Quem nunca pediu a Deus um dia, ou até menos, para ficar morto? Calma! Guardem as forcas e o veneno de barata! Não falo de suicídio, mas de tirar um dia para vegetar por 24 horas. Deitar numa cama e ficar olhando para o teto... Só reparando cada mínima imperfeição do piso, os pequenos detalhes do travesseiro e todas aquelas coisas inúteis que, por motivos óbvios, não prestamos atenção no dia a dia.
É quando a nossa cabeça está prestes a explodir que imploramos aos céus que façam desse dia abençoado um presente de aniversário. Um bocado de gente desconhecida gritando no seu ouvido e cobrando uma pilha de documentos, dezenas de outras marcando horário retoricamente e outras centenas, que nem o nome você sabe, lhe ordenando fazer coisas que você não faz idéia de como foram parar em sua vida... Tem mesmo que ter uma hora de dizer “CHEGA!”. Uma válvula de escape ligeiramente grosseira, mas conveniente
E é ai que, após ter se levantado ao som do despertador, que você volta ao quarto e contempla a sua cama. Aquele travesseiro macio feito uma nuvem, aquele colchão tentador, o ar condicionado ainda ligado... Quase como uma droga, lhe puxando para mais cinco minutinhos que logo se transformarão em sessenta. E mesmo com mil e uma amarras lhe puxando para aquele santuário de panos, algodão e molas, é preciso dar aquele basta. Dizer não e se virar de costas desejando poder ter dito sim.
É por estas e outras que invejamos os cadáveres. Tudo bem que não tem o que fazer, mas às vezes ter o que fazer é justamente o problema! É claro que um caixão pode não ser uma cama, mas se tem quem durma em pé em um ônibus lotado, há quem se ache uma Bela Adormecida em um cantinho debaixo da terra.
RAFAEL NEVES, estudante
o cotidiano e suas contradições, descrito e compartilhado - Blog inaugurado em 18 de fevereiro de 2 009 - ANO VIII
sexta-feira, 15 de abril de 2011
quarta-feira, 6 de abril de 2011
O SAGRADO DIREITO DE ESCOLHA
Viajar é uma das atividades mais educativas que existe. Aliás, devíamos ter o hábito de levar conosco nossos filhos para além das cidades onde moramos, pois, assim como acontece com os adultos, guardadas as devidas proporções, o mundo também se alarga para as crianças e a chance de contato com o diverso, o diferente e o inusitado forma cabeças arejadas, livres de preconceitos e receptivas a tudo que é novo.
Acabo de chegar de uma viagem de onze dias de navio. Me acompanharam pessoas de 56 nacionalidades. Uma pequena amostra do planeta, já que todos os continentes estavam ali representados.
Além de usufruir das “mordomias” que transatlânticos colocam à disposição dos passageiros para que não se entediem, olhei e vi muito. Contemplei as pessoas, suas formas de expressar-se que vão além das variedades de vestirem-se, hábitos alimentares até as maneiras que usam para preencher seu cotidiano. Mais uma vez me conscientizei que as diferenças humanas são reais e nada nos resta senão aceitá-las e entendê-las, enquanto não firam nossas singularidades.
Uma forte evidência, também notada em Roma e em Veneza, é que as pessoas não mais se preocupam em formar casais do mesmo sexo. Não vou entrar no mérito da questão por princípio. Esta é uma questão individual. Mas, está havendo alguma mudança nos conceitos de liberdade do ser humano que está lhes permitindo relacionar-se com quem quiserem e da forma que lhes dê mais prazer e felicidade.
Ao retornar ao Brasil tomo conhecimento da declaração de um parlamentar, um representante do povo no Congresso Nacional que se deu ao desplante, à falta de pudor e de respeito de mostrar, para uma nação, com dimensões continentais, o quanto seu mundo é estreito. Esta pessoa vota projetos de interesse nacional, tem um salário que vale por dezenas de trabalhadores e, se tem assento na casa do povo, deve ser alfabetizado, portanto, não lhe é dado o direito de desconhecer as leis do pais, onde é pago para legislar. Em que pese minha crença no direito do deputado falar o que bem entender, afinal vivemos numa democracia, é com base neste princípio que sinto-me livre para criticá-lo.
Mas, são atitudes como estas que propiciam manifestações coletivas que ferem direitos individuais, garantidos pela Constituição do país. Num jogo de volei, sempre que determinado jogador pegava na bola, parte da tocida do Cruzeiro, numa atitude cruel e desumana, gritava ensandecida o termo "bicha", por ser o atleta homosexual. Neste caso, em particular, quem fere a democracia é uma maioria estúpida e preconceituosa.
Enquanto, em Roma, presenciamos manifestações de um povo participativo nas praças e, mais que isto, a respeitosa indiferença pelo que poderia, num país de incultos, causar estranheza pelos casais e pessoas que fujam aos padrões estabelecidos.
Foi emocionante ver aqueles monumentos seculares, a exemplo do Coliseu, meca da intolerância e da violência, testemunhar silenciosa e majestosamente pessoas se agruparem do jeito que quiserem, se amarem e se respeitarem transcendendo conceitos superados de raça e sexo.
Seria recomendável que o “nobre” deputado reservasse uma parte da sua vultuosa “mesada” e mandasse seus filhos viajarem pelo mundo, já que para ele só resta viver sob a sombra do atraso.
ALICE ROSSINI
Acabo de chegar de uma viagem de onze dias de navio. Me acompanharam pessoas de 56 nacionalidades. Uma pequena amostra do planeta, já que todos os continentes estavam ali representados.
