não compreendem nem a si e, muito menos, quão justas podem ser nossas intenções.

A procura pelo autoconhecimento deveria deixar de ser uma meta que se esgotasse em si mesma. Por sermos mutantes, é parcial. Deveríamos sim, encontrar o que, de tão rígido parece mais forte que nós, represando nossos "entulhos". Assim, sem medo de nos esvaziar, criamos clareiras onde seriam construídos outros edifícios formados de crenças e conceitos, talvez mais flexíveis e mais permeáveis, já que a vida é um eterno reinventar de sonhos e objetivos.

Se perdermos esta prerrogativa, perdemos a vontade de continuar.


ALICE ROSSINI

quinta-feira, 1 de março de 2012

VIDA QUE SEGUE


Se meu filho vai ser pai, logo, serei avó! Esta frase tão lógica quanto mágica que ora escrevo, provocou, em mim, um turbilhão de emoções que até agora não sei como descrevê-las. Demorei algum tempo para entender o encadeamento tão óbvio quanto sonhado e o processo ainda não terminou.

Sinto como se meu papel de mãe se completasse através da continuidade e dos diversos sentidos que esta criança já criou, tanto na minha vida, quanto na vida das nossas famílias e, principalmente, quanto à direção da sua relação com um mundo premente de mudanças e tão necessitado de tudo que fuja ao que, antiético, nos atinge e nos avilta.

Espero desta pessoa em formação uma relação positiva, saudável e transformadora com a humanidade que a cerca. Comecei a sonhar e a cultivar esperanças.

Quando imagino que um neto leva à completude do papel de mãe não quero colocar-me como centro deste contexto tão mágico quanto natural. Quero, sim, enaltecer a sucessão de eventos que ocorrem na vida de qualquer ser humano que decide gerar, gestar e formar uma pessoa. Estes eventos que perpetuam a vida neste pequeno planeta perdido no universo levam-me à reflexão da quão complexa e tão necessária é a aceitação incondicional, em qualquer relacionamento.

Assim sendo, não posso deixar de recordar-me que esperei o pai desta criança embalada por este conceito. Foi amado logo que desejado e durante sua gestação, quando a Ciência ainda nada antecipava quanto ao seu rosto, suas dimensões, o formato das suas mãozinhas, a cor dos seus olhos, a profundidade e vivacidade do seu olhar ou a evolução do seu peso. Estas e outras interrogações formavam um enorme e maravilhoso mistério quando a vida nos impunha a espera, como todas, impacientes.

Quem decide forjar uma pessoa assume um compromisso com o imprevisto, com a aceitação acima de qualquer conceito de estética ou normalidade que obedeçam, apenas, aos estreitos, mutáveis, relativos e individuais parâmetros definidos pelo homem. Comprometidos com uma aceitação ética com o que a vida colocará em nossos braços e nos responsabilizará, objetiva e emocionalmente, indiferentes às polaridades entre bom ou ruim, preto ou branco, certo ou errado. Começa a temporada de "amor acima de tudo”, mas também, “amor apaixonado e racional”, “amor louco e lúcido”, amor capaz de abstrair o mundo e colocar a pessoa no centro de nossas vidas, decisões, vontades,, necessidades que se tornam relativas e renúncias, indolores. É chegada a hora de repensar o que é essencial.

O pedaço de mim que ora se desdobra, nasceu num domingo ensolarado e tingido de anil, rompendo o silêncio invisível e cerimonioso, carregado das promessas que precedem a eclosão da vida. Um choro forte que demonstrava uma enorme ansiedade pelo existir. Confesso que, naqueles momentos infinitos, minha ingenuidade juvenil traçou, com arrogante ignorância, a trajetória daquela criaturinha que somente naquele instante, descobria-se das formas que habitavam meu imaginário.

Hoje sei quanto importantes e necessários os momentos positivos, como são as negociações com os imprevistos para que os sonhos tenham a força de burilar, de esculpir e construir um Ser Humano capaz de ser fonte que sacie as necessidades do mundo que acolhe mas impõe condições, de ser o equilíbrio se qualquer instabilidade o exigir, de sonhar e ter fé onde houver ausência de esperança.

