quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

PAIS E FILHOS


Esta é a relação que comanda o mundo. Ela determina tudo que acontece de bom e de ruim com a humanidade. Daí os milhares de caminhos pelos quais podemos abordar este assunto. Principalmente quando a pretensão de analisá-la origina-se na vontade de uma mulher, mãe, portanto, emocionalmente comprometida e sem contar com a fundamentação da ciência que daria preciosa contribuição para o assunto. Fragmentos da sua história e muita emoção poderão ou não, ajudá-la a dissertar sobre o tema.

Quando resolvemos povoar o mundo mal sabemos o tamanho do compromisso que estamos assumindo com a vida. Co-participar na construção de uma pessoa não só pressupõe uma responsabilidade pela qualidade da humanidade e com o Planeta como obriga-nos a rever prioridades, reavaliar valores e a fortalecer princípios.

Reconhecer nossa condição de falíveis, quando jovens, é demonstrar um nível raro de maturidade. Ainda nos arvoramos críticos rigorosos do mundo e personificamos este rigor nos nossos pais. A personagem "filho" ainda não se despregou do “jovem rebelde e questionador”. É um papel que teimamos em não libertar-nos porque cômodo.

A maternidade como uma experiência intransferível exigiu da ciência muito esforço nas inúmeras tentativas para desvendar do desenvolvimento humano. Muitos manuais onde o certo e o errado fundamentam-se em teorias científicas, na hora de colocá-las em prática contam com um fator que torna tudo relativo: a diversidade humana.

Assumimos o risco de gestar um “ilustríssimo desconhecido” e nos envolvemos com o maior e mais incondicional sentimento amoroso que um ser humano pode sentir pelo outro.
Engravidou? Nove meses depois estará frente a frente com a pessoa mais importante da sua vida. Não vou falar desta primeira fase porque minha intenção não se fixa aí, embora não desconheça a importância das circunstâncias e de determinados cuidados com a criança, futuro adulto.
Pessoalmente, acho que a vida é longa para que se lance um olhar compreensivo e menos apaixonado sobre quaisquer fatos das nossas existências, em todas as fases. Tudo depende do dono da história.

Um fato sobre o qual já refleti é que a maioria das nossas ações, “aquelas decisões” que você tem que tomar entre um almoço e uma saída apressada para o trabalho, são movidas por instinto, baseadas na emoção, em circunstâncias pessoais e momentâneas. O que pode ser desastroso.
Assim o tempo vai passando e aquela pessoinha continua ali, crescendo, amadurecendo num ritmo próprio e vai “lendo” suas ações, das intempestivas às refletidas, do jeito que suas cabecinhas simples ou complicadas, vão lhe permitido.

Mal entram na adolescência e já começam as dúvidas em relação à profissão. Saber aos 18 anos, o que gostará de estar fazendo aos 40... Crueldade! Entre omitir-se em nome da liberalidade e opinar, esclarecer sobre mercados de trabalho, reconhecer aptidões e limites, reconheço, é difícil. Quem quer assumir o ônus de, mais tarde, ter participado de uma decisão equivocada?
Não pensem os filhos, como um dia pensei que intervir, opinar ou omitir-se é fácil. É procedimento de risco, mas faz parte dos “ossos do ofício” de quem se propôs a ser pai. Hoje, eu imagino as angústias que os meus experimentaram até que eu desse, baseada nas frágeis convicções dos meus 17anos, meu veredicto final.

Mas filhos crescem, escolhem profissões, parceiros e caminhos, independente das nossas vontades. Tanto acertam quanto erram, é um direito deles. Agora, só podemos apoiá-los.

Quanto a eles, enquanto não libertarem-se das “feridas” que um dia os machucaram, usarão do mecanismo da atribuição para isentar-se da responsabilidade de ser quem são. Temos que ter paciência e entendê-los. Como nós, superarão esta fase.

Não estou sentenciando que o relacionamento entre pais e filhos seja pontuado de julgamentos, de culpados e de inocentes. Ao contrário, acho que cada um deve ser responsável pela sua cabeça, pela visão e sentimentos que possuem dos fatos que a vida lhe impôs. Enxergar com justiça e generosidade a atuação dos coadjuvantes da sua história, pais, irmãos, avós, amigos. Ou seja, chega a hora em que você cura suas feridas, descobre que algumas transformaram-se em cicatrizes que ao lhe machucarem, também lhe amadureceram e lhe adensaram como ser humano, preparando-lhe para dar continuidade ao ciclo da existência.

E este processo começa por isentar-se do papel de juiz dos pecadilhos, pecados e “pecadões” que lhes vitimaram, pois em breve, estarão com os holofotes implacáveis da vida, iluminando tudo de “certo” e “errado” que você, na sua condição humana, tem o direito de agregar à sua história.

ALICE ROSSINI

8 comentários:

Anônimo disse...

Cara Alice (ih, desculpe o cacófato)
Sempre que leio alguma coisa sobre materninidade e geração de filhos ("filhos, melhor não tê-los, mas, se não tê-los, como sabê-los", acho que foi Vinícius de Morais quem escreveu isso ou algo parecido)não consigo deixar de lembrar de uma história que contam envolvendo o dramaturgo Bernard Shaw e a também inglesa dançarina Sarah Bernardt. Consta que a divina e bela Sarah escreveu ao grande e mordaz dramaturgo Shaw sugerindo que os dois concebessem um filho, que fosse o resultado da beleza dela com a inteligência dele. Shaw teria respondido a Sarah que não aceitava a sugestão, pois temia que acontecesse o oposto do desejado, ou seja, que o rebento viesse ao mundo com a beleza dele (tinha aspecto rude, sujo e feioso) e com a inteligência dela...
Filhos, criam-se para o mundo, e o resultado não se projeta, resta orientar e torcer para que tudo dê certo...
Parabéns, mais uma vez, pelo brilhante e sensível texto.
Sérgio Gomes

Fernando Trovador disse...

Alice:

Filhos...esses tao amados desconhecidos! Consentidos, tolerados, permitidos, mas sempre, sempre fascinantes em suas descobertas da vida, como se eles nao tivessem quem os guie nas 24 horas que tem o dia!
VIVO meus filhos com senso de observacao e aprendizado, mas neste momento, me questiono sobre o prazer de ter netos!

Lindo texto o teu, alias como sempre!

Penha Castro disse...

Alice,

Este texto fala de perto a cada um de nós. Filhos ou pais, estas questões estão sempre em pauta. Voce, mesmo "achando" que não tem subsidios técnicos para analisar a relação entre pais e filhos, tem vivência e sensibilidade.

E, por incrível que pareça, estes dois pressupostos são imprescindíveis para que esta relação, tão delicada, seja gratificante.

Mais uma vez, parabéns

Vitória Régia disse...

Nem se preocupe que seu texto não prega clima de julgamentos e culpas. Pelo contrário, isenta os filhos quanto aos seus arroubos juvenis e, de alguma forma, prega que todos cresçam, amadureçam e responsabilizem-se pelas próprias vidas e como viveciaram suas histórias.

Aparecida Matos disse...

Alice,

Voce, com sua sensiblidade de mulher e mãe analisou a importância da paternidade de forma primorosa. Foi no ponto x da questão. Quantos vivem rangendo dentes, pagando terapias que nunca terminam para descobrir o obvio? Todos que um dia tiverem a ousadia de procriar vão errar. Todos foram filhos, portanto "vitimas" de erros de pais ausentes e, principalmente, dos presentes. O tempo e a vida encarregam-se de mostrar que erar é humano. Ninguem pense que a vida é presente, a vida é aprendizado.

Voce atingiu seu objetivo de ser simples e emocionada. Eu lhe digo que foi brilhante.

Parabéns

Anônimo disse...

QUANTAS BOBAGENS NÃO FAZEMOSS POR NÃO ENTENDERMOS, TANTO NOSSOS PAIS QUANTO NOSSOS FILHOS. SÓ O TEMPO, A MATURIDADE E A HUMILDADE SÃO CAPAZES DE FAZERMOS JUSTIÇA.

QUANTO AOS PAIS, SEMPRE BEM INTENCIONADOS MAS, TÃO HUMANOS QUANTO NÓS.

PENA QUE ESTE PROCESSO SO ACONTECE QUANDO JA NÃO EXISTEM POSSIBILIDADES DE PERDOAR-NOS, SE É QUE ISTO SEJA REALMENTE NECESSARIO

EXCELENTE TEXTO. CONFESSO QUE FIQUEI ABALADO

IZABEL disse...

Alice,

diante deste texto e sendo testemunha da sua trajetória no “papel de mãe”, entendo e acolho tudo o que você escreveu.

Tenha certeza que você deu os “seus 100%” que era possível em todos os momentos de seus filhos – e é por isso que hoje você colhe todos os “louros”! E veja que ainda é solicitada por mim... rsrsrsrsrsrsrsrs

Irmã, eu só tenho a dizer que te admiro muito... É uma guerreira!

Bem, concluo o seguinte: “é melhor errarmos juntos do que estarmos distantes... Omissos, com os nossos filhos” – você entende esta “metáfora”, não é?

Beijinhos,

Bel

Ricardo Farias disse...

ALICE, VOCE COM SUA SENSIBILIDADE CAPTOU MUITAS DAS RAZÕES DAS NOSSAS ANGUSTIAS. QUESTÕES QUE NA INFANCIA TEM UMA "CARA", SÃO ESCONDIDAS QUANDO CRIANÇAS E O ADULTO SOFRE E FAZ SOFRER POR FATOS QUE NÃO PASSAM DE MAL ENTENDIDOS, IMPULSOS, RAZÕES QUE NA ÉPOCA NÃO TINHAMOS CAPACIDADE DE ENTENDER.

SEU TEXTO ME FEZ FAZER UMA VIAGEM AO PASSADO E TANTO PERDOEI A MIM QUANTO ÀS PESSOAS, QUE ACHAVA, ERAM AS CAUSAS DOS MEUS PROBLEMAS.

PARABENS