Além de usufruir das “mordomias” que transatlânticos colocam à disposição dos passageiros para que não se entediem, olhei e vi muito. Contemplei as pessoas, suas formas de expressar-se que vão além das variedades de vestirem-se, hábitos alimentares até as maneiras que usam para preencher seu cotidiano. Mais uma vez me conscientizei que as diferenças humanas são reais e nada nos resta senão aceitá-las e entendê-las, enquanto não firam nossas singularidades.
Uma forte evidência, também notada em Roma e em Veneza, é que as pessoas não mais se preocupam em formar casais do mesmo sexo. Não vou entrar no mérito da questão por princípio. Esta é uma questão individual. Mas, está havendo alguma mudança nos conceitos de liberdade do ser humano que está lhes permitindo relacionar-se com quem quiserem e da forma que lhes dê mais prazer e felicidade.
Ao retornar ao Brasil tomo conhecimento da declaração de um parlamentar, um representante do povo no Congresso Nacional que se deu ao desplante, à falta de pudor e de respeito de mostrar, para uma nação, com dimensões continentais, o quanto seu mundo é estreito. Esta pessoa vota projetos de interesse nacional, tem um salário que vale por dezenas de trabalhadores e, se tem assento na casa do povo, deve ser alfabetizado, portanto, não lhe é dado o direito de desconhecer as leis do pais, onde é pago para legislar. Em que pese minha crença no direito do deputado falar o que bem entender, afinal vivemos numa democracia, é com base neste princípio que sinto-me livre para criticá-lo.
Mas, são atitudes como estas que propiciam manifestações coletivas que ferem direitos individuais, garantidos pela Constituição do país. Num jogo de volei, sempre que determinado jogador pegava na bola, parte da tocida do Cruzeiro, numa atitude cruel e desumana, gritava ensandecida o termo "bicha", por ser o atleta homosexual. Neste caso, em particular, quem fere a democracia é uma maioria estúpida e preconceituosa.
Enquanto, em Roma, presenciamos manifestações de um povo participativo nas praças e, mais que isto, a respeitosa indiferença pelo que poderia, num país de incultos, causar estranheza pelos casais e pessoas que fujam aos padrões estabelecidos.
Foi emocionante ver aqueles monumentos seculares, a exemplo do Coliseu, meca da intolerância e da violência, testemunhar silenciosa e majestosamente pessoas se agruparem do jeito que quiserem, se amarem e se respeitarem transcendendo conceitos superados de raça e sexo.
Seria recomendável que o “nobre” deputado reservasse uma parte da sua vultuosa “mesada” e mandasse seus filhos viajarem pelo mundo, já que para ele só resta viver sob a sombra do atraso.
ALICE ROSSINI
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
EDITORIAL - ANO III
Durante o ano de 2010 a possibilidade de Vida depois da Morte foi objeto de uma curiosidade manifesta e registrada não só pelo Cinema, pela Literatura como também, pela Televisão. Este fenômeno gerou muitas discussões e, claro, várias e inquietantes reflexões.
Este Blog, no seu terceiro ano de vida que hoje celebra, teria muitos motivos para debruçar-se sobre o assunto. Sua editora debate-se entre dúvidas atrozes, ao tempo em que cultiva um desejo, motivado por uma saudade que não cessa, da Musa que inspirou a data do seu nascimento e, em sua homenagem, o esforço de mantê-lo vivo, soa como uma metáfora - Saudades de KILMA e um possível reencontro nas estrelas. Um sonho, apenas um sonho...
Como não tenho pretensões de resolver a questão de outras existências, da imortalidade, ou não, a “sobrevivência” depois da morte física é mantida, simbolicamente, através da não concessão aos princípios que nortearam este BLOG na sua origem. É tambem embasado, na certeza que KILMA deles compartilhava, o que só o fortalece: a defesa da LIBERDADE, o NÃO a qualquer tipo de preconceito, o compromisso com a VERDADE e o amor inabalável à VIDA - qualquer vida.
A fidelidade a estes princípios, além de fortalecê-lo, homenageia uma das maiores virtudes de KILMA: a TOLERÂNCIA.
O VERSO&REVERSO, como qualquer outro instrumento midiático, pode ainda comemorar muitos anos de vida, independente da existência de quem o edita. Assim como continuamos a viver através das alegres lembranças e doces recordações de KILMA, que este BLOG tenha a sorte de encontrar quem o acolha, independente do existir de quem o concebeu.
Que seja adotado, principalmente por ser pequeno e despretensioso, pela tentativa quase infantil de imortalizar quem o inspirou ou por ser refúgio para quem o criou. Mais ainda, pelo que representa para tantas pessoas: amigas generosas, conhecidas, simplesmente, através de seus nomes já tão familiares. E, àquele leitor anônimo uma enorme gratidão pelo crédito silencioso.
Obrigada aos seus colaboradores, aos que o ajudam a cometer menos erros e sacrilégios contra o que, filósofos e pensadores que já comprovaram suas teorias, tantas vezes aqui, teimosamente ignoradas ou, sempre que possível, usufruir da comodidade dos seus respaldos científicos
Vida longa ao VERSO&REVERSO! Que acompanhe o rastro de luz deixado por KILMA que hoje completa – este é o tempo do verbo – 47 anos, se ainda iluminasse nossas vidas nesta dimensão. Dentre os defeitos e virtudes que enriquecem a singularidade da sua personalidade ela também deixou registros de lindos poemas. Este, que tenho a honra de postar, é mais uma tentativa de “dar voz” a quem deveria estar entre nós:
DISSECAÇÃO DA PAZ
Um tempo esquecido
Um sorriso acordado
Um canto calado
de paz acabada
que volta e que vai
que veio e voltou
porque fica, e eu vou.
Deixando pra trás
aquilo que agora
me faz recordar
a paz esquecida
achada e perdida
que hei de encontrar
Kilma Mattos
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
"A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DE SER”
Em todas as fases da vida: infância, juventude, maturidade e velhice, o homem, principalmente, perde mais do que ganha. Exceto no nascimento, começo de tudo - o sopro da vida é uma dádiva. Questionável, pois, a partir do momento que nascemos, iniciamos nossa inexorável caminhada para a morte. Uma visão realista, do roteiro assumido, mas nem por isto amarga.
Na infância, em todas as culturas do mundo, dito civilizado ou onde valores humanitários são cultuados, uma boa parte das crianças tem a prerrogativa de ser protegida dos percalços da vida. São poupadas de milhares de formas, até de caírem quando começam a dar os primeiros passos. Nesta fase, temos pressa em envelhecer. Justo quando a vida ainda não aconteceu, quando tudo é possível, quando acreditamos em fadas e duendes, quando acreditamos em mitos e heróis, os bons ou os maus e queremos que o tempo passe e acelere seu próprio ritmo.
Desde que nascemos, nosso futuro está sendo esboçado nos eternos “agoras” do nosso existir e, quem sabe, o que chamam de livre arbítrio não seja uma espécie de álibi com o qual justificamos nossos desfechos? Não que ache que não somos responsáveis por nós mesmos, mas nossas escolhas sofrem tantas interferências alheias às nossas vontades, que nossa força ao tê-las feito, relativiza-se.
Quando jovens, a rebeldia santa e cheia de certezas é acompanhada de uma vontade reincidente e insana de tudo questionar e de achar verossímil toda e qualquer possibilidade de mudar o mundo para o que julgamos melhor, sob o aval de uma ingenuidade primal. Apaixonamo-nos pelo amor, e por acharmos que é recíproco, cremos que jamais seremos feridos por ele.
Mas o tempo possui sua força transformadora e, afogados nesta provável metamorfose, que muitos chamam de maturidade, sensatez ou equilíbrio, grande parte perde-se de si próprios. Fatos nos ensinam que nada é branco nem preto e que o cinza é a regra. Verão não é sinônimo de céu azul, nem o outono pretende ser somente uma estação, onde as folhas amarelam e caem. Sofremos a síndrome das folhas secas e ficamos à mercê dos caprichos dos ventos. Como nem sempre depois da tempestade vem a bonança vamos, aos poucos, perdendo a ingenuidade e substituindo as crenças.
Repentinamente, descobrimos a fuga da criança que achávamos, continuaria colada na melhor parte de nós. Deixou-nos sem a leveza que sabe que a escuridão é passageira, a qualquer momento as luzes se acendem e nos mostram que estamos em lugares que têm perigos e também esconderijos salvadores.
Perdemos a inocência e a ingenuidade a acompanha. Nossa maior perda existencial, pois com ela esvaiu-se, salvo uma lucidez insana, que a vida pode, de vez em quando, ser leve e cristalina.
E nem sabemos quando, nem como, isto acontece.
Como algumas vezes não temos controle de nós, o peso das certezas nos sufoca, as maldades aprisionadoras nos assaltam e achamos que, repentinamente, de pássaros livres nos transformamos em seres engaiolados e cheios de medos.
Achando que duvidar é sinal de ignorância e garantia de quem perdeu o rumo; voltar atrás sintoma de insegurança; sorrir mal dos alienados; enganar-se sinônimo de ignorância; ser introvertido e contemplativo prerrogativa de desocupado, desejar ser ganancioso e não desejar fracassado.
Só vejo criança pular muros, desobedecer a regras que acha absurda, falar com desconhecidos, pedir desculpas, chorar e sorrir muito.
Talvez por isto, muitas ainda sejam leves e sintam-se felizes.
ALICE ROSSINI
Na infância, em todas as culturas do mundo, dito civilizado ou onde valores humanitários são cultuados, uma boa parte das crianças tem a prerrogativa de ser protegida dos percalços da vida. São poupadas de milhares de formas, até de caírem quando começam a dar os primeiros passos. Nesta fase, temos pressa em envelhecer. Justo quando a vida ainda não aconteceu, quando tudo é possível, quando acreditamos em fadas e duendes, quando acreditamos em mitos e heróis, os bons ou os maus e queremos que o tempo passe e acelere seu próprio ritmo.
Desde que nascemos, nosso futuro está sendo esboçado nos eternos “agoras” do nosso existir e, quem sabe, o que chamam de livre arbítrio não seja uma espécie de álibi com o qual justificamos nossos desfechos? Não que ache que não somos responsáveis por nós mesmos, mas nossas escolhas sofrem tantas interferências alheias às nossas vontades, que nossa força ao tê-las feito, relativiza-se.
Quando jovens, a rebeldia santa e cheia de certezas é acompanhada de uma vontade reincidente e insana de tudo questionar e de achar verossímil toda e qualquer possibilidade de mudar o mundo para o que julgamos melhor, sob o aval de uma ingenuidade primal. Apaixonamo-nos pelo amor, e por acharmos que é recíproco, cremos que jamais seremos feridos por ele.
Mas o tempo possui sua força transformadora e, afogados nesta provável metamorfose, que muitos chamam de maturidade, sensatez ou equilíbrio, grande parte perde-se de si próprios. Fatos nos ensinam que nada é branco nem preto e que o cinza é a regra. Verão não é sinônimo de céu azul, nem o outono pretende ser somente uma estação, onde as folhas amarelam e caem. Sofremos a síndrome das folhas secas e ficamos à mercê dos caprichos dos ventos. Como nem sempre depois da tempestade vem a bonança vamos, aos poucos, perdendo a ingenuidade e substituindo as crenças.
Repentinamente, descobrimos a fuga da criança que achávamos, continuaria colada na melhor parte de nós. Deixou-nos sem a leveza que sabe que a escuridão é passageira, a qualquer momento as luzes se acendem e nos mostram que estamos em lugares que têm perigos e também esconderijos salvadores.
Perdemos a inocência e a ingenuidade a acompanha. Nossa maior perda existencial, pois com ela esvaiu-se, salvo uma lucidez insana, que a vida pode, de vez em quando, ser leve e cristalina.
E nem sabemos quando, nem como, isto acontece.
Como algumas vezes não temos controle de nós, o peso das certezas nos sufoca, as maldades aprisionadoras nos assaltam e achamos que, repentinamente, de pássaros livres nos transformamos em seres engaiolados e cheios de medos.
Achando que duvidar é sinal de ignorância e garantia de quem perdeu o rumo; voltar atrás sintoma de insegurança; sorrir mal dos alienados; enganar-se sinônimo de ignorância; ser introvertido e contemplativo prerrogativa de desocupado, desejar ser ganancioso e não desejar fracassado.
Só vejo criança pular muros, desobedecer a regras que acha absurda, falar com desconhecidos, pedir desculpas, chorar e sorrir muito.
Talvez por isto, muitas ainda sejam leves e sintam-se felizes.
ALICE ROSSINI
domingo, 6 de fevereiro de 2011
FELICIDADE FABRICADA
Chegou o verão. Ninguém, minimamente equilibrado, deixa de festejar a chegada da estação do sol. Embora, no sudeste e no sul, a água tenha sido a protagonista principal, ceifando vidas, mudando a geografia e apagando a memória das familias pela destruição de suas casas, deixando rastros fragmentados de passado. A natureza em fúria cobrando sua fatura. A Bahia, especificamente, Salvador, é poupada da força destruidora das águas e ai de quem não ficar eufórico, não estiver bronzeado pelos raios solares, com qualquer teor de malignidade para a saúde, ou de quem não tiver um bom motivo que consiga superar a euforia contagiante do carnaval e das festas que o precedem.
Os que não se inserem no “Bloco do prazer” são os sacrílegos. Os eremitas, os anti-sociais, os que deixam a vida passar. São os que não valorizam a alegria e desconhecem as inúmeras formas de reverenciá-la. Assim como os que não adotam os parâmetros oficialmente reconhecidos de como é o “jeito certo de ser feliz” e como "saber divertir-se", rotulam os que vivem suas vidas de forma independente, pessoal, mais crítica ou reflexiva, como “pessoas de mal com a vida”. Inferências impregnadas de preconceito, ignorância e falta de consciência do quanto as diferenças entre os seres são necessárias.
A qualquer desatenção, a diversão vira uma regra pétrea. Enquanto a normalidade, a rotina apaziguadora do sentar-se à mesa com a família e compartilhar um prato de sopa ou diante do computador e enviar mensagens aos amigos, o fechar a porta do quarto e ir mais cedo para o aconchego de suas camas, tornam-se ações carregadas com o peso da obrigação, com o gosto amargo dos remédios, com o cheiro do tédio que mofa as coisas que achamos, equivocadamente, podem ser substituídas pelas “novidades”.
Certamente, alguém está mentindo e muitos outros sendo cruéis ao desconhecer que a vida de todos é feita de altos e baixos e há uma dissonância entre as emoções dos que convivem e interagem. É o que comemoram os balanços da Industria Farmacêutica e gritam as estatísticas policiais, apontando para um consumo desenfreado de antidepressivos, ansiolíticos e outras drogas, lícitas e ilícitas, que facilitam a fuga da realidade.
É difícil um equilíbrio entre alegria e tristeza determinado pelas nossas insatisfações e pelas circunstâncias que a vida nos impõe. Mais difícil ainda, não ser seduzido pela indústria do prazer e pelo aconchego das correntes de calmaria “química” ou, se nos sentimos infelizes, nos entregar às nossas angustias.
Como a minha, a sua e de uma grande maioria de vidas é feita de coisas normais. Ninguém suportaria viver só de festas e excitação. O que achamos seja a felicidade do outro, inseguros que somos e sempre a ponto de levantar nossas âncoras para aquele estilo de vida que nos fascina poderia nos roubar o equilíbrio.
Esquecem-se os frenéticos, que a vida também desvia seu curso para nos pregar peças desagradáveis e aquela rotina que demonizamos, pode virar o sonho dourado. A calma e o silêncio da casa do vizinho começam a penetrar nossos ouvidos com a força de uma sinfonia de Beethoven ou como uma possibilidade de paz e normalidade. Ao tempo em que sua grama começa a possuir o viço da nossa, na primavera, suas flores desabrocham com a vitalidade e beleza semelhantes as que habitam nossos jardins.
ALICE ROSSINI
Os que não se inserem no “Bloco do prazer” são os sacrílegos. Os eremitas, os anti-sociais, os que deixam a vida passar. São os que não valorizam a alegria e desconhecem as inúmeras formas de reverenciá-la. Assim como os que não adotam os parâmetros oficialmente reconhecidos de como é o “jeito certo de ser feliz” e como "saber divertir-se", rotulam os que vivem suas vidas de forma independente, pessoal, mais crítica ou reflexiva, como “pessoas de mal com a vida”. Inferências impregnadas de preconceito, ignorância e falta de consciência do quanto as diferenças entre os seres são necessárias.
A qualquer desatenção, a diversão vira uma regra pétrea. Enquanto a normalidade, a rotina apaziguadora do sentar-se à mesa com a família e compartilhar um prato de sopa ou diante do computador e enviar mensagens aos amigos, o fechar a porta do quarto e ir mais cedo para o aconchego de suas camas, tornam-se ações carregadas com o peso da obrigação, com o gosto amargo dos remédios, com o cheiro do tédio que mofa as coisas que achamos, equivocadamente, podem ser substituídas pelas “novidades”.
Certamente, alguém está mentindo e muitos outros sendo cruéis ao desconhecer que a vida de todos é feita de altos e baixos e há uma dissonância entre as emoções dos que convivem e interagem. É o que comemoram os balanços da Industria Farmacêutica e gritam as estatísticas policiais, apontando para um consumo desenfreado de antidepressivos, ansiolíticos e outras drogas, lícitas e ilícitas, que facilitam a fuga da realidade.
É difícil um equilíbrio entre alegria e tristeza determinado pelas nossas insatisfações e pelas circunstâncias que a vida nos impõe. Mais difícil ainda, não ser seduzido pela indústria do prazer e pelo aconchego das correntes de calmaria “química” ou, se nos sentimos infelizes, nos entregar às nossas angustias.
Como a minha, a sua e de uma grande maioria de vidas é feita de coisas normais. Ninguém suportaria viver só de festas e excitação. O que achamos seja a felicidade do outro, inseguros que somos e sempre a ponto de levantar nossas âncoras para aquele estilo de vida que nos fascina poderia nos roubar o equilíbrio.
Esquecem-se os frenéticos, que a vida também desvia seu curso para nos pregar peças desagradáveis e aquela rotina que demonizamos, pode virar o sonho dourado. A calma e o silêncio da casa do vizinho começam a penetrar nossos ouvidos com a força de uma sinfonia de Beethoven ou como uma possibilidade de paz e normalidade. Ao tempo em que sua grama começa a possuir o viço da nossa, na primavera, suas flores desabrocham com a vitalidade e beleza semelhantes as que habitam nossos jardins.
ALICE ROSSINI
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
COLESTEROL BOM X TREINAMENTO AERÓBICO
A MELHORA DOS NIVEIS DE COLESTEROL BOM (HDL-C) É INDUZIDO PELO TREINAMENTO AERÓBICO DE ALTA E BAIXA INTENSIDADE
Atualmente a doença cardiovascular tem sido a maior causa de morte em âmbito mundial, classificada como uma doença degenerativa entre as que quais mais causam prejuízos sociais.
De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) as doenças cardiovasculares origina-se por patologias relacionadas ao coração e vasos sanguíneos. Entre elas inclui: doença cardíaca coronariana, acidente vascular cerebral (AVC), doença arterial periférica, doença cardíaca reumática, cardiopatia congênita e insuficiência cardíaca.
Se as tendências atuais continuarem, até 2015 estima-se que 20 milhões de pessoas morrerão vítimas de doenças cardiovasculares, principalmente a partir de ataque cardíacos e acidentes vasculares cerebrais.
Contudo a mudança de hábitos mais saudáveis no estilo de vida das pessoas pode contribuir para a preversão deste quadro, fazendo este um fator determinante em prol desta causa. A prática de exercícios aeróbios regulares acompanhados de uma nutrição balanceada está extremamente relacionada à redução desses riscos, e os estudos mais recentes nos comprovam tais benefícios, que esta modalidade associada à boa nutrição tem agregado a centenas e milhares de adeptos ao passar dos anos, independente de idade, cor ou etnia.
Assim o valor do exercício aeróbio regular na redução do risco de doenças cardiovasculares e aumento nos níveis plasmáticos da lipoproteína de alta densidade colesterol (HDL-C O BOM COLESTEROL) têm recebido ampla aceitação. Pesquisas atuais e evidências sugerem que o HDL - C é um componente preditor negativo de doenças cardiovasculares, sugerindo que o baixo HDL- C traz um grande risco cardiovascular.
Um mecanismo mais bem compreendido do HDL- C para sua proteção cardiovascular é o transporte reverso do colesterol que, inclui a remoção do excesso de colesterol da parede arterial a partir das membranas celulares e tecidos periféricos como também a remoção de macrófagos. Os macrófagos são um tipo de glóbulos brancos que começam suas vidas como monócitos. Monocytes are produced in the bone marrow and circulate throughout the bloodstream. (Os monócitos são produzidos na medula óssea e circulam em toda a corrente sanguínea). When an infection or inflammation triggers a response, the monocytes can leave the blood stream and enter other tissues and organs in the body. (Quando uma infecção ou inflamação desencadeia uma resposta, os monócitos deixam o fluxo de sangue e entram em outros tecidos e órgãos do corpo). After leaving the blood stream, monocytes develop into macrophages or dendritic cells. (Depois de sair da corrente sanguínea, monócitos desenvolvem-se em macrófagos, ou células dendríticas), substâncias transportadas pelo HDL- C para o fígado e excretadas na bílis (principal via de eliminação), com reabsorção de cerca de dois terços do (ciclo êntero-hepático).
Além do transporte reverso do colesterol, o HDL-C apresenta diversas atividades antiaterogênicas que contribuem para sua capacidade preventiva contra doenças arteriais coronariana com ações: anti-infamatórias (inflamação endotelial), antioxidante (Oxidação da lipoproteína de baixa densidade-colesterol LDL- C o MAU COLESTEROL), ação vasodilatadora (promove a produção endotelial do óxido nítrico), diminuição de agregação plaquetária e coagulação, além da integridade da ação do endotélio.
Segundo Kodama et al. existe uma crescente aceitação do efeito que o exercício aeróbio regular tem sobre o aumento nos níveis de HDL- C. O mais sustentado e distinto efeito do exercício sobre as lipoproteínas é o aumento do HDL-C circulante.
Portanto já é de consenso que o exercício aeróbio regular atua de forma terapêutica e preventiva sobre as doenças cardiovasculares, contudo a duração e intensidade na qual os efeitos positivos tornam-se evidentes ainda não estão bem esclarecidas. Apesar deste fator, algumas revisões literárias nos apontam tais benefícios.
Em um estudo realizado por Ducan et al. (27) realizado com 492 indivíduos concluiu que o treinamento de alta intensidade e alto volume foi a única intervenção que produziu efeito significativo sobre os níveis plasmático de HDL –C. Outro estudo realizado por Slentz. et al (28) com 249 indivíduos sedentários com sobrepeso concluiu que somente o treinamento de alta intensidade e alto volume realizados sobre a supervisão do fator de segurança pode resultar em melhorias sustentadas na modificação do BOM COLESTEROL, sendo mais uma vez o volume do treinamento por sessão o mais importante preditor de alteração no HDL-C.
A grande prova desta evolução é a crescente desta atividade quem ocorrendo durante a década, acompanhada dos eventos de corrida que toma as ruas e cidades de todo o mundo e com ela, vem crescendo os investimentos e especialistas neste setor.
Não obstante a toda essa evolução, atualmente as pessoas tem encontrado na caminhada e na corrida de rua, a oportunidade de realizar uma atividade física de baixo custo e de altos benefícios para saúde, desde que acompanhada pelo aval de seu cardiologista e uma equipe multidisciplinar, ou por um profissional de Educação Física capacitado para o desenvolvimento desta atividade dentro dos seus padrões de segurança.
Agora que já sabes de todos esses benefícios é só se preparar para iniciar.
Referência:
Moturama M, Silva P.J, Lima C.P. W, Junior C. L.
REVISTA BRASILEIRA DE FISIOLOGIA DO EXERCÍCIO
(volume 09 – número 03 jul/Set 2010)
LUCAS OLIVEIRA
WORKOUT TEAM
Atualmente a doença cardiovascular tem sido a maior causa de morte em âmbito mundial, classificada como uma doença degenerativa entre as que quais mais causam prejuízos sociais.
De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) as doenças cardiovasculares origina-se por patologias relacionadas ao coração e vasos sanguíneos. Entre elas inclui: doença cardíaca coronariana, acidente vascular cerebral (AVC), doença arterial periférica, doença cardíaca reumática, cardiopatia congênita e insuficiência cardíaca.
Se as tendências atuais continuarem, até 2015 estima-se que 20 milhões de pessoas morrerão vítimas de doenças cardiovasculares, principalmente a partir de ataque cardíacos e acidentes vasculares cerebrais.
Contudo a mudança de hábitos mais saudáveis no estilo de vida das pessoas pode contribuir para a preversão deste quadro, fazendo este um fator determinante em prol desta causa. A prática de exercícios aeróbios regulares acompanhados de uma nutrição balanceada está extremamente relacionada à redução desses riscos, e os estudos mais recentes nos comprovam tais benefícios, que esta modalidade associada à boa nutrição tem agregado a centenas e milhares de adeptos ao passar dos anos, independente de idade, cor ou etnia.
Assim o valor do exercício aeróbio regular na redução do risco de doenças cardiovasculares e aumento nos níveis plasmáticos da lipoproteína de alta densidade colesterol (HDL-C O BOM COLESTEROL) têm recebido ampla aceitação. Pesquisas atuais e evidências sugerem que o HDL - C é um componente preditor negativo de doenças cardiovasculares, sugerindo que o baixo HDL- C traz um grande risco cardiovascular.
Um mecanismo mais bem compreendido do HDL- C para sua proteção cardiovascular é o transporte reverso do colesterol que, inclui a remoção do excesso de colesterol da parede arterial a partir das membranas celulares e tecidos periféricos como também a remoção de macrófagos. Os macrófagos são um tipo de glóbulos brancos que começam suas vidas como monócitos. Monocytes are produced in the bone marrow and circulate throughout the bloodstream. (Os monócitos são produzidos na medula óssea e circulam em toda a corrente sanguínea). When an infection or inflammation triggers a response, the monocytes can leave the blood stream and enter other tissues and organs in the body. (Quando uma infecção ou inflamação desencadeia uma resposta, os monócitos deixam o fluxo de sangue e entram em outros tecidos e órgãos do corpo). After leaving the blood stream, monocytes develop into macrophages or dendritic cells. (Depois de sair da corrente sanguínea, monócitos desenvolvem-se em macrófagos, ou células dendríticas), substâncias transportadas pelo HDL- C para o fígado e excretadas na bílis (principal via de eliminação), com reabsorção de cerca de dois terços do (ciclo êntero-hepático).
Além do transporte reverso do colesterol, o HDL-C apresenta diversas atividades antiaterogênicas que contribuem para sua capacidade preventiva contra doenças arteriais coronariana com ações: anti-infamatórias (inflamação endotelial), antioxidante (Oxidação da lipoproteína de baixa densidade-colesterol LDL- C o MAU COLESTEROL), ação vasodilatadora (promove a produção endotelial do óxido nítrico), diminuição de agregação plaquetária e coagulação, além da integridade da ação do endotélio.
Segundo Kodama et al. existe uma crescente aceitação do efeito que o exercício aeróbio regular tem sobre o aumento nos níveis de HDL- C. O mais sustentado e distinto efeito do exercício sobre as lipoproteínas é o aumento do HDL-C circulante.
Portanto já é de consenso que o exercício aeróbio regular atua de forma terapêutica e preventiva sobre as doenças cardiovasculares, contudo a duração e intensidade na qual os efeitos positivos tornam-se evidentes ainda não estão bem esclarecidas. Apesar deste fator, algumas revisões literárias nos apontam tais benefícios.
Em um estudo realizado por Ducan et al. (27) realizado com 492 indivíduos concluiu que o treinamento de alta intensidade e alto volume foi a única intervenção que produziu efeito significativo sobre os níveis plasmático de HDL –C. Outro estudo realizado por Slentz. et al (28) com 249 indivíduos sedentários com sobrepeso concluiu que somente o treinamento de alta intensidade e alto volume realizados sobre a supervisão do fator de segurança pode resultar em melhorias sustentadas na modificação do BOM COLESTEROL, sendo mais uma vez o volume do treinamento por sessão o mais importante preditor de alteração no HDL-C.
A grande prova desta evolução é a crescente desta atividade quem ocorrendo durante a década, acompanhada dos eventos de corrida que toma as ruas e cidades de todo o mundo e com ela, vem crescendo os investimentos e especialistas neste setor.
Não obstante a toda essa evolução, atualmente as pessoas tem encontrado na caminhada e na corrida de rua, a oportunidade de realizar uma atividade física de baixo custo e de altos benefícios para saúde, desde que acompanhada pelo aval de seu cardiologista e uma equipe multidisciplinar, ou por um profissional de Educação Física capacitado para o desenvolvimento desta atividade dentro dos seus padrões de segurança.
Agora que já sabes de todos esses benefícios é só se preparar para iniciar.
Referência:
Moturama M, Silva P.J, Lima C.P. W, Junior C. L.
REVISTA BRASILEIRA DE FISIOLOGIA DO EXERCÍCIO
(volume 09 – número 03 jul/Set 2010)
LUCAS OLIVEIRA
WORKOUT TEAM
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
A GARRAFA E OS ÓCULOS ESCUROS
Não tinha jeito, se havia alguém que sabia da vida alheia e não perdia tempo em fazer fofoca sobre ela eram os óculos escuros. Por trás de sua opacidade, uma personalidade enigmática, que apenas conhecemos por seu indescritível gosto por boatos e maldizeres. Vira e mexe e eles estavam a fofocar sobre a vida de fulano, espalhar rumores sobre cicrano, dividir as intimidades de beltrano com todos e revelar qualquer sórdido detalhe da vida de algum outro personagem genérico. Se, por um lado, todos adoravam ouvir as fofocas e poder apontar o dedo, também não havia ninguém que não morresse de medo de ser alvo dos boatos malditos.
Certo dia, a garrafa foi conversar com os óculos escuros. O singelo e transparente recipiente de vidro tinha muito o que conversar com ele - assuntos passados que não vêm ao caso. Após a longa conversa, garrafa e óculos escuros se despediram. Pensando a garrafa que os assuntos tinham sido resolvidos, foi grande a surpresa ao ver todos apontarem-lhe o dedo.
- Óculos escuros! Óculos escuros! - chamou ela, preocupada - Não imagina o que está acontecendo! Todos estão falando de mim pelas costas!
- É? - perguntou ele, prestando mais atenção a qualquer outra coisa ao redor - E o que estão falando?
- Tudo o que não poderiam falar! Coisas que só eu sei, que nem mesmo meus amigos sabem!
- Se não contou para ninguém, não sei como descobriram.
- Mas tem que ter um jeito! Achei que o senhor soubesse!
O óculos escuros suspirou e olhou a garrafa com um tom de desprezo, mas é claro que ela não fazia idéia das feições dele por trás das negras lentes.
- Minha cara garrafa... - começou ele - Quando a vi chegando até mim, preparei-me para ignorar um longo sermão seu.
- Sermão? - indagou a garrafa
- Sim, mas me enganei. Na verdade, eu a superestimei!
- Poderia, por favor, me explicar do que está falando?
- Eu imaginei que você, no mínimo, teria descoberto que fui eu o autor dos rumores, assim como sou o responsável por qualquer outra fofoca que já tenha ouvido.
- Foi você?! - perguntou a garrafa, mal conseguindo respirar
- Oh, garrafa... - lamentou ele - você é tão ingênua quanto transparente.
- Eu... Eu confiei em você!
- Confiou no maior fofoqueiro da região. Pra falar a verdade, você foi a pessoa mais fácil de arrancar alguma memória tenebrosa. Só preciso de uma simples olhada para enxergar através de você. Francamente, você era burra o bastante para não perceber a sua transparência ou era ingênua a ponto de julgar isto uma qualidade?
Nesse momento, a garrafa já não conseguia acreditar no que ouvia. Um grande amigo seu provara ser um verdadeiro diabo por baixo dos panos.
- Eu também vou falar mal de você! - reagiu ela
- Ah, é? - provocou ele - E o que vai falar?
- Bem... - pensou ela - É óbvio que... er...
- Você não tem o que falar sobre mim, por que não sabe nada sobre mim.
- Mas eu te conheço há muito tempo.
- Até mesmo séculos de pseudo-amizade podem ser enganados pela negritude de minhas lentes. - explicou - Por detrás delas, nada é conhecido, nada é percebido, nada é compartilhado.
A garrafa agora entendia a invulnerabilidade do óculos escuros, bem como sua suprema capacidade de espalhar rumores. Ele era como uma junção perfeita de ataque, uma figura capaz de atacar qualquer um, mas sem qualquer chance de ser atacado. Foi nesse momento que um pensamento audacioso lhe veio à cabeça.
- Sabe de uma? – perguntou ela, em tom de desafio e reflexão
- Sei de todas! – respondeu ele, convicto
- Não é uma fofoca! – explicou ela
- Ah, então o que é?
- Sabe por que gosto de ser transparente?
- Por que é retardada!
- Não, mas por que é o único jeito de deixar a luz passar por mim. - explicou
- E dai?
A garrafa sabia exatamente o que dizer, mas, naquele momento, apenas virou as costas. Ela sabia das feições do óculos escuros ao pronunciar suas últimas palavras nesta história. Por mais escuras que as lentes do óculos fossem, ela tinha certeza de ter visto o desprezo e o desdém por debaixo daquele anonimato.Ela não precisou dizer que a luz que passava pelo vidro de seu corpo não a deixava apenas visível a todos, mas também lhe abria portas para os outros. Coisa que óculos escuros algum propiciam. A garrafa apenas virou de costas e seguiu o seu caminho...
… Os últimos pensamentos da garrafa eram sobre algo que nem mesmo a habilidade de arranjar informações dos óculos escuros conseguia fuçar. O real significado da luz.
RAFAEL NEVES - estudante
Certo dia, a garrafa foi conversar com os óculos escuros. O singelo e transparente recipiente de vidro tinha muito o que conversar com ele - assuntos passados que não vêm ao caso. Após a longa conversa, garrafa e óculos escuros se despediram. Pensando a garrafa que os assuntos tinham sido resolvidos, foi grande a surpresa ao ver todos apontarem-lhe o dedo.
- Óculos escuros! Óculos escuros! - chamou ela, preocupada - Não imagina o que está acontecendo! Todos estão falando de mim pelas costas!
- É? - perguntou ele, prestando mais atenção a qualquer outra coisa ao redor - E o que estão falando?
- Tudo o que não poderiam falar! Coisas que só eu sei, que nem mesmo meus amigos sabem!
- Se não contou para ninguém, não sei como descobriram.
- Mas tem que ter um jeito! Achei que o senhor soubesse!
O óculos escuros suspirou e olhou a garrafa com um tom de desprezo, mas é claro que ela não fazia idéia das feições dele por trás das negras lentes.
- Minha cara garrafa... - começou ele - Quando a vi chegando até mim, preparei-me para ignorar um longo sermão seu.
- Sermão? - indagou a garrafa
- Sim, mas me enganei. Na verdade, eu a superestimei!
- Poderia, por favor, me explicar do que está falando?
- Eu imaginei que você, no mínimo, teria descoberto que fui eu o autor dos rumores, assim como sou o responsável por qualquer outra fofoca que já tenha ouvido.
- Foi você?! - perguntou a garrafa, mal conseguindo respirar
- Oh, garrafa... - lamentou ele - você é tão ingênua quanto transparente.
- Eu... Eu confiei em você!
- Confiou no maior fofoqueiro da região. Pra falar a verdade, você foi a pessoa mais fácil de arrancar alguma memória tenebrosa. Só preciso de uma simples olhada para enxergar através de você. Francamente, você era burra o bastante para não perceber a sua transparência ou era ingênua a ponto de julgar isto uma qualidade?
Nesse momento, a garrafa já não conseguia acreditar no que ouvia. Um grande amigo seu provara ser um verdadeiro diabo por baixo dos panos.
- Eu também vou falar mal de você! - reagiu ela
- Ah, é? - provocou ele - E o que vai falar?
- Bem... - pensou ela - É óbvio que... er...
- Você não tem o que falar sobre mim, por que não sabe nada sobre mim.
- Mas eu te conheço há muito tempo.
- Até mesmo séculos de pseudo-amizade podem ser enganados pela negritude de minhas lentes. - explicou - Por detrás delas, nada é conhecido, nada é percebido, nada é compartilhado.
A garrafa agora entendia a invulnerabilidade do óculos escuros, bem como sua suprema capacidade de espalhar rumores. Ele era como uma junção perfeita de ataque, uma figura capaz de atacar qualquer um, mas sem qualquer chance de ser atacado. Foi nesse momento que um pensamento audacioso lhe veio à cabeça.
- Sabe de uma? – perguntou ela, em tom de desafio e reflexão
- Sei de todas! – respondeu ele, convicto
- Não é uma fofoca! – explicou ela
- Ah, então o que é?
- Sabe por que gosto de ser transparente?
- Por que é retardada!
- Não, mas por que é o único jeito de deixar a luz passar por mim. - explicou
- E dai?
A garrafa sabia exatamente o que dizer, mas, naquele momento, apenas virou as costas. Ela sabia das feições do óculos escuros ao pronunciar suas últimas palavras nesta história. Por mais escuras que as lentes do óculos fossem, ela tinha certeza de ter visto o desprezo e o desdém por debaixo daquele anonimato.Ela não precisou dizer que a luz que passava pelo vidro de seu corpo não a deixava apenas visível a todos, mas também lhe abria portas para os outros. Coisa que óculos escuros algum propiciam. A garrafa apenas virou de costas e seguiu o seu caminho...
… Os últimos pensamentos da garrafa eram sobre algo que nem mesmo a habilidade de arranjar informações dos óculos escuros conseguia fuçar. O real significado da luz.
RAFAEL NEVES - estudante
Assinar:
Postagens (Atom)