Aos poucos, a gravidez de Aninha vai se tornando mais uma incontestável manifestação da vida. Consciente da dimensão do compromisso assumido, lamento pelos que não aproveitam a mais contundente, libertária e generosa oportunidade de crescimento e transformação que a vida pode oferecer à qualquer animal, de qualquer espécie. Porque nos “obriga” a ser humildes, tolerantes, pacientes, tranquilos, perspicazes, firmes, carinhosos, saber sair, sem amargura, das inevitáveis armadilhas das expectativas, saber que a vida é carregada de surpresas, boas e ruins, entre milhares de outras lições que eles - filho e nora - de agora em diante, terão um “parceirinho” que, usando a pedagogia, o amor, a inocência e a compreensão, aprenderão juntos. Sim, porque se cada pai é um pai, desculpem o clichê, mas gente não vem com Manual de Instrução. Não somos iguais, nem física nem emocionalmente, um só dia das nossas vidas.

Há que haver muita intuição, muita capacidade de improvisar e relativizar as verdades para o ato da criação. A “over dose” do ingrediente emoção nos obriga a criar filhos fugindo dos manuais de Psicologia e, inseridos numa sociedade que clama por vida mas a desrespeita, é formada sobre conceitos, embora alimente preconceitos, assim como engessa e apequena o que venha a ser felicidade de cada um.

Menina ou menino, a irrelevância destas preferências sucumbe diante da necessidade de desejar uma personalidade permeável às mudanças benéficas que a humanidade, inexoravelmente caminhará, mas tão flexível e crítica quanto aos sentidos das mudanças que temos que conviver a cada segundo das nossas existências.

Sei o quanto é difícil e doloroso. Mas é o preço que o pagamos para, além de existir, sermos reconhecidos pelos que amamos e, ratificados por nós mesmos.

ALICE ROSSINI

sábado, 18 de fevereiro de 2012

EDITORIAL, ANO IV

Sempre reflito sobre as dicotomias, sobre os opostos, mas nesta data, 18 de fevereiro, eu me aproximo mais destes temas: o bem e o mal, o ganho e a perda, a claridade e a escuridão. Assim me reencontro com a linha da vida que se curva diante da possibilidade do nascimento e da certeza da morte. Sei que os dois momentos guardam-se, simultaneamente, um no ventre do outro e formam este enigma que chamamos existência.

Tanto o Verso&Reverso quanto Kilma, sua Musa inspiradora, o primeiro por existir virtualmente e a segunda por ter deixado de existir fisicamente, completam, respectivamente, quatro e oito anos. Enquanto o primeiro possa morrer por falta de palavras, a segunda continua viva por excesso de lembranças. Porque a quem vive, cabe o ônus da luta pela sobrevivência e quem morre cabe o bônus de cristalizar-se nos seus melhores momentos, principalmente quando eles foram a tônica do seu existir.

O Verso&Reverso contém nas suas páginas virtuais tristezas, alegrias, angustias, registros de solidão, de vida e morte, assim como Kilma continua a viver em nós, tal qual um mosaico de contradições que compunha sua personalidade alegre, generosa, determinada, ingênua, mas mesclada de inseguranças, incertezas, medos e ansiedades. Tudo isto ungido por muita vontade de viver. Viver apesar de tudo, viver de qualquer jeito, a qualquer custo e de qualquer forma. Mal sabia que logo atingiria o humano desejo da eternidade, na vida de todos que a amavam de diversas formas, de todos os jeitos, em todas as horas, através de sorrisos eternizados em centenas de fotos, nas transparências fragmentadas das taças que suas mãos inquietas derrubavam, fazendo escorrer a liquidez vermelha do vinho que combinava com sua boca e suas unhas sempre impecáveis. Infelizmente, sua sempre esperada presença foi interrompida por uma ausência inesperada e devastadora.

Como para sua editora, a existência deste Blog alimenta-se e confunde-se com o vazio provocado pela inexistência de Kilma, suas pretensões, embora humildes, guardam a grandiosidade de homenagear os sentimentos, sensações e opiniões aqui expostas, reiterando a preservação de valores como a liberdade de expressão, o repudio a qualquer tipo de preconceito e o respeito à diversidade dos seus leitores.

Assim como Kilma sempre viverá nas mais alegres e confortáveis lembranças que nossa saudade jamais esquecerá, que a este Blog nunca faltem palavras transformadoras e uma criatividade construtiva na vida de todos que o leem. Este ano, mais que nunca consciente de que jamais conseguirei esgotar quem foi Kilma e o que sempre representará na vida de cada pessoa que a conheceu, este Blog homenageia ela, seus colaboradores e seus leitores com a magia de um poema de Carlos Drummond de Andrade:

AUSÊNCIA
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

¨O QUE TEMOS FEITO DE NÓS?¨

O ano está acabando e a condição do ser humano permanece igual. Gente matando gente com a mesma crueldade e indiferença que desmata florestas e sacrifica animais. Pior! Gente se matando de todas as formas, não só física como emocionalmente. Desconhecem princípios, negam vontades, desistem de sonhos, abdicam de si abrindo mão de lutar pelo que jamais deveria ser suprimido, a liberdade de pensar, declarar e agir. Há quem ache normal e contribua para isto. Há quem arrebente as correntes, derrube as grades e bote a boca no mundo. Mas há uma grande parte que se acomoda e, embora pense, cala-se e imobiliza-se.
Diante disto não sei ser original nem escrever algo novo. Entretanto, este exilio de si mesmo já foi denunciado e por uma mulher, CLARICE LISPECTOR.
Um amigo querido, o Psicólogo Ricardo Barreto, sempre generoso e, muito mais que eu, conhecedor e admirador da obra de CLARICE, resolve compartilhar as suas e as nossas inquietações, que o gênio da escritora, pergunta-se e pergunta-nos, num fragmento do seu pensar: “o que temos feito de nós?”

“Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós constuímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primário de nós que por amor diga : tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tanto outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo "e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia."


Clarice Lispector ( Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, pg. 47/48 )

sábado, 10 de dezembro de 2011

ENLAMAÇADA

Meu corpo tombou de vez naquela noite chuvosa. Cai com tudo na lama, agora ainda mais nojenta. Não ousei levantar, talvez por estar cansada depois do dia de sofrimentos, mas, principalmente, por compreender que ali era o meu lugar. Encharcada pela água que Deus não quer mais e coberta pela lama que as minhocas defecaram. Nada continha minhas lágrimas, que se misturavam àquele conjunto de resíduos que o mundo descartou e chamou de chão.

Eu era fraca. Fraca, mentirosa e vagabunda. Sabia disso, admitia com a mesma facilidade que uma criança se encanta por um brinquedo novo. Mas isso não diminuía a dor de ver tantos outros me exporem de tal forma. Mas será que eu merecia tanto egoísmo? Será que alguém como eu podia não querer que outros me xingassem e privar os maldizeres apenas para mim? Seria pedir demais um mínimo de privacidade? Meu corpo era público, minha dor era pública, será que um lixo como eu merecia o luxo do anonimato?

A vergonha me lascava a garganta. Fazia arder feito fogo o canal por onde gostaria de expressar ao mundo o que sinto. Que inveja tenho daqueles que tem a garganta livre. Que inveja tenho dos que podem gritar ao vento o pranto de seus corações, a alegria de suas almas...Sem que seja amordaçadas por tal gesto. Que inveja de quem consegue abrir a boca sem comer lama.

Nojo. Que nojo tenho de mim por tanta inveja.
Mas encontro na inveja um refúgio. Uma forma irreal de fugir para onde sempre quis estar... Para onde o mundo me disse “não” antes mesmo de eu conseguir perguntar. Que culpa tenho se já me foi negado tudo antes que eu aprendesse a falar? Como podem dizer “não” a quem não faz idéia de como formular uma pergunta?

Invejo. Invejo com todo o orgulho, ou, pelo menos, com o restinho que me deixaram nutrir. Invejo aqueles que tiveram a sorte que me foi expropriada.

Deixo germinar em meu peito. Sei que é uma droga, sei que me trará desgraça a longo prazo. Mas que mais posso fazer? O que é um pingo para quem se encontra enlamaçada?

Me fazia bem para a alma ter essa vaidade. Me sentia igual à tantas outras hipócritas...

Ô vidinha miserável... É tão fácil colocar a culpa em você, mas me dizem que a vida sou eu quem faço. Que a vida não é um garoto piolhento que fica cutucando a gente com um graveto ou pondo uma lupa sob um formiga em dia de sol. Que se existe esse garoto, fui eu que o crei. Mas que outro destino a vida me ofertou além de um errante rumo por entre desilusões?

A vida sou em quem faço? Provavelmente quem escreveu tamanha besteira estava numa poltrona macia. Deliciando-se com uma refeição fina, desfrutando do conforto de um lar. Nunca me foi dada a opção de viver com queria. Simplesmente me cuspiram nesse mundo sem um tostão no bolso (quem me dera possuir uma roupa para ter um bolso) e ainda me dizem “se vive assim, a culpa é sua”. Depois de ouvir essa, não dá para suportar.

Se vive assim, a culpa é sua... O ódio me sobe à garganta com uma velocidade imensurável, desgovernado, sem nada que pareça ser capaz de interromper tal ira. Mas, sim, existe. A raiva é acorrentada em minha língua. Incapaz de ver a luz do dia. Nem o luxo da expressão me foi dado. Democracia tola.

A chuva voltou a cair. Mais forte do que nunca. Cada gota era como uma bala metralhando o meu corpo. Cada gota era um pecado... um crime. Um crime que me parecia perfeito. Cada gota abria um buraco em minha pele. Fazia expor a carne viva, assim como meus pecados. A essa hora, eu era uma massa disforme de lama, gravetos e folhas. A pele descascava, o sangue escorria, os ossos à mostra... Mas que mal fariam mais algumas gotas de chuva para quem já estava encharcada.

RAFAEL NEVES – ESTUDANTE 17 ANOS

domingo, 4 de dezembro de 2011

MORRE O SÓCRATES DO FUTEBOL

Hoje, cinco de dezembro morreu Sócrates. Era chamado de Doutor. Mais por ser um jogador diferenciado que por ser médico. Conciliou as duas atividades, jogava e estudava medicina. Concluiu o curso pela USP.

Sua inteligência e vontade que permitiam a dupla atuação tornaram-no conhecido. Usava-as nos gramados e, segundo especialistas, sua marca mais evidente era fugir completamente da lógica que os caminhos das táticas e técnicas que o futebol reconhecia como "normais".

Pessoalmente, acho que era especialista mesmo no esporte do povo, pois, o que seria apenas um “hobie” transformou-se no centro de sua vida. Fez parte, ainda segundo entendidos, da melhor seleção brasileira da história, a de 1982. Não levou o título e tirou-lhe a justa oportunidade de erguer a taça do titulo do Campeão do Mundo, para que milhões de brasileiros enlouquecessem de alegria.

Sua inteligência não o resumia tão somente a um atleta nem o fez dedicar-se, exclusivamente, a ser professor na Universidade. Engajou-se no que, na sua época, era um dos clamores do seu povo, a aprovação da emenda Dante de Oliveira que legalizaria as eleições diretas no Brasil. A não aprovação tangeu Dr. Sócrates para a Itália, onde jogou pouco tempo na Fiorentina, logo retornando ao país onde nasceu.

Poderia consultar o Google ou perguntar à alguém e logo saberia detalhes da sua vida, entre eles, quando começou a beber, vício que hoje nos faz chorar sua morte. Mas, nada nem ninguém saberia responder-me. Só ele sabia. Certamente, vão fazer milhares de inferências. Não saber lidar com o ostracismo, não ter exercido a medicina, sonho que postergou para mais tarde ou qualquer amargura ou frustração pessoal.

Este motivo morreu com ele. “Achar” agora de nada adianta, embora as pessoas insistam nesta “prazerosa” e irresponsável atividade de ter uma “opinião formada sobre tudo”. A verdade é que a bebida destruiu seu figado e hoje, Dr. Sócrates passou para outra dimensão. Vai estar melhor que aqui? Também jamais saberemos, pelo menos, enquanto aqui estivermos. Se existe alguma existência depois desta também não sei, por que, para mim, a resposta é velada pelas névoas das dúvidas. Haverá algum motivo que ainda não devemos entender.

O perfil psicológico de Dr. Sócrates passava longe de uma personalidade suicida. Lutou para viver, fazia jus ao nome do filósofo grego pela sua personalidade reflexiva, nunca se absteve de participar da vida e difundir seus princìpios, entre eles, a paixão pela Democracia, embora o sofrimento, na minha percepção, pairasse como uma sombra sobre sua face. Teria sido vítima da sua inteligência, do inconformismo de como enxergava a vida, fazendo tudo diferente do que esperavam? Minha impressão também passava longe das marcas, efeito que a bebida provocou no seu corpo que poderia, se bem tratado, possuir a imunidade dos atletas. O vício como qualquer um era apenas a consequência. Os motivos que o levaram a beber até chegar aonde chegou,levou com ele.

Jamais alguém poderá nem deverá “achar” nada.


ALICE ROSSINI