terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

SACANAGEM COM SHERLOCK HOLMES

Em toda a minha vida só havia saído do cinema, antes do filme terminar, uma única vez.
Mesmo quando os filmes não me agradam, no começo, até o meio, ou perto do fim, vou agüentando, sempre na expectativa de que todo aquele dinheiro gasto com celulóide melhore.
Como se pode notar, sou um sujeito tolerante...
Prefiro não dizer qual foi o filme do qual pela primeira vez me evadi, mas adianto que era nacional e baseado na obra de um escritor baiano que anda envolvido em polêmica atual sobre a Baía de Todos os Santos e uma das suas ilhas...
Não haveria mesmo polícia, cabo ou sargento que me segurasse naquela sala de projeção para assistir a filme tão ruim- nada tenho, porém, nem a favor nem contra a obra literária na qual o filme se baseou, logo adianto.
No sábado passado me retirei pela segunda vez, e confesso que saí indignado do complexo de cinemas aonde fui assistir ao badalado Sherlock Holmes.
Na verdade tinha ido ao cinema para ver o que haviam feito com os formidáveis US$ 500 milhões gastos na produção da ficção Avatar, em 3D, mas a última sessão do dia já estava esgotada e não pude ver.
Ao invés de ir tomar um chope, comprar alguma bugiganga no shopping -ou mesmo voltar para casa- fui ver o novo filme sobre o lendário detetive criado pelo genial escritor escocês, e não inglês, como muitos pensam, Arthur Conan Doyle.
É como se diz: se arrependimento matasse eu agora estaria sepultado num buraco coberto por pipocas. Desculpem-me a tosca expressão, mas tenho que dizer: fizeram com Doyle, Sherlock, com o Dr. Watson, e com Londres, uma puta e vil sacanagem.
Só quem não leu todas as aventuras da dupla Holmes e Watson – como fizeram milhões de pessoas em todo o mundo ao longo de gerações- pode assistir ao filme sem indignar-se e sem abandonar a platéia.
Da mesma forma, há de pensar assim quem assistiu a dezenas de filmes sobre o detetive, principalmente aqueles em que o ator Basil Rathbone encarnou Sherlock, com a capa, o estranho chapéu quadriculado, e sempre portando o cachimbo curvo, caracterizações tão marcantes que fazem muitos acreditarem que a personagem foi real e habitou o venerável apartamento de Baker Street 221-B, em Londres.
O diretor deste Sherlock tão dessemelhante, Guy Ritchie, cometeu a heresia de repaginar o detetive e também o seu fiel escudeiro, o Dr. Watson, transformando o ascético, organizado, sagaz e sarcástico solteirão inglês numa figura dark e suja, com barba por fazer, e até capaz de levar tabefes de um Watson que perde o seu encanto – a ingenuidade e o temor reverencial diante do gênio dedutivo brilhante do companheiro...
A sacanagem com a cidade de Londres vitoriana também é imperdoável. A capital britânica, já altamente urbana, civilizada e organizada no final do século XIX, é retratada como uma imunda e caótica cidade medieval, onde o elegante endereço de Baker Street aparece situado em meio à imundície de uma feira ao ar livre. Arre!
Perdida a essência da dupla criada por Sir Arthur Conan Doyle, o diretor Ritchie, cujo ponto alto do currículo é o fato de ter sido casado com a cantora Madonna, desconstrói o que outros diretores ingleses, como Roy William Neil, aperfeiçoaram com sensibilidade em cima da criação imorredoura do escocês.
Além de descaracterizar completamente os personagens, Ritchie dirige um filme de narrativa cinematográfica muito ruim, chato, monocórdio e arrastado, servindo-se, mais de uma vez, do vôo e do grasnar de uma gralha, para acordar e assustar a platéia, com a indispensável ajuda do som dolby estéreo.
Como castigo, esse diretor deveria ser preso numa masmorra londrina e depois levado ao cadafalso, onde o médico Watson compareceria para atestar a morte como diretor cinematográfico, enquanto Holmes estaria alheio ao destino de Ritchie, mantendo-se recluso e drogado no apartamento de Baker Street, para aflição da sua senhoria, o que era hábito seu quando estava sem trabalho e sucumbia em mais uma das suas constantes depressões...
A minha parte nesse enredo eu fiz em solidariedade a Holmes, Watson e Doyle. Na metade do filme me levantei, sai tateando no escuro, e resmunguei:
- Esse filho da puta!

SÉRGIO GOMES - jornalista

9 comentários:

Marco Rossini disse...

Serginho,

ainda bem que li sua crítica a tempo. vou lhe confessar uma coisa. eu tambem tenho um filme em meu currículo de cinéfilo que sai do cinema na metade. muita gente vai achar estranho, mas o que não consegui passar da metade foi Guerra nas Estrelas. Acho que não tive sensibilidade suficiente para perceber a profundidade e a velha ¨mensagem¨ explicita na fita.

Fernando Trovador disse...

Sergio

Agora talvez de para entender porque a Madonna, mulher que notavelmente nao admite gente mediocre ao redor dela, se separou desse cara. Alem disso, houve um burburinho pre estreia mundial porque o ator que da vida ao personagem S. Holmes, deu a entender que Ritchie havia dado uma conotacao gay aos dois amigos Sherlock e Watson. Tambem achei o filme muito "dark" e completamente fora do clima tao bem engendrado por Sir Arthur.
Em tempo, se a mior parte dos criticos de cinema do nosso pais nao recebessem constantemente propininhas aqui e ali para falar deste ou daquele filme, e fossem claros como voce, talvez nos, simples mortais, pudessemos mal gastar menos o nosso dinheirinho e o nosso tempo em filmes inuteis.

Fernando Trovador

Fernando Trovador disse...

Marcos

Guerra nas Estrelas e um caso diferente de um genero de filme que so agrada a uma faixa especifica de pessoas apaixonadas pela ficcao cientifica e os mais modernos gadgets tecnologicos. Exatamente como AVATAR que, para mim e um poema da ficcao cientifica e para minha irma e uma porcaria sem nexo! Ja eu achei American Beauty um lixo e no entanto ganhou um montao de premios. Estilos sao estilos. S. Holmes e um icono da literatura de aventura. Uma obra prima limpa e inexpugnavel acima de qualquer suspeita. Nao se deve permitir que um idiota rico por heranca e sem direito mas metido a produtor de cinema, deturpe uma obra dessa natureza.
Sera que esse tambem faz filmes autobiograficos sobre pessoas vivas sob encomenda?

Fernando Trovador

Alice Rossini disse...

Não vou comentar a estrutura do seu texto porque, como eu, voce sabe que dispensa comentários; limpa, moderna e clara.

Não sssisti ao filme, pois fui desestimulada por meu filho, cinéfilo de carteirinha. Fazer filmes com base em histórias ja escritas ou de mitos como o de Sherlock Holmes que ja criou uma imagem e uma identidade com o publico que o le é muito perigoso.

Se voce simplesmente conta a história baseada num olhar mais convencional, não cumpre um dos papeis da arte que é o de renovar. Se tenta fazer uma releitura mais ousada e audaciosa, há que mergulhar em todos os meandros das personagens, estudar suas estruturas psicológicas e só mexer naquelas que não os desconstrua. Isso é difícil, dá trabalho e é muito feito em teatro.

Depois da sua opinião, ja reforçada com a do meu filho, vou comer pipocas em outras salas...

Luiz Augusto Vaz disse...

Tendo chegado em 1975 em nossa capital,que me lembre,fui uma vez ao cinema.Qual o motivo da minha falta de motivação para gastar uma entrada de Cinema? Filmes brasileiros, não alinharia cinco que tenha achado dígnos da 7ª Arte. Palavrões,sexo,tiro,traição para não falar das M.......das mais recentes como LULA FILHO do BRASil.

Gostava de cinema quando a Califôrnia nos mandava classicos como E O VENTO LEVOU,BEN HUR.CASA BLANCA,QUO VADIS,películas que nos faziam sonhar e saborear a arte .Os estudios eram dotados de diretores competentes,astros e estrelas de peso.Hoje,produções pobres com artistas sem charme.

Tenho perto de 300 DVDS de filmes que podem ser chamados de filmes.A arte de hoje é feita por gente que pensa que entende da coisa.Não dá para sair de casa,gastando dinheiro e tempo para ver porcaria.

Ricardo Farias disse...

FUI ASSISTIR SHERLOK E SAI INDIGNADO. TENHO CERTEZA QUE SE ESSE CARA LEU ALGUMA COISA SOBRE A PESONAGEM-MITO, QUIS, COMO DIZ SERGIO, SACANEAR. SE NÃO LEU É UM DESSES ESTUPIDOS "TIRADOS" A VANGUARDISTA QUE NÃO TEM A MENOR IDEIA DE COMO SE FAZ UMA RELEITURA MODERNA DE UMA HISTÓRIA OU DE UM MITO. TOMARA QUE ELE NÃO INVENTE LER HAMLET!

Penha Castro disse...

Pretendia matar o tempo no Carnaval assistindo Sherlock Holmes. Mas, diante de uma argumentação tão bem fundamentada não recomendando, desisti.

Obrigada pela dica

Amanda disse...

Sergio,

Ainda bem que tenho companhia. Também detestei o filme. Fiquei tão indignada quanto voce. Como é que alguem pega uma obra prima, com personagens que transformaram-se em mitos e até em bordões: quando alguem quer investigar algo diz que quer "dá uma um SHERLOCK HOLMES", e faz uma porcaria daquelas? Não fiz a mesma coisa que voce porque estava acompanhada de amigos que adoraram o filme. Tem gosto pra tudo!

Cecíla Fraga disse...

E agora? Que farei hoje á tarde? Vou procurar outro filme porque voce ja é a segunda pessoa que fala mal